A Nestlé está se posicionando para converter a expansão da procura por medicamentos para emagrecimento, como Ozempic e Mounjaro, de um desafio em uma nova perspectiva de mercado. A gigante de alimentos, que atua em diversas frentes, responde ao fenômeno GLP-1.
Para alcançar esse objetivo, a companhia emprega inteligência artificial e conhecimentos de ciência nutricional. O foco é criar produtos específicos para os milhões de usuários de fármacos como Ozempic e Wegovy.
A rápida aceitação de medicamentos desenvolvidos pela Novo Nordisk e Eli Lilly, que atuam na redução do apetite, gerou preocupação no mercado. Investidores temem uma queda duradoura na procura por alimentos processados, lanches e bebidas.
Contudo, a Nestlé visualiza que esses tratamentos farmacológicos abrem caminho para um setor inédito. Este novo nicho se concentra em produtos que auxiliam a mitigar os impactos da perda de peso acelerada.
Stefan Palzer, diretor de tecnologia da empresa, comunicou que a Nestlé utiliza inteligência artificial e outras ferramentas tecnológicas. O objetivo é analisar estudos clínicos, apontar combinações nutricionais ideais e desenvolver itens dedicados aos consumidores de fármacos GLP-1.
“Estamos bem posicionados com o portfólio. É uma grande oportunidade para nossa empresa”, afirmou Palzer.
Documentos internos da Nestlé descrevem efeitos relacionados à rápida perda de peso, como a diminuição da massa muscular e da gordura facial, popularmente conhecida como “rosto de Ozempic”.
Esses materiais ainda destacam as áreas onde a empresa acredita que seus produtos podem oferecer suporte.
O segmento de medicamentos GLP-1 é atualmente liderado por Mounjaro e Zepbound, da Eli Lilly, e por Wegovy e Ozempic, da Novo Nordisk.
Conforme dados do Boston Consulting Group, aproximadamente 16 milhões de norte-americanos utilizam fármacos dessa categoria. A estimativa é de um crescimento significativo desse número até o fim da década.
Saiba mais: Entenda como dieta vegana com baixa gordura influenciou perda de peso em estudo de 16 semanas
A estratégia da Nestlé consiste em criar produtos personalizados para os indivíduos que fazem uso desses medicamentos. Para isso, a inteligência artificial é empregada para agilizar as pesquisas, formular novos alimentos e bebidas e compreender o comportamento dos consumidores.
Stefan Palzer indicou que os pesquisadores da Nestlé investigam as ramificações da perda de peso acelerada. Eles trabalham no desenvolvimento de itens para auxiliar os consumidores a mitigar esses impactos.
A companhia utiliza ferramentas de inteligência artificial para processar vastos volumes de estudos clínicos. O objetivo é identificar combinações nutricionais que apoiem a manutenção da massa muscular, a hidratação e uma alimentação balanceada.
Além disso, a Nestlé iniciou a inclusão de proteína de colágeno em itens da linha Vital Proteins. A medida visa abordar preocupações com a saúde da pele, dos cabelos e das unhas durante o processo de emagrecimento rápido.
“Uma grande parte da perda de peso se deve à perda de massa muscular magra”, explicou Palzer.
Ele acrescentou: “Identificamos uma combinação de dois micronutrientes que industrializamos e que estimulam o crescimento do tecido muscular. Por um lado, fornecemos proteína; por outro, estimulamos o tecido muscular a se regenerar mais rapidamente.”
Palzer também revelou que a Nestlé patenteou misturas de ingredientes criadas para diminuir o apetite de indivíduos que experimentam aumento da fome após descontinuar o uso de medicamentos GLP-1.
Mais sobre o assunto: Saúde do fígado: pesquisa aponta quais alimentos protegem e quais elevam risco de doenças
A empresa já disponibilizou produtos formulados especialmente para esse segmento de consumidores.
A Nestlé nos Estados Unidos desenvolveu o Boost Advanced Nutrition Shake, que contém 35 gramas de proteína e visa apoiar a conservação da massa muscular durante a perda de peso. Em regiões como Ásia e Austrália, a companhia introduziu uma versão de sua bebida maltada Milo, intitulada Milo PRO High Protein, com elevado teor proteico.
Produtores de sorvetes enfrentam desafios análogos. Eles têm investido em opções com maior quantidade de proteína, porções reduzidas e composições de ingredientes mais simplificadas.
A inteligência artificial desempenha uma função cada vez mais vital nesse desenvolvimento.
A Nestlé criou sistemas próprios para examinar pesquisas científicas, simular o comportamento dos consumidores, identificar novas tendências e auxiliar na criação de produtos, utilizando um banco de dados com cerca de 120 mil receitas.
No mesmo tema: A ciência explica a verdade sobre o psyllium e o apelido de Ozempic natural
Entre essas ferramentas, destaca-se uma plataforma interna denominada Food Genie. De acordo com Palzer, ela assiste cientistas e desenvolvedores na previsão do desempenho de receitas e na identificação de chances de reformulação de itens.
“Imagine uma pequena empresa com apenas mil receitas. É muito difícil modelar e prever receitas usando IA”, observou ele, completando: “A IA precisa de dados.”
A empresa também experimenta simulações impulsionadas por inteligência artificial para antecipar a resposta dos consumidores a novos produtos e às suas alegações de saúde, antes do lançamento no mercado.
A tecnologia também é utilizada pela companhia para monitorar redes sociais e identificar tendências emergentes de consumo.
“Você percebe a repercussão em torno de certos tópicos e então pode concluir se essa é uma tendência duradoura ou não”, ponderou Palzer.
“A inteligência artificial estará cada vez mais presente nesse campo”, concluiu ele.
Nem todos os especialistas em nutrição estão convencidos de que produtos criados especificamente para usuários de medicamentos de perda de peso apresentem vantagens expressivas sobre os alimentos tradicionais.
“É muito triste que estejamos sempre recorrendo a novos produtos que são mais caros do que alimentos frescos e integrais que também contêm as mesmas proteínas e nutrientes”, lamentou Amanda Avery, professora associada de nutrição e dietética da Universidade de Nottingham, localizada no centro da Inglaterra.
Mais sobre o assunto: Benefícios do iogurte no dia a dia: o que a ciência revela sobre o consumo regular
Ela pontuou que carnes, peixes, ovos, laticínios, feijões, nozes e outras leguminosas permanecem como fontes acessíveis de proteínas e nutrientes.
Apesar disso, Avery disse que os produtos direcionados especificamente a usuários de medicamentos GLP-1 provavelmente atrairão consumidores.
“Infelizmente, somos bastante influenciados pelo marketing”, comentou ela. “A Nestlé certamente fez sua pesquisa.”
