Pesquisadores identificaram que o processo de ruptura continental no Sistema do Rift da África Oriental alcançou um estágio geológico mais avançado do que os modelos teóricos previam. No eixo central do Rifte de Turkana, situado entre o Quênia e a Etiópia, a crosta cristalina afinou para cerca de 13 quilômetros de espessura, entrando na fase mecânica conhecida como estrangulamento ou necking.
O dado contrasta com a espessura de mais de 35 quilômetros registrada nas bordas externas da bacia tectônica. Segundo Christian M. Rowan, geocientista no Lamont-Doherty Earth Observatory da Universidade de Columbia e autor principal da pesquisa, a estrutura rochosa perde resistência à medida que se torna menos espessa. “Descobrimos que o rifteamento nesta zona está mais avançado, e a crosta é mais fina, do que qualquer um havia reconhecido. A África Oriental progrediu mais no processo de rifteamento do que se pensava anteriormente”, afirmou o pesquisador, em tradução livre.
Leia também: Especialistas descartam aumento global de terremotos após tremores recentes
Avanço estrutural e medições no Rifte de Turkana
O afinamento concentrado sob o Rifte de Turkana começou há cerca de 4 milhões de anos. O fenômeno representa a primeira observação direta dessa fase de transição em um rifte continental ativo na Terra. No ponto mecânico de necking, a deformação da litosfera deixa de ocorrer de maneira distribuída por uma área ampla e passa a se concentrar em uma faixa estreita, funcionando como um limiar para a eventual fragmentação do continente.
A taxa média de afastamento tectônico entre a Placa Núbia, também chamada de Africana, e a Placa Somali na região de Turkana é de aproximadamente 4,7 milímetros por ano. Os levantamentos indicam que a velocidade de separação no tempo humano permanece lenta e medida em milímetros anuais, mas o amadurecimento estrutural da bacia atingiu um patamar físico mais próximo do rompimento continental completo do que a comunidade científica supunha.
Além da dinâmica geodinâmica profunda, a evolução das falhas geológicas sofre influência de variações na superfície. Uma pesquisa publicada em 10 de novembro de 2025 registrou que o recuo histórico do nível da água no Lago Turkana provocou uma aceleração de 0,17 mais ou menos 0,08 milímetro por ano no deslocamento de 27 falhas mapeadas na bacia sul.
Dados geológicos do sistema de fendas africano
- 13 km: espessura da crosta no eixo central do Rifte de Turkana
- 35 km: espessura média da crosta fora da zona axial da bacia
- 4,7 mm por ano: velocidade média anual de afastamento entre as placas Núbia e Somali
- 3.000 km: extensão aproximada de todo o Sistema do Rift da África Oriental
- 130: total de amostras de rochas vulcânicas jovens analisadas na Depressão de Afar
- 0,17 mais ou menos 0,08 mm por ano: aumento médio na velocidade de falhas após a redução do lago
Magma e dinâmica na junção tripla de Afar
Ao norte de Turkana, a Depressão de Afar compõe a junção tripla onde se encontram as placas Núbia, Somali e Arábica. Essa área reúne condições geológicas raras por apresentar vulcanismo intenso em crosta já bastante estirada, operando como um modelo natural dos estágios iniciais de abertura de um leito marinho sob o continente.
Cientistas liderados pela pesquisadora Emma J. Watts, da Universidade de Southampton, mapearam o manto superior na Depressão de Afar com base em mais de 130 amostras de rochas vulcânicas jovens, em levantamento divulgado em 25 de junho de 2025. As análises geoquímicas revelaram a presença de uma pluma de magma ascendente de formato assimétrico e pulsante. O fluxo magmático atua com maior intensidade nos setores em que a placa litosférica já perdeu espessura e a separação avança com rapidez, demonstrando a interação direta entre a ascensão de rocha fundida e o estiramento tectônico regional.
Histórico do rifteamento e formação de fósseis
A abertura do Sistema do Rift da África Oriental teve início há cerca de 45 milhões de anos. Ao longo dos milênios, a extensão continental estruturou uma malha contínua de falhas com extensão de 3.000 quilômetros, que vai do Chifre da África até o oeste de Moçambique, sem ocorrer de maneira uniforme em todos os seus trechos.
O rebaixamento e o estiramento contínuos da crosta terrestre em Turkana geraram bacias sedimentares de afundamento progressivo. Esses ambientes lacustres e fluviais acumularam sedimentos rapidamente ao longo do tempo geológico, criando condições de soterramento favoráveis à preservação orgânica, o que explica o volume e a integridade do registro fóssil de hominíneos antigos encontrados na região.
Apesar do avanço comprovado na geometria da crosta, cientistas afirmam que não se sabe a data geológica exata em que as águas do Mar Vermelho e do Oceano Índico vão inundar de forma permanente as depressões continentais para estabelecer um oceano aberto contínuo. As projeções teóricas para o rompimento total da massa continental variam entre 1 milhão e 50 milhões de anos.

