A Austrália confirmou a detecção do vírus H5N1 da gripe aviária em 102 aves marinhas selvagens, abrangendo cinco estados do país. Este é o primeiro registro de morte em massa de pássaros devido à doença no território australiano, acendendo um alerta.
A questão central não é mais se o vírus H5N1 pode causar danos à vida selvagem australiana, mas sim qual a melhor forma de utilizar todas as ferramentas disponíveis para proteger as espécies mais vulneráveis.
A vacinação, embora não consiga deter a propagação completa do H5N1 entre os animais selvagens, pode ser essencial para evitar que um surto extermine todas as espécies em risco numa determinada área. Isso evitaria extinções locais devastadoras.
Diante desse cenário, a Austrália precisa iniciar a vacinação direcionada de aves ameaçadas. É igualmente urgente que o país desenvolva uma estratégia para a proteção de focas e leões-marinhos, evitando assim que a espera resulte na morte de milhares de indivíduos.
Políticas existentes e a necessidade de ações menos cautelosas
A Austrália já possui uma política nacional que autoriza a vacinação emergencial de aves raras, protegidas e de alto valor, incluindo animais em zoológicos, santuários, programas de reprodução e algumas populações selvagens gerenciadas.
O governo australiano também adquiriu uma vacina inativada contra o H5, que não contém o vírus vivo, e está conduzindo estudos piloto em aves não avícolas mantidas em cativeiro.
Embora essas ações representem um avanço, ainda não configuram um programa público abrangente, como a abordagem ambiciosa e proativa da Nova Zelândia, que vacinou cinco de suas aves mais raras *antes* da chegada do H5N1, oferecendo um exemplo de prevenção.
Zoológicos e santuários australianos receberam investimentos para fortalecer a biossegurança e manter “populações de segurança” em cativeiro. As vacinações piloto estão em andamento, mas o governo ainda não divulgou quais espécies ameaçadas receberão vacinação em larga escala, nem os locais e prazos para tal.
Um ponto crucial é que a política atual não abrange espécies não-aviárias, excluindo mamíferos marinhos, apesar de sua comprovada vulnerabilidade ao H5N1. Até o momento, não foram anunciados publicamente planos para testes de vacinação em focas ou leões-marinhos na Austrália.
Como outros países têm enfrentado a gripe aviária em sua vida selvagem
A Nova Zelândia agiu de forma preventiva antes da chegada do H5N1. Após testes específicos para cada espécie, o país começou a imunizar cerca de 300 aves reprodutoras de espécies raras, como o kākāpō, takahē e pernaltas-pretas. Essas populações são mantidas em cativeiro ou sob gestão próxima, permitindo a localização, vacinação dupla e monitoramento dos indivíduos.
Já os Estados Unidos adotaram medidas após a morte de 21 condores-da-califórnia, uma espécie criticamente ameaçada, causada pelo H5N1. Até outubro de 2024, 207 condores em cativeiro e em vida livre haviam sido vacinados. A vacina foi considerada segura, com apenas duas aves apresentando reações adversas tratáveis.
A França, por sua vez, realizou um ensaio de vacina em filhotes de pinguins-rei selvagens na ilha subantártica francesa de Crozet. A vacina resultou na produção de anticorpos fortes e neutralizadores do vírus, sem a detecção de efeitos adversos.
Embora esses programas não garantam a prevenção de todas as infecções, a vacinação tem o potencial de atenuar a gravidade da doença e, assim, diminuir a mortalidade em populações ameaçadas.
Quais espécies da fauna australiana estão mais ameaçadas pela gripe aviária?
A vacinação em larga escala de animais selvagens em vida livre não é uma medida prática. A maioria das vacinas contra o H5 exige duas doses, e a captura da maioria dos animais selvagens já é um desafio único, tornando ainda mais difícil a recaptura para uma dose de reforço e exames de sangue.
Os candidatos mais adequados para a vacinação são pequenas populações de espécies em risco que sejam facilmente acessíveis ou que já estejam sob algum tipo de manejo. Isso inclui aves ameaçadas em zoológicos ou centros de reprodução, ou colônias menores e conhecidas que já possuam rastreamento ou manejo regular.
O governo australiano divulgou uma lista de espécies em risco, revelando que quase um quinto das espécies de aves e mamíferos do país apresentam risco alto, muito alto ou extremo em relação ao vírus.
Cinco espécies de aves enfrentam risco extremo: a fragata-da-ilha-christmas, o albatroz-de-houtman, o petrel-do-herald e o corvo-marinho-imperial das Ilhas Heard e Macquarie. Entre os mamíferos marinhos, os mais vulneráveis são o leão-marinho, o lobo-marinho e o elefante-marinho, enquanto o diabo-da-tasmânia e o quoll-oriental representam as espécies terrestres de maior risco.
As decisões sobre a vacinação devem ponderar o risco de extinção, a exposição ao vírus, os custos, a eficácia da vacina, a viabilidade de alcançar um número suficiente de animais e o estresse que a captura poderia causar. É fundamental que a vacinação complemente as medidas existentes de biossegurança, vigilância e conservação, e não as substitua.
Urgência de um plano de proteção para mamíferos marinhos na Austrália
O vírus H5N1 já causou um impacto devastador em populações de focas e leões-marinhos na América do Sul e no Oceano Antártico. Em 2023, mais de 17 mil filhotes de elefantes-marinhos-do-sul morreram na Argentina. Estima-se que 13.359 filhotes pereceram na Ilha Heard, subantártica australiana, em 2025, supostamente devido ao vírus. Em abril, os elefantes-marinhos-do-sul foram classificados como vulneráveis na Lista Vermelha da IUCN, em parte pela mortalidade catastrófica da gripe aviária. A recuperação dessas populações levará décadas.
Entre as focas mais vulneráveis da Austrália estão o ameaçado leão-marinho-australiano, os lobos-marinhos-australiano e-de-focinho-longo, e os elefantes-marinhos-do-sul. Já foram detectados andorinhas-do-mar positivas para H5N1 em Seal Bay, na Ilha Kangaroo, local de uma importante colônia reprodutiva de leões-marinhos-australianos. A Ilha Macquarie, subantártica australiana, abriga uma grande colônia reprodutiva de elefantes-marinhos-do-sul e, até o momento, permanece livre do H5N1.
Atualmente, não existe uma vacina contra a gripe aviária desenvolvida especificamente para mamíferos marinhos. Um teste realizado nos Estados Unidos, com o objetivo de proteger focas-monge-do-havaí em perigo, revelou que uma vacina originalmente criada para o gado mostrou-se segura em elefantes-marinhos-do-norte e gerou anticorpos mensuráveis.
Essa foi a espécie mais próxima para a qual havia uma vacina segura e licenciada condicionalmente disponível. O desenvolvimento e a aprovação de uma vacina individual para cada espécie selvagem são processos caros e demorados. Por essa razão, programas de conservação frequentemente adaptam vacinas já aprovadas para animais domésticos.
É o momento de agir: Austrália precisa de plano imediato
A Austrália deve urgentemente identificar colônias prioritárias de focas, testar vacinas candidatas em uma espécie substituta adequada e planejar a forma de implementação da vacinação. Não se deve aguardar para comprovar a suscetibilidade desses animais observando a ocorrência de mais mortes em massa.
A vacinação não é uma solução definitiva, mas quando uma doença tem o poder de anular anos de esforço de conservação em poucas semanas, não se pode esperar por uma certeza absoluta. É essencial agir antes que uma catástrofe ocorra.
