Jovem carioca transforma brincadeira de criança em favela miniatura de 450 m² e ganha o mundoPor Bruna
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Um projeto único, nascido da criatividade de crianças, o Morrinho, se tornou uma complexa favela em miniatura no Rio de Janeiro, conquistando reconhecimento nacional e internacional. Com cerca de 450 metros quadrados, a iniciativa reproduz em detalhes o cotidiano de uma comunidade, usando materiais reciclados e bonecos.
A estrutura em miniatura, montada com tijolos reaproveitados, tinta e pequenas figuras, replica becos, residências, estabelecimentos comerciais e as relações sociais observadas no bairro do Pereirão. Rapidamente, a criação evoluiu para incluir produções audiovisuais e figurou em museus e exposições fora do Brasil.
À primeira vista, a cena, com suas casas coloridas sobrepostas em barrancos, ruas íngremes e becos estreitos, que levam bonecos a escolas, comércios e quadras, assemelha-se a uma favela de verdade vista de longe.
Na verdade, trata-se do Projeto Morrinho, uma extensa representação em miniatura de uma favela, instalada na comunidade do Pereirão, em Laranjeiras, Rio de Janeiro. A obra, ao ar livre, ocupa um espaço de aproximadamente 450 metros quadrados e retrata diversas facetas da vida urbana.
Tudo começou em 1998, quando Cirlan Souza de Oliveira, então com 14 anos, deu início ao projeto. A trajetória inovadora foi documentada por publicações dedicadas à arte contemporânea internacional, evidenciando seu caráter singular.
A cidade que começou no quintal de dois irmãos
Cirlan e seu irmão Maycon, na época com 8 anos, começaram a montar uma pequena réplica de favela no quintal da residência da família. Eles utilizaram tijolos quebrados, tinta e objetos simples para recriar os ambientes familiares do Pereirão.
A atividade logo atraiu a atenção de outras crianças da comunidade. Ranieri, um vizinho, decidiu se juntar, trazendo consigo mais cinco jovens. Desse encontro surgiu o grupo de oito criadores que deu vida ao Morrinho.
Cada um dos participantes contribuía na construção das ruas, casas e espaços comunitários. A cidade cresceu organicamente pelo terreno, entre a vegetação e os desníveis naturais, transformando-se em uma obra desenvolvida pelos próprios moradores da favela.
Contudo, não era apenas o tamanho que impressionava. O projeto passou a incorporar personagens, situações e conflitos inspirados diretamente na rotina da comunidade, permitindo que os jovens retratassem a cidade sob sua própria perspectiva e com grande autenticidade.
Tijolos e bonecos passaram a contar a vida no Pereirão
Os tijolos quebrados foram utilizados para erguer casas, muros, escadarias e construções sobrepostas. Cores foram aplicadas para demarcar bairros e territórios, enquanto bonecos de Lego ganharam vozes, identidades, ocupações e narrativas.
No universo do Morrinho, encontram-se estudantes, comerciantes, músicos, agentes públicos e uma variedade de outros personagens. Há também uma escola de samba, creche, pequenos comércios, campo de futebol e diversos pontos de encontro, cada um com uma função específica na história elaborada pelos jovens.
As interações no projeto também seguem um conjunto de regras. Os bonecos não podem voar, realizar saltos impossíveis ou correr mais rápido que um carro. Um dos participantes monitora as ações e intervém caso alguém desrespeite os limites da realidade.
Essa fidelidade ao real confere ao Morrinho o status de um registro urbano dinâmico. A maquete não se restringe a copiar edificações e vias; ela ilustra como as pessoas se movem, trabalham, estudam, interagem e lidam com desafios nesse espaço.
TV Morrinho levou a brincadeira para o audiovisual
A evolução da cidade em miniatura para uma linguagem audiovisual ganhou impulso em 2001, com a produção do documentário “Morrinho, Deus sabe tudo, mas não é X 9”, dirigido por Fábio Galvão e Markão Oliveira.
O projeto foi complementado por uma oficina de vídeo, onde os participantes aprenderam a manusear câmeras e a transformar as histórias encenadas com os bonecos em produções próprias. Desse processo nasceu a TV Morrinho, uma iniciativa que valoriza a autoria e a perspectiva interna da comunidade.
Os vídeos produzidos, com duração de aproximadamente cinco minutos, misturam situações verídicas, humor e elementos de ficção. As filmagens ocorrem dentro da maquete, com os jovens movimentando os personagens e criando as vozes. Especialistas da área cultural observam que essa linguagem surgiu genuinamente da própria comunidade, em vez de ser imposta por influências externas.
Oficinas ampliaram o alcance da criação coletiva
A experiência com o vídeo abriu caminho para a realização de oficinas e diversas atividades culturais. Os integrantes do projeto passaram a compartilhar seus conhecimentos sobre a construção de maquetes, o desenvolvimento de personagens, a criação de narrativas e a produção audiovisual.
O Morrinho revelou uma maneira inédita de se comunicar. Em vez de ser apenas um cenário para reportagens feitas por pessoas de fora, a própria comunidade começou a gerar suas imagens e contar suas histórias, exercendo o controle sobre sua própria representação.
As oficinas também mantiveram o espírito coletivo do projeto. Não há uma única visão que controle toda a cidade; cada integrante colabora na construção, na definição das regras, na criação dos personagens e nas cenas apresentadas ao público.
Por essa razão, o trabalho vai além de ser uma simples história sobre o reuso de materiais. Embora os tijolos reaproveitados sejam parte da construção, o foco central do projeto reside na autoria dos jovens e na forma como eles escolheram representar o local onde vivem.
Morrinho chegou a museus e exposições internacionais
O Projeto Morrinho começou a receber convites para criar versões da maquete em outros locais. Uma dessas instalações foi exibida no Rio Design Center em 2002, e outra foi apresentada no Museu de Arte do Rio em 2013.
Os criadores também levaram suas exposições para a Europa, os Estados Unidos e a América do Sul. Em 2007, o grupo instalou uma versão do Morrinho nos jardins da 52ª Bienal de Arte de Veneza, um dos mais prestigiados eventos internacionais de arte.
No mesmo ano, o filme “O Saci no Morrinho” foi premiado como melhor filme no Festival Visões Periféricas, realizado no Rio de Janeiro. “Acadêmicos do Morrinho” também recebeu reconhecimento no Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo.
A presença do projeto nesses espaços confirmou que a construção pode ser vista como uma forma de arte urbana, um registro social e uma eficaz ferramenta de comunicação. Sua força reside tanto no impacto visual quanto nas narrativas desenvolvidas internamente.
O Projeto Morrinho nasceu de uma brincadeira no quintal, expandiu-se com a participação de outros jovens e se transformou em uma cidade em miniatura de cerca de 450 metros quadrados. Mais do que apenas replicar a aparência de uma favela, ele apresenta as relações, os personagens e as experiências da comunidade. Ao aparecer em produções audiovisuais, oficinas, museus e exposições internacionais, o trabalho manteve seu objetivo primordial: moradores narrando sua própria cidade com liberdade, humor e autoria coletiva.








