Pessoas podem passar as mesmas oito horas dormindo e acordar com sensações opostas: umas com a mente descansada, outras ainda cansadas. Uma parte dessa explicação pode residir em um grupo de células do tronco cerebral, cujo tamanho não ultrapassa a ponta de um lápis. Cientistas revelaram que a atividade dessa estrutura enquanto se está em estado de vigília possui uma ligação íntima com a intensidade e o nível do sono REM, a fase noturna associada aos sonhos, em 12 de agosto de 2026.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Liège, na Bélgica, utilizou um aparelho de ressonância magnética de 7 Tesla para investigar uma área específica chamada locus coeruleus, localizada profundamente no tronco encefálico. Embora estudos anteriores com animais já indicassem o papel crucial dessa estrutura na regulação do sono e da vigília, sua função em humanos permanecia incerta. Um artigo publicado no Journal of Biomedical Science agora apresenta evidências dessa conexão em seres humanos, e as descobertas podem ser significativas para indivíduos com insônia ou em risco de desenvolver condições como Alzheimer e Parkinson.
O sono REM, uma etapa vital há muito associada ao processo de consolidação da memória, aparenta estar ligado ao equilíbrio da atividade do locus coeruleus durante o período em que a pessoa está acordada. A maneira como esse equilíbrio se manifesta parece estar diretamente relacionada às características do sono REM, indicando que a dinâmica é mais complexa do que uma simples ativação ou desativação.
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Como o estudo investigou a relação entre o cérebro e o sono
Cinquenta e dois adultos em bom estado de saúde participaram do estudo, distribuídos em dois grupos por faixa etária: 34 jovens, com idade média de aproximadamente 22 anos, e 18 adultos mais velhos, com cerca de 61 anos. Todos os voluntários foram submetidos a avaliações para verificar a ausência de distúrbios do sono, condições psiquiátricas ou outros problemas de saúde que pudessem influenciar os resultados da pesquisa.
Os participantes tiveram seu sono monitorado em laboratório ao longo da noite, por meio de sensores posicionados no couro cabeludo que registravam a atividade elétrica cerebral. Além disso, cada um realizou exames de imagem cerebral enquanto estava acordado, utilizando um aparelho de ressonância magnética de 7 Tesla, uma tecnologia de ultra-alto campo capaz de capturar a atividade em regiões cerebrais tão diminutas quanto o locus coeruleus, que mede aproximadamente 15 milímetros de comprimento e cerca de 2,5 milímetros de largura.
No interior do scanner, os participantes executaram duas tarefas mentais distintas. Uma delas envolvia observar atentamente uma ilusão de ótica clássica – a imagem de um cubo que parecia alternar entre duas orientações – e apertar um botão cada vez que percebessem a mudança visual. Essa tarefa foi desenhada para estimular um modo de atividade constante e contínuo do locus coeruleus, conhecido como atividade tônica. A segunda tarefa exigia que os participantes ouvissem uma sequência de sons e pressionassem um botão ao identificar um tom diferente ocasional entre os sons regulares. Esperava-se que essa tarefa provocasse um padrão oposto: surtos agudos e de curta duração, chamados atividade fásica. Medidas da pupila durante as atividades confirmaram essa configuração.
Com base nas gravações do sono noturno, os pesquisadores mediram dois indicadores: a intensidade da atividade das ondas cerebrais teta durante o sono REM, utilizada como marcador da profundidade do sono REM e que estudos anteriores relacionam à consolidação da memória, e o nível de um padrão distinto de ondas cerebrais que surge por um breve período pouco antes de o corpo entrar no sono REM.
O que foi observado na atividade cerebral durante o sono REM
Os resultados demonstraram uma conexão evidente entre a atividade do locus coeruleus durante a vigília e a qualidade do sono REM na mesma noite. Os participantes que exibiram respostas mais intensas do locus coeruleus na tarefa da ilusão óptica também apresentaram maior atividade teta durante o sono REM, um indicativo de um sono REM mais profundo. A atividade das ondas cerebrais preparatórias antes de cada fase de sono REM também foi mais elevada nesses mesmos indivíduos.
