Gasolina com 35% de etanol entra em fase de testes técnicos até 2027
O Ministério de Minas e Energia formalizou o plano de testes para avaliar a viabilidade técnica da gasolina E35, mistura composta por 35% de etanol anidro, antes de qualquer decisão referente à sua comercialização em postos de todo o país. O cronograma prevê a realização de ensaios laboratoriais e práticos até 31 de dezembro de 2027 em Brasília e em centros de pesquisa automotiva parceiros.
O cronograma dos trabalhos foi aprovado pelo Comitê Técnico Permanente do Combustível do Futuro em 11 de setembro de 2026. Segundo o secretário nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia, Renato Cabral, o planejamento seguiu o rito oficial: “No dia 11 [de setembro], nós submeteremos à aprovação do plano de testes ao comitê técnico do CNPE e no dia 18 iremos publicar a nossa portaria do Ministério de Minas e Energia com o plano de testes para o E35 e dar início a esse trabalho robusto”.
A nova mistura de combustível vai para os postos agora?
A condução dos ensaios não altera imediatamente a composição do combustível vendido aos consumidores nas bombas. Qualquer liberação comercial definitiva do E35 depende de deliberação futura do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), órgão responsável por definir as diretrizes do setor no Brasil. A Lei nº 14.993/2024, sancionada em 8 de outubro de 2024 sob o nome de Lei do Combustível do Futuro, fixou a margem máxima de 35% de etanol na gasolina, mas condicionou expressamente a elevação da mistura à comprovação prévia de segurança mecânica e ambiental.
Diretrizes e prazos do programa experimental
- Teor em estudo: 35% de etanol anidro na formulação da gasolina comum e aditivada, teto estipulado pela legislação federal.
- Período de execução: ensaios técnicos com vigência até 31 de dezembro de 2027 conduzidos pela Rede de Pesquisa Combustível do Futuro.
- Combustível em circulação: teor obrigatório de 32% de etanol anidro nas gasolinas comum e aditivada, adotado em 1º de agosto de 2026 por 180 dias.
- Gasolina premium: percentual fixado em 25% de etanol anidro, mantido sem alterações pelas novas portarias.
Regras atuais nas bombas e impactos mecânicos no veículo
Desde 1º de agosto de 2026, os postos de combustíveis operam obrigatoriamente com a gasolina E32, que contém 32% de etanol anidro na gasolina comum e aditivada, com vigência estipulada para 180 dias e possibilidade de prorrogação única por igual intervalo. Para os proprietários de veículos flex ou movidos puramente a gasolina, a gasolina premium continua sendo uma alternativa de abastecimento com 25% de etanol. O derivado da cana-de-açúcar apresenta equivalência energética média de 70% por litro frente à gasolina pura, o que afeta a autonomia dos veículos conforme aumenta o teor de biocombustível no tanque.
Leia também: Veja como garantir até 100% de desconto na conta de luz pelo governo federal
O diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), Rogério Gonçalves, explicou o comportamento dos modelos com injeção eletrônica: “Os motores modernos têm recursos eletrônicos que operam com uma taxa de compressão intermediária para funcionar com etanol e gasolina ao mesmo tempo. Ao detectar um combustível de maior octanagem, o sistema [de gerenciamento eletrônico] poderá se ajustar automaticamente e fazer com que o motor funcione em uma condição mais eficiente”.
Continue lendo: Integração do Cadastro Único vai mapear 450 mil famílias sem energia elétrica no país
Evolução da mistura de etanol na gasolina brasileira
A participação do biocombustível no mercado nacional passou por sucessivas alterações ao longo das últimas décadas para atender a metas de descarbonização e reduzir a exposição aos preços internacionais do petróleo. Durante anos, a gasolina comum comercializada no território brasileiro conteve 22% de etanol anidro, índice que subiu para 27,5% no ano de 2015. O percentual alcançou 30% em agosto de 2025 e avançou para o índice temporário de 32% em agosto de 2026. Segundo Renato Cabral, “a mistura do E32 pode economizar até 1 bilhão de litros de gasolina importada por ano”.
A mistura de 32% em vigor foi alvo de representação apresentada pelo subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado, do Ministério Público junto ao TCU. O plenário do Tribunal de Contas da União julgou a representação improcedente e manteve a comercialização do E32. O relator do caso na corte, ministro Antonio Anastasia, pontuou que ensaios específicos de durabilidade a longo prazo não tinham sido finalizados para a marca de 32%, cabendo suprir essas lacunas técnicas dentro da rodada de estudos do E35.
Desgaste mecânico e modelos selecionados para os ensaios
A fase experimental vai mensurar índices de consumo, emissões de gases poluentes, comportamento em partida a frio, dirigibilidade, corrosão interna e a integridade de componentes de vedação e borrachas. A atenção recai sobre veículos com motorização exclusiva a gasolina, frotas antigas e motocicletas convencionais.
O engenheiro Gabriel Estevam Domingos, diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Ambipar, ressaltou a necessidade de apuração técnica: “Esse é um universo técnico que precisa muito se testar, principalmente com relação ao desgaste dos componentes do motor, como a correia e alguns materiais em que há mudança de pH, para saber como isso vai se comportar. Em um ponto de vista de durabilidade do motor, principalmente os motores antigos”.
Ainda não foi publicado o detalhamento de quais montadoras e modelos específicos de veículos farão parte da frota de ensaio dos testes de durabilidade até 2027. Os relatórios de medição serão remetidos ao Ministério de Minas e Energia para compor o parecer final que será analisado pelos conselheiros do CNPE.

