Programa de Mudanças Climáticas da FAPESP inclui saúde e ciências sociais
O Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais reformulou suas diretrizes para o próximo ciclo de planejamento, expandindo a atuação científica para saúde pública, ciências humanas e apoio a políticas governamentais. A reestruturação encerra a divisão tradicional de financiamento por disciplinas isoladas e busca solucionar uma disparidade identificada entre 2020 e 2025, período em que as ciências exatas responderam por 45% das propostas submetidas ao programa paulista.
A reorganização estabelece chamadas públicas orientadas a problemas transversais gerados pelo aquecimento global e pela intensificação de secas e inundações. Luiz Aragão, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e membro da coordenação do programa, explicou que a evolução metodológica não reduz o trabalho com modelagem física. “Não estamos abandonando a modelagem nem a investigação dos aspectos físicos das mudanças climáticas, fundamentais para entender os processos do clima e nos quais o programa sempre foi forte. A ideia é evoluir para atender às necessidades reais da sociedade”, disse Aragão.
Desequilíbrio de projetos no comitê gestor do clima da FAPESP
O diagnóstico feito pela coordenação indicou que a concentração nas ciências exatas contrastou com a baixa adesão de outras áreas entre 2020 e 2025: as propostas da saúde representaram apenas 4% do total analisado, enquanto as ciências humanas e sociais somaram cerca de 10%. A avaliação interna concluiu que a resposta aos extremos climáticos exige que a formulação de perguntas científicas envolva diretamente o planejamento sanitário e a redução de perdas econômicas no Sistema Único de Saúde.
Para Maria de Fátima Andrade, professora titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e integrante da coordenação do programa, a integração das ciências humanas precisa ocorrer na fase inicial dos estudos. “É preciso que as perspectivas sociais, políticas e comportamentais estejam embutidas desde a concepção dos editais, de modo que os projetos já nasçam com perguntas que envolvam dinâmicas sociais e impactos sobre populações vulneráveis”, afirmou a professora. Andrade apontou ainda que os modelos climáticos necessitam incorporar bases biológicas e hospitalares para orientar decisões governamentais com precisão.
Conceito de Saúde Única e cooperação com o BIOTA-FAPESP
O planejamento estratégico oficializou o princípio de Saúde Única, abordagem internacional que trata a saúde humana, animal e ambiental de maneira integrada frente às pressões meteorológicas. Como parte dessa diretriz, a professora Simone Miraglia, do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), passou a integrar a coordenação do programa para liderar os estudos que conectam poluição do ar e epidemiologia.
Simone Miraglia declarou que o enfrentamento das perdas sanitárias decorre do entendimento de que as populações humanas interagem diretamente com os ecossistemas. O programa prevê chamadas de propostas conjuntas com o BIOTA-FAPESP, iniciativa voltada à conservação e uso sustentável da biodiversidade no estado. O objetivo é unificar bases de dados para apoiar gestores públicos em zoneamentos ecológicos e estratégias de contingência urbana.
Cronologia dos debates científicos na Unicamp
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- 22 de setembro de 2026, às 09h: realização do 2º encontro Vozes do Futuro – Uma Só Saúde no auditório do Instituto de Geociências da Unicamp, em Campinas.
- 23 de setembro de 2026, às 08h30: abertura oficial do 6º Workshop do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais.
- 24 de setembro de 2026, às 18h: encerramento das apresentações temáticas e das discussões sobre as diretrizes do programa.
- 30 de setembro de 2026: publicação oficial das novas prioridades de pesquisa do programa.
Contribuições acumuladas desde a criação em 2008
Criado em 2008 pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, o programa acumulou 18 anos de produção científica dedicada à dinâmica climática brasileira. Os projetos financiados permitiram a caracterização dos rios voadores da Amazônia, explicando os mecanismos de transporte de umidade pelo continente, além de subsidiarem projeções de elevação do nível do mar que orientam planos diretores e obras de contenção na costa paulista. O programa também forneceu suporte ao experimento internacional AmazonFace, voltado a medir as respostas da vegetação amazônica diante de concentrações elevadas de dióxido de carbono.
A apresentação das novas diretrizes científicas ocorreu no Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas, que sediou a segunda edição do encontro Vozes do Futuro voltada a jovens pesquisadores. Enquanto a primeira edição do evento havia sido formatada para preparar contribuições científicas para a COP30, o encontro em Campinas focou a integração de dados biomédicos e climáticos, recebendo também a exposição científica sobre recursos hídricos coordenada pelo pesquisador Cristiano Chiessi.
Debate sobre obstrucionismo e limites planetários
Durante as discussões na Unicamp, David Lapola, pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri-Unicamp) e coordenador do programa, alertou para a transição do negacionismo clássico para o obstrucionismo diplomático e corporativo. O pesquisador explicou que essa postura reconhece a existência do problema climático, mas retarda decisões práticas sob o pretexto de aguardar soluções tecnológicas futuras.
“O obstrucionismo se apoia na crença de que a tecnologia vai nos salvar. A tecnologia nos salvou em vários momentos da nossa história, como as vacinas, por exemplo, que foram fundamentais na pandemia. Acontece que não existe uma tecnologia única e em escala suficiente para barrar as emissões de gases do efeito estufa. Portanto, essa esperança é colocada erroneamente como justificativa para adiar ações urgentes de mitigação, adaptação e de justiça climática”, disse David Lapola.
Luiz Aragão frisou que a proximidade com limites planetários críticos impede atrasos na implementação de medidas práticas pelos governos. “Estamos muito perto de ultrapassar limites planetários seguros. Temos agora um super El Niño se formando com diversas implicações, entre elas o aumento dos eventos extremos, que trazem risco para populações. Então, não há mais espaço para que tomadores de decisão não considerem os aspectos climáticos como críticos para a gestão”, declarou Aragão.
Definições pendentes sobre editais e orçamento
O cronograma exato de publicação dos próximos editais transversais e os valores orçamentários das chamadas conjuntas planejadas com o BIOTA-FAPESP ainda não foram divulgados pela diretoria científica da fundação paulista.
