Espécie botânica inédita é revelada em Minas Gerais após doze anos de pesquisa

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Oplonia doceana nova espécie de planta descoverta - Reprodução/Paulo Gonella/GOV.BR Foto: Oplonia doceana nova espécie de planta descoverta - Reprodução/Paulo Gonella/GOV.BR

Uma planta com flores avermelhadas, encontrada em uma área montanhosa no leste de Minas Gerais, manteve cientistas intrigados por mais de uma década. A coleta inicial, em 2013, não permitiu a identificação da espécie até que análises genéticas recentes desvendassem sua verdadeira natureza: não só era uma planta inédita para a ciência, mas também representava o primeiro registro do gênero Oplonia no Brasil, conforme revelado.

Conhecida cientificamente como Oplonia doceana, a espécie habita exclusivamente os campos rupestres da Serra do Padre Ângelo, abrangendo os municípios de Conselheiro Pena, Alvarenga e Santa Rita do Iueto, na bacia do médio Rio Doce. A descoberta foi detalhada na revista científica Plant Systematics and Evolution, expandindo o conhecimento sobre a distribuição desse gênero botânico na América do Sul.

Pesquisadores detalham a descoberta inusitada da nova espécie

O botânico Paulo Gonella, pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e principal autor do estudo, explicou que a história começou durante uma expedição em busca de outra espécie rara na região. Ele relatou que estava procurando a Drosera magnifica, uma planta carnívora de grandes dimensões também encontrada na Serra do Padre Ângelo, quando avistou um arbusto com flores vermelhas que capturou sua atenção.

A amostra vegetal foi encaminhada para o laboratório, mas tanto a literatura científica quanto especialistas na família botânica da planta não conseguiram determinar sua identidade. O impasse só foi solucionado após o sequenciamento de parte do DNA, o que permitiu compreender sua história evolutiva e identificar sua conexão com o gênero Oplonia, que até então não possuía registros no território brasileiro.

Ligação distante: como a Oplonia se relaciona com espécies em outros países

As análises genéticas indicaram que a parente mais próxima da Oplonia doceana é a Oplonia jujuyensis, presente na Argentina e na Bolívia. Essa revelação levanta questões importantes sobre como um gênero, anteriormente restrito a outros países do continente, surgiu no Brasil e como essas espécies podem ter se distanciado por milhares de quilômetros ao longo do tempo.

Gonella sugeriu que, durante os períodos glaciais, o continente sul-americano possuía vastas áreas abertas e campestres mais interligadas do que na atualidade. Essa conectividade teria facilitado a migração de espécies entre os Andes e o leste brasileiro. Com as subsequentes mudanças climáticas, a expansão da Mata Atlântica teria isolado essas linhagens em regiões específicas, resultando na singularidade da recém-descoberta Oplonia doceana.

Serra do Padre Ângelo se consolida como berço de novas espécies

A Oplonia doceana é apenas um dos muitos organismos revelados nos últimos anos na Serra do Padre Ângelo e nas cadeias de montanhas vizinhas, localizadas no médio Rio Doce. Mais de 40 novas espécies de plantas foram descritas na área recentemente, além de diversos insetos e outros animais. Muitas dessas descobertas são endêmicas, ou seja, existem exclusivamente nesta região.

O botânico destacou que parte dessa riqueza está intrinsecamente ligada aos campos rupestres, um dos ecossistemas de maior biodiversidade no país. Ele explicou que, embora muitas pessoas associem a biodiversidade apenas às florestas, os campos rupestres abrigam uma vasta gama de espécies devido à complexidade do relevo e à variedade de seus micro-habitats. Outro fator relevante é que a região permaneceu amplamente inexplorada pela ciência até cerca de uma década atrás, o que favoreceu a revelação de inúmeras espécies microendêmicas.

Oplonia doceana nova espécie de planta descoverta - Reprodução/Paulo Gonella/GOV.BR
Oplonia doceana nova espécie de planta descoverta – Reprodução/Paulo Gonella/GOV.BR

Status de conservação da nova espécie acende alerta para a região

Apesar da euforia com a descoberta, o estado de conservação da Oplonia doceana é motivo de grande preocupação para a comunidade científica. A planta foi classificada como “Em Perigo de Extinção” conforme os critérios estabelecidos pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

A Oplonia doceana apresenta uma distribuição geográfica extremamente restrita e suas populações ocorrem apenas em trechos preservados de campo rupestre. Os pesquisadores ainda não possuem uma contagem exata do número de indivíduos na natureza, pois o arbusto é difícil de ser identificado quando não está em floração, o que dificulta o censo. Atualmente, apenas uma população confirmada está protegida dentro do Parque Estadual de Sete Salões, enquanto as demais permanecem vulneráveis a diversas ameaças externas.

Entre os principais riscos à sobrevivência da espécie estão os incêndios florestais, que abrem caminho para o avanço de espécies invasoras. O capim-gordura, uma gramínea de origem africana, compete com a vegetação nativa, sombreando o solo e, consequentemente, “sufocando” as plantas locais, incluindo a nova Oplonia doceana.

Nome da espécie presta tributo à bacia hidrográfica do Rio Doce

O nome “doceana” foi escolhido em referência à bacia do Rio Doce, onde todas as populações conhecidas da planta foram encontradas e registradas. Segundo Paulo Gonella, a intenção por trás da nomeação é dar destaque a uma área frequentemente associada a grandes impactos ambientais, mas que surpreendentemente continua a revelar uma biodiversidade extraordinária.

A identificação dessa planta ressalta que, mesmo em um dos países mais ricos em biodiversidade do mundo, ainda há um vasto universo de espécies a ser descoberto e catalogado pela ciência. A Oplonia doceana, um mistério por mais de doze anos, serve como um lembrete da importância contínua da pesquisa e da urgência em proteger essas montanhas antes que seja tarde.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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