Nova espécie de peixe das nuvens surge sob risco no Amapá
Pesquisadores registraram a identificação do peixe das nuvens batizado como Laimosemion laranja na bacia do rio Cajari, no sul do Amapá, animal com menos de três centímetros de comprimento que apresenta coloração alaranjada brilhante e já desperta preocupação ecológica. Exames genéticos e morfológicos detalhados comprovaram que o animal difere de todos os outros integrantes já catalogados dentro do mesmo gênero biológico na região norte do país.
O periódico internacional Zoosystematics and Evolution divulgou a descrição formal do táxon no fim de agosto em formato aberto para a comunidade científica.
Os sexos exibem padrões visuais distintos. Os machos combinam manchas laranjas sobre fundo azulado e alcançam até 27,8 milímetros de comprimento total. As fêmeas carregam tom alaranjado uniforme, barbatanas amareladas e atingem a marca máxima de 20,6 milímetros.
As coletas de espécimes ocorreram durante viagens de campo em março de 2024 e junho de 2025 no município de Laranjal do Jari, onde equipes científicas localizaram populações distribuídas em uma faixa territorial restrita de 12 quilômetros quadrados na bacia hidrográfica local. Essa extensão territorial equivale a cerca de oito vezes a área ocupada pelo Parque Ibirapuera, com registros confirmados em somente três pontos geográficos.
O habitat natural abrange poças formadas perto de afluentes do rio Cajari, caracterizadas por águas claras, solo de areia ou lodo e densa vegetação flutuante sob a cobertura vegetal da floresta.
Classificados na família dos rivulídeos, esses animais cumprem ciclos sazonais em reservatórios temporários abastecidos pelas cheias periódicas dos rios amazônicos. O achado eleva para seis o total de espécies de peixes dessa linhagem catalogadas nas bacias de água doce do Amapá.
O ciclo biológico frágil soma-se a um isolamento geográfico severo. As três áreas onde os indivíduos habitam sofrem pressão contínua gerada por queimadas e derrubada de vegetação nativa. O crescimento dos perímetros urbanos e as frentes de mineração aceleram a degradação desse ecossistema.
Os biólogos verificaram árvores calcinadas e vestígios de corte raso na vizinhança imediata da Reserva Extrativista do Rio Cajari, unidade de proteção localizada a poucos metros dos locais de amostragem.

Os cientistas afirmaram no documento técnico que as pressões humanas atingem diretamente os habitats aquáticos por meio da agropecuária, da mineração e da ocupação urbana desordenada. “Este último aspecto é particularmente preocupante, uma vez que a contaminação por mercúrio dos ecossistemas aquáticos foi documentada em diferentes regiões do Amapá, inclusive em áreas legalmente protegidas, representando uma ameaça significativa à biodiversidade amazônica”, informaram os autores do artigo.
O relatório propõe enquadrar o Laimosemion laranja na categoria Em Perigo de extinção, além de sugerir novas expedições científicas e a ampliação da Reserva Extrativista do Rio Cajari para resguardar as áreas remanescentes do animal.









