Medicamento Daraxonrasib para câncer de pâncreas que emocionou médicos é aprovado nos EUA

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Câncer de pâncreas Foto: Câncer de pâncreas - Foto: Mohammed Haneefa Nizamudeen / Istockphoto.com

A agência reguladora dos Estados Unidos concedeu aprovação a um tratamento inovador contra o câncer de pâncreas, um medicamento que gerou forte emoção e aplausos em um dos maiores congressos de oncologia do mundo. A Food and Drug Administration (FDA) liberou o Daraxonrasib, comercializado como Rasonque, para adultos diagnosticados com câncer de pâncreas metastático específico.

Os resultados do novo fármaco já haviam capturado a atenção da comunidade médica em junho, durante a sessão plenária da American Society of Clinical Oncology (ASCO), realizada em Chicago. Naquele momento, profissionais de saúde se levantaram para aplaudir os dados de um estudo de fase 3, envolvendo 500 participantes, que indicaram uma duplicação da sobrevida mediana para pacientes em comparação com os tratamentos quimioterápicos convencionais.

Dessa forma, em menos de três meses desde sua apresentação inicial, o Daraxonrasib deixou de ser um fármaco experimental para se tornar uma opção terapêutica disponível nos Estados Unidos.

O avanço de um tratamento considerado improvável

A autorização específica se destina a adultos com adenocarcinoma de pâncreas metastático que já foram submetidos a ao menos um tratamento sistêmico anterior ou que não podem utilizar uma combinação de medicamentos sistêmicos diversos. A FDA ressaltou que a aprovação foi concedida aproximadamente seis meses e meio antes do prazo inicialmente estimado para a finalização do processo regulatório. Kyle Diamantas, comissário interino da FDA, declarou que “a aprovação de hoje oferece uma nova opção fundamental para pacientes diante de um câncer extraordinariamente difícil e historicamente complicado de tratar”.

A ciência por trás da descoberta que mobilizou a oncologia

Remédios, medciamentos e Pílulas
Remédios, medciamentos e Pílulas – Foto: MOLEQL/shutterstock.com

Administrado uma vez ao dia, o Daraxonrasib atua sobre as diversas formas da proteína RAS, um componente crucial no crescimento tumoral e presente em sua forma alterada na maioria dos casos de adenocarcinoma de pâncreas. Por muitas décadas, a comunidade científica considerou o bloqueio dessa proteína um dos maiores e mais intratáveis desafios da oncologia, devido à sua estrutura molecular que dificultava a ação de fármacos. O sucesso em atingir este alvo específico, considerado “undruggable” (intratável) na literatura médica, foi o que mais impressionou durante o congresso da ASCO.

O estudo RASolute 302, conduzido de acordo com os mais rigorosos padrões médicos, foi um ensaio clínico randomizado de fase 3, que envolveu 500 pacientes. Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos, sem que médicos ou pacientes soubessem qual tratamento seria administrado, com um grupo recebendo o Daraxonrasib e o outro a quimioterapia padrão.

Este tipo de pesquisa é fundamental para eliminar vieses e assegurar que as diferenças observadas nos resultados sejam diretamente atribuídas ao tratamento testado, e não a fatores aleatórios. Esta metodologia fornece o nível de evidência necessário para alterar protocolos de tratamento globalmente, e os resultados apresentados foram considerados definitivos, sem análises pendentes ou dados ausentes.

  • Em pacientes com a mutação RAS G12, a mais frequente no câncer de pâncreas, a sobrevida mediana alcançou 13,2 meses com o Daraxonrasib, em contraste com 6,6 meses nos pacientes submetidos à quimioterapia. A sobrevida mediana representa o ponto em que metade dos pacientes viveu mais e a outra metade viveu menos do que o período indicado.
  • Houve uma redução de 60% no risco de óbito.
  • O tempo médio até a progressão da doença também foi duplicado, passando de 3,5 meses com quimioterapia para 7,3 meses com o novo comprimido.
  • Resultados semelhantes foram observados na análise do grupo total de pacientes, incluindo aqueles sem a mutação RAS detectada.
  • Mais de 31% dos participantes que receberam o Daraxonrasib apresentaram uma diminuição mensurável do tumor, em comparação com 11,2% no grupo de quimioterapia.
  • Um dado relevante para os pesquisadores foi a baixa taxa de interrupção do tratamento devido a efeitos colaterais, registrada em apenas 1,2% para o Daraxonrasib, enquanto no grupo de quimioterapia essa taxa foi de 11,2%.