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Um padrão distinto emergiu na tarefa de detecção de sons, especialmente notável nos participantes mais velhos. Em adultos de idade mais avançada, uma resposta mais acentuada do locus coeruleus durante essa atividade foi associada a uma diminuição da atividade teta no sono REM. Em contrapartida, essa ligação não foi observada nos adultos mais jovens. É importante notar que as respostas do locus coeruleus nas duas tarefas não apresentaram correlação, o que fortalece a hipótese dos pesquisadores de que as atividades acessavam modos operacionais genuinamente diferentes da mesma região cerebral.
Esses efeitos foram notavelmente específicos para o sono REM. Nenhuma associação relevante foi encontrada entre a atividade do locus coeruleus e a intensidade do sono de ondas lentas, que é a medida ligada ao sono não-REM e é fisicamente restauradora. Isso aponta para uma relação particularmente direcionada entre o locus coeruleus e a fase REM.
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Por que a qualidade do sono REM pode afetar mais pessoas idosas
O processo de envelhecimento adiciona complexidade ao quadro. A qualidade do sono geralmente diminui com a idade, e os achados deste estudo sugerem o locus coeruleus como um fator contribuinte para essa redução. Em participantes mais velhos, uma resposta de pico mais elevada durante a tarefa de detecção de sons foi associada a um sono REM de menor qualidade. Os pesquisadores interpretaram isso como um sinal de que um locus coeruleus que está mais sintonizado para respostas diurnas rápidas e reativas, em vez de um padrão de atividade constante e equilibrado, pode estar relacionado a um sono REM de qualidade inferior.
Durante o sono normal, o locus coeruleus precisa permanecer quase inativo para que a fase REM ocorra. Os pesquisadores aventaram a possibilidade de que a conexão entre os padrões de atividade diurna e a qualidade do sono REM possa se fragilizar com o avanço da idade, apesar de o estudo não ter observado diretamente o locus coeruleus enquanto o sono acontecia.
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Além do processo normal de envelhecimento, a equipe de pesquisa destacou uma relevância clínica ainda mais ampla. A insônia já é considerada o segundo transtorno psiquiátrico mais prevalente e, embora até um terço da população em geral relate sono insatisfatório, a cada dois adultos acima de 50 anos, um se queixa de problemas de sono ou sonolência durante o dia. Adicionalmente, o locus coeruleus está entre as primeiras regiões cerebrais a apresentar acúmulo anormal de proteínas, o que é visto como um marcador precoce tanto para a doença de Alzheimer quanto para a doença de Parkinson, podendo surgir décadas antes do aparecimento de quaisquer sintomas visíveis.
Conforme o artigo científico, as descobertas “podem ter implicações para a alta prevalência de queixas de sono relatadas no envelhecimento e para distúrbios como insônia, Alzheimer e Parkinson, nos quais o locus coeruleus pode desempenhar papéis fundamentais por meio do sono”. Caso a atividade desregulada do locus coeruleus comprometa a qualidade do sono REM muito antes de um diagnóstico formal, os cientistas propõem que restaurar o equilíbrio dessa região pode, futuramente, se tornar um alvo para a prevenção e o tratamento. Contudo, este estudo focou apenas em observar associações e não testou quaisquer tratamentos.
Um aspecto notável do estudo é que a função do locus coeruleus foi medida apenas durante a vigília, e não durante o sono, mas, mesmo assim, sua atividade se alinhou com a qualidade do sono dos participantes. Os pesquisadores levantam a hipótese de que o locus coeruleus se comporta de maneira consistente, como um traço de personalidade, sugerindo que seu padrão de atividade durante o dia pode refletir fielmente sua atuação noturna. Se futuras pesquisas confirmarem essa teoria, os cientistas poderão, um dia, identificar indivíduos vulneráveis à má qualidade crônica do sono sem a necessidade de realizar exames de imagem cerebral durante a noite, oferecendo uma ferramenta diagnóstica menos invasiva.
Para os milhões de adultos que percebem que algo está errado com seu sono, mas não conseguem identificar a causa, parte da resposta pode estar em uma estrutura do tamanho da ponta de um lápis, localizada no interior do tronco cerebral.

