Rejeição de torcedoras ao patrocínio da Fatal Fans abala imagem do CorinthiansPor Beatriz
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O Corinthians tem enfrentado uma onda de críticas de suas torcedoras, desde que revelou a Fatal Fans, uma plataforma de conteúdo adulto por assinatura, como sua mais recente patrocinadora. A companhia faz parte do mesmo grupo, a Atlas Technologies, que também detém a Fatal Model, um portal conhecido por anúncios de acompanhantes. A data do anúncio e a repercussão intensificaram, gerando debates acalorados entre os fãs do clube.
Nas plataformas digitais, muitas torcedoras expressaram que a aliança comercial representa uma “mancha na história” do time, causando nelas, pela primeira vez, um sentimento de vergonha de sua identificação com o clube. Um ponto central das manifestações é que a união com uma plataforma de conteúdo adulto entra em conflito direto com o legado do Corinthians em movimentos políticos e sociais, além das próprias ações do clube em prol das mulheres.
O impacto do novo patrocínio no time feminino, as Brabas
Esta contradição se intensifica ao considerar a notável trajetória das Brabas, a equipe feminina do Corinthians, reconhecida como uma das mais bem-sucedidas no Brasil e na América do Sul. Adicionalmente, o clube mantém ativa a campanha Respeita as Minas, uma iniciativa dedicada a combater a violência contra a mulher e a fomentar a igualdade de gênero, tanto dentro quanto fora dos gramados.
A criadora de conteúdo sobre futebol, Dezza Tornelli, uma torcedora corintiana, classifica a nova parceria como um retrocesso. Ela salientou a importância das Brabas para atrair espectadores masculinos ao futebol feminino e desconstruir preconceitos, mas lamenta que essa evolução não se observe igualmente dentro da estrutura do clube.
“Eu observava alguns homens mais velhos que, evidentemente, desenvolveram um carinho pelo time feminino devido à sua garra e ao desejo de conquistar troféus. Anos mais tarde, a campanha Respeita as Minas parece-me mais focada em publicações no Instagram do que em uma verdadeira conscientização interna do clube”, pondera Dezza.
A insatisfação de Dezza com a escolha do clube é amplificada pelo profundo laço afetivo que possui com a equipe e pela relevância que o Corinthians alcançou no cenário do futebol feminino.
“É surreal ser uma mulher que ama um universo que parece te rejeitar. Eu aprecio o futebol, mas meu coração é do Corinthians. Minha equipe está entre as mais icônicas no futebol feminino, com feitos históricos, campeonatos e reconhecimento global, e uma base de fãs que a adora e a apoia incondicionalmente”, finaliza Dezza.
Inicialmente, a oposição à colaboração poderia ser vista como uma postura conservadora em relação ao conteúdo adulto. No entanto, Beatriz Ketlyn, responsável por um perfil voltado ao Corinthians, argumenta que a crítica se fundamenta nos estereótipos e na objetificação frequentemente vividos pelas mulheres no contexto esportivo.
“Mesmo reconhecendo que várias mulheres se inserem no universo do conteúdo adulto, seja por questões financeiras ou por escolha pessoal, temos ciência da bagagem histórica que acompanha essa realidade. É desanimador que um clube que proclama ‘respeitar as minas’ endosse um patrocínio com tal associação”, pontua Ketlyn.
Segundo a percepção das torcedoras consultadas, a aliança também pode ser reflexo da pressão ocasionada pela condição econômica do clube.
“É conveniente para aqueles que se sentem perturbados, e até exaltados, pelo fato de o futebol feminino ter sua própria audiência e relevância. Igualmente, é cômodo para a administração do clube. Considero que é um marco negativo na história, do meu ponto de vista como mulher corintiana”, critica Dezza, argumentando que a decisão consolida uma cultura misógina já enraizada no esporte.
Movimento contra o patrocínio ganha força com petição e projeto de lei
Nos dias mais recentes, as manifestações de repúdio foram além das fronteiras das redes sociais. Agora, ativistas, profissionais da educação e legisladores também contestam a conexão entre uma plataforma de conteúdo adulto e uma instituição esportiva que possui um público significativo de crianças e adolescentes.
Uma iniciativa virtual foi lançada com o objetivo de solicitar limitações à divulgação de empresas relacionadas ao conteúdo adulto em uniformes esportivos e em áreas de acesso público. Esta petição, até a veiculação desta notícia, já acumulava mais de 40 mil adesões.
Um dos argumentos cruciais é a percepção de que a exposição da marca em vestimentas e demais locais associados ao Corinthians auxilia na aceitação e naturalização desse tipo de plataforma no universo esportivo.
Lari Agostini, fundadora da ONG Digna Brasil, e Sheylli Caleffi, educadora dedicada à prevenção da violência sexual e online, declararam ter recorrido ao Ministério Público para requerer medidas sobre o patrocínio em questão.
Em suas plataformas digitais, Sheylli sugeriu que a criação da Fatal Fans pode ser uma tática para evitar as restrições que a Fatal Model encontrou no setor esportivo. Embora ambas as marcas, Fatal Fans e Fatal Model, sejam produtos separados, elas fazem parte da mesma corporação. A Fatal Fans oferece conteúdo por assinatura, enquanto a Fatal Model atua como um portal para anúncios de acompanhantes.
“Esta não é uma companhia de material pornográfico, mas sim uma empresa ligada à prostituição. Sempre foi. Houve uma tentativa anterior, em 2024, de publicidade em campos de futebol, nas laterais, mas foram alvos de denúncias por desrespeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente, o que os forçou a recuar. Agora, criaram esta nova empresa para tentar ocultar a atividade principal”, afirmou Sheylli em um vídeo divulgado nas mídias sociais.
Nesta segunda-feira, dia 20, a deputada estadual Marina Helou apresentou na Assembleia Legislativa de São Paulo o Projeto de Lei número 740/2026. Esta iniciativa legislativa visa impedir a publicidade, a promoção e a disseminação de plataformas de conteúdo adulto e de serviços de acompanhantes em certas áreas dentro do estado.
Em resposta à controvérsia, o Corinthians e a Fatal Fans inauguraram um portal digital conectado à campanha Respeita as Minas. A plataforma oferece conteúdo sobre as variadas manifestações de violência contra a mulher, indicativos de alerta e orientações para vítimas e seus círculos sociais.
O site orienta as usuárias a procurar a Central de Atendimento à Mulher, através do número 180, e a Polícia Militar, pelo 190, em momentos de urgência. Além disso, disponibiliza dados sobre Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, a Defensoria Pública, o Ministério Público, Centros de Referência da Mulher e outros recursos da rede de apoio.
O acordo contratual estabelecido entre o Corinthians e a Fatal Fans permanece vigente até 31 de dezembro de 2027, com uma previsão de pagamento de R$ 22 milhões ao clube. Há uma cláusula que permite a extensão da parceria por mais um ano, o que aumentaria o valor total para R$ 31 milhões.
A identidade visual da patrocinadora será visível nos uniformes dos times masculinos de futebol, futsal e basquete. No entanto, para o futebol feminino, o local reservado para publicidade será usado para divulgar mensagens da campanha Respeita as Minas, sem exibir o nome da Fatal Fans. O contrato também veta a exposição da empresa nas categorias de base e proíbe qualquer tipo de campanha que vincule os atletas à plataforma ou associe o Corinthians a material que erotize ou objetifique o corpo.