A conclusão dos cientistas, divulgada no Journal of Clinical Oncology, aponta que o Daraxonrasib está estabelecido para se tornar o novo protocolo padrão de tratamento para pacientes com câncer de pâncreas metastático em segunda linha.

O valor estatístico e o impacto da nova terapia

Stephen Stefani, oncologista da Americas Health Foundation, testemunhou a sessão plenária em Chicago e descreveu a reação. Ele contou que “raramente celebramos um medicamento com esse perfil: baixa toxicidade, impacto real em sobrevida e um mecanismo inédito para essa doença”. Stefani complementou que “eram mais de 500 pacientes com câncer de pâncreas avançado, já sem resposta à quimioterapia, avaliados no desenho mais rigoroso da pesquisa clínica — e com sobrevida dobrada em relação ao padrão anterior. O aplauso em pé foi merecido.”

O médico ressaltou ainda a relevância estatística dos achados. Ele afirmou que “os 13 meses são uma mediana — há pacientes que viveram muito além disso. Mais de 30% tiveram redução objetiva da doença, com duração suficiente para ampliar a sobrevida de forma significativa. E o perfil de toxicidade é manejável, o que, numa doença dessa gravidade, não é um detalhe menor”.

Na visão de Stefani, o impacto vai além dos dados clínicos. Para ele, “o resultado confirma que estamos avançando numa direção que por muito tempo pareceu fechada — a de oferecer sobrevida real a pacientes para os quais, até agora, pouco havia a fazer”.

Desafios históricos no combate ao câncer pancreático

Para quem busca compreender a profundidade do desafio vencido pelo Daraxonrasib, é fundamental recordar as características peculiares do câncer de pâncreas. Esta doença é notoriamente letal, muitas vezes silenciosa em suas fases iniciais e frequentemente diagnosticada em estágios avançados ou metastáticos, quando já se espalhou para outros órgãos e cirurgias curativas são inviáveis, atingindo cerca de 80% dos casos.

Nos Estados Unidos, anualmente, cerca de 60 mil novos diagnósticos são registrados, com aproximadamente 50 mil óbitos. No Brasil, o cenário é similar, com cerca de 13 mil novos casos e 12 mil mortes por ano. A taxa de sobrevida em cinco anos para a forma metastática da doença é de apenas 3%, posicionando-a entre as mais baixas de todos os tipos de câncer.

A principal razão para a resistência do câncer de pâncreas aos tratamentos reside na proteína RAS, um “interruptor” celular que, quando sofre mutação, permanece constantemente ativo, ordenando a proliferação e invasão das células. Essa alteração é identificada em mais de 90% dos tumores pancreáticos.

Por décadas, cientistas se empenharam em desenvolver estratégias para bloquear a ação da proteína RAS, mas enfrentaram sucessivos insucessos. A molécula RAS não apresentava uma superfície definida onde os medicamentos pudessem se ligar de forma eficaz, assemelhando-se a uma “fechadura” sem relevos para a “chave” do fármaco. Por essa dificuldade, a RAS ganhou a fama na literatura médica de ser “undruggable”, ou seja, intratável por medicamentos convencionais.

O Daraxonrasib, contudo, superou essa barreira, mostrando eficácia não apenas contra uma única variante da mutação RAS, mas contra várias delas simultaneamente. Para os pacientes incluídos no estudo, todos com doença metastática e sem outras alternativas após a quimioterapia, o tratamento proporcionou um ganho mediano de 6,5 meses de vida adicional.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

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