Prejuízo com furtos de cartas Pokémon ultrapassa meio milhão de dólares no mundo

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cards de Pokémon Foto: cards de Pokémon - MichaelJayBerlin / Shutterstock.com

Na madrugada do dia 7 de julho, a tranquilidade da loja Next Level The Gamers Den, localizada na cidade de Graham, no estado americano de Washington, foi interrompida por uma ação criminosa fulminante. Em uma janela de tempo inferior a cento e vinte segundos, dois indivíduos romperam o vidro reforçado do estabelecimento, ignoraram os alertas sonoros de segurança e esvaziaram prateleiras inteiras para dentro de grandes caixas. O saldo da investida rápida resultou em um prejuízo estimado em dez mil dólares, focado exclusivamente em produtos da famosa franquia dos monstros de bolso.

Esse episódio no noroeste dos Estados Unidos está longe de ser uma ocorrência isolada no cenário atual. Desde que as restrições sanitárias da covid-19 alteraram a dinâmica de consumo global, o mercado de itens colecionáveis sofreu uma valorização sem precedentes, transformando o que antes era um passatempo de nicho em um alvo altamente lucrativo para redes criminosas especializadas.

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A expansão internacional dos delitos e o impacto financeiro no varejo

A onda de saques a estabelecimentos focados em cultura pop atingiu proporções alarmantes ao longo do ano de 2024, gerando perdas que já ultrapassam a marca de meio milhão de dólares. Para entender a dimensão desse problema, basta observar a distribuição geográfica dos ataques recentes, que não respeitam fronteiras e afetam grandes centros urbanos em diferentes continentes. Entre as regiões que registraram boletins de ocorrência com o mesmo padrão de invasão, destacam-se:

  • Las Vegas e Nova York, representando os grandes polos comerciais dos Estados Unidos.
  • Vancouver, no Canadá, evidenciando a vulnerabilidade do mercado norte-americano.
  • Nottingham, na Inglaterra, mostrando que o continente europeu também entrou na rota dos assaltantes.

O comerciante Andrew Engelbeck, que gerencia a unidade atacada em Graham desde o ano de 2018, relata que a rotina do negócio era pacífica durante os primeiros 36 meses de operação. A virada de chave, segundo o empresário, aconteceu exatamente quando os preços das coleções começaram a inflar de maneira descontrolada, criando um ambiente de insegurança constante para quem trabalha no setor de entretenimento analógico.

Liquidez imediata e facilidade de transporte atraem assaltantes

A economia por trás desses pedaços de papelão metalizado passou por uma metamorfose impressionante recentemente, com avaliações de mercado dobrando de tamanho em um intervalo de apenas doze meses. Essa escalada de preços, aliada à natureza física do produto, formou a tempestade perfeita para quem busca lucros ilícitos rápidos e com baixo esforço logístico.

Nick German, diretor executivo do Board of Certified Trading Cards, detalha que a matemática do crime nesse segmento é extremamente favorável aos infratores. Ele pontua que um invasor consegue subtrair um punhado de retângulos de papel e, em questão de horas, converter esse material em dezenas de milhares de dólares no mercado paralelo, aproveitando a altíssima liquidez que esses itens possuem entre compradores informais.

Outro fator determinante é a portabilidade extrema do material roubado. Diferente de televisores ou eletrodomésticos, dezenas de cartas raras podem ser escondidas nos bolsos de uma jaqueta ou em uma mochila pequena, permitindo que os bandidos entrem e saiam dos locais em frações de minuto, reduzindo drasticamente as chances de confronto com patrulhas policiais.

Invasões residenciais revelam mudança no perfil das vítimas

A ousadia das quadrilhas já ultrapassou as vitrines do comércio varejista e começou a invadir a privacidade de colecionadores particulares. No mês de fevereiro, um influenciador digital conhecido na comunidade como “Pokedeen” compartilhou registros em vídeo de sua casa completamente revirada após retornar de uma viagem, deparando-se com expositores vazios e gavetas arrombadas por toda a propriedade.

O detalhe mais revelador desse arrombamento domiciliar foi a seletividade dos criminosos na hora de escolher os espólios. Equipamentos caros como videogames de última geração e computadores portáteis foram ignorados pelos invasores, pois eletrônicos possuem números de série rastreáveis e bloqueios de sistema via internet. O foco exclusivo da ação foram as pastas contendo as edições premium de Pokémon, que funcionam essencialmente como dinheiro vivo e indetectável nas mãos de receptadores.

Da criação no Japão ao frenesi bilionário durante o isolamento

Para compreender o valor atual dessa propriedade intelectual, é preciso voltar às origens do fenômeno idealizado pelo game designer japonês Satoshi Tajiri. Inspirado por sua paixão de infância por capturar insetos, ele lançou os primeiros jogos eletrônicos em 1996, acompanhados simultaneamente pelo jogo de mesa. A febre desembarcou no território americano em meados de 1999, consolidando uma base de fãs que cresceu junto com a marca.

Contudo, foi a crise sanitária global que injetou um volume absurdo de capital nesse ecossistema. Com as famílias trancadas em casa e buscando formas de entretenimento nostálgico, o dinheiro que seria gasto em viagens e eventos foi redirecionado para o hobby. A demanda engoliu a capacidade de produção das fábricas, os preços no mercado secundário dispararam e os criminosos rapidamente perceberam onde a nova riqueza estava armazenada.

Celebrações da franquia e o ciclo contínuo de impunidade

O aquecimento mais recente desse mercado paralelo tem ligação direta com as campanhas promocionais que antecedem o trigésimo aniversário da marca, celebrado em fevereiro. O lançamento de coleções limitadas, parcerias com outras empresas e a forte presença na mídia despertaram o instinto de urgência nos compradores, elevando ainda mais as cotações e, consequentemente, colocando um alvo maior nas costas de quem possui esses ativos.

O cenário se torna ainda mais desanimador devido à ineficiência das autoridades em solucionar esses delitos, como ilustra o caso da loja no estado de Washington, que já sofreu múltiplas invasões sem que ninguém fosse parar atrás das grades. Essa ausência de punições severas evidencia falhas graves nos processos de investigação e na identificação de suspeitos, criando uma sensação de passe livre para novas investidas contra os lojistas.

Enquanto a disparidade entre a oferta limitada e a demanda voraz continuar ditando as regras desse universo, a especulação financeira não dará sinais de recuo. Diante dessa realidade, tanto os donos de pequenos comércios quanto os entusiastas que guardam suas relíquias em casa precisarão investir pesado em sistemas de segurança, pois o risco de perder fortunas de papelão da noite para o dia continua sendo uma ameaça real e crescente.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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