Ciência

Falha de Cascadia se rompe no fundo do Oceano Pacífico

Oceano Pacífico - rankRamspott/istockphoto.com
Oceano Pacífico - rankRamspott/istockphoto.com

A zona de subducção de Cascadia, localizada no noroeste do Oceano Pacífico, está se rompendo ativamente em múltiplos pedaços e entrando em um processo gradual de desligamento geológico. O desmantelamento estrutural da placa oceânica que mergulha sob a América do Norte levará milhões de anos para se completar, segundo levantamentos geofísicos detalhados conduzidos na região marítima próxima à Ilha de Vancouver, na província da Colúmbia Britânica, no Canadá.

O autor principal da pesquisa e professor assistente da Universidade Estadual da Louisiana, o geólogo Brandon Shuck, explicou a dimensão da descoberta ao descrever o estágio da margem tectônica. “Esta é a primeira vez que temos uma imagem clara de uma zona de subducção capturada no ato de morrer”, afirmou Shuck, em tradução livre. O pesquisador comparou a evolução da estrutura a uma locomotiva desgovernada. “Fazer uma zona de subducção começar é como tentar empurrar um trem montanha acima, exige um esforço enorme. Mas uma vez que ela está se movendo, é como se o trem estivesse descendo a encosta em alta velocidade, impossível de parar. Para encerrá-la, é necessário algo dramático, basicamente um acidente de trem”, declarou o geólogo, em tradução livre.

Leia também: Morcegos surgiram na Europa há 65 milhões de anos, revela estudo

Fratura de 75 quilômetros divide a placa em Cascadia

Os registros obtidos por reflexão sísmica identificaram uma fratura contínua de cerca de 75 quilômetros de extensão cortando a crosta da placa oceânica. A análise do comportamento sísmico revelou que parte dessa falha ainda acumula tensões e produz abalos regulares, enquanto outros trechos entraram em um estado de silêncio sísmico absoluto. A ausência de tremores em áreas específicas ocorre porque os blocos de rocha já se desacoplaram de maneira definitiva, perdendo o atrito mecânico que costuma gerar energia elástica acumulada.

Confira também: Astrônomos captam ondas de rádio do planeta Beta Pictoris b

https://x.com/danielrequeijo1/status/2104233860322242633

As medições estruturais detectaram também um deslocamento vertical significativo na crosta oceânica fraturada. Os dados confirmam que um dos segmentos afundou aproximadamente 5 quilômetros em relação ao bloco tectônico vizinho ao longo de uma das falhas mapeadas. Esse abatimento indica que a separação ocorre em etapas assimétricas, permitindo que blocos adjacentes da crosta marinha se movam lateralmente e verticalmente em momentos diferentes, enfraquecendo a união contínua da litosfera submersa.

Acompanhe: Telescópio Hubble completa 200 mil voltas ao redor da Terra

Quando duas massas de rocha ainda mantêm contato físico parcial, a pressão gerada pelo avanço das placas tectônicas continua a disparar eventos sísmicos. Contudo, assim que o desprendimento atinge a separação completa dos segmentos, a geração de sismos cessa por falta de ancoragem. Os dados publicados na revista científica Science Advances comprovam que esse processo de fragmentação reduz de forma progressiva a sustentação necessária para puxar a borda da placa para o manto terrestre.

Leia também: Astrônomos detectam ondas de rádio do exoplaneta Beta Pictoris b a 64 anos-luz de distância

Cabo de 15 quilômetros coletou dados no leito oceânico de Cascadia

Para mapear as camadas rochosas abaixo do leito oceânico, o experimento recorreu a medições coletadas no ano de 2021 pela expedição CASIE21, sigla para Experimento de Imagem Sísmica de Cascadia. A geofísica Suzanne Carbotte, vinculada ao Observatório Terrestre Lamont-Doherty da Universidade Columbia, atuou como líder da expedição científica oceânica, que empregou pulsos acústicos direcionados às camadas profundas da crosta sob o Oceano Pacífico.

Continue lendo: Cometa interestelar 3I/ATLAS: novas análises químicas detalham trajetória e gênese do corpo celeste

A captação das ondas que rebateram nas formações subterrâneas dependeu de um cabo de 15 quilômetros de comprimento equipado com sensores hidroacústicos, rebocado em alto-mar para recolher os ecos sísmicos. Esse dispositivo de alta sensibilidade gerou imagens profundas com resolução suficiente para rastrear falhas internas imperceptíveis em coletas de superfície anteriores, mostrando que o afundamento e o rompimento estrutural das rochas ocorreram em episódios reiterados ao longo das eras geológicas.

Janela de placa em Cascadia e o impacto na atividade vulcânica

A ruptura gradativa observada no fundo do mar pode abrir uma fenda litosférica categorizada como janela de placa, termo técnico correspondente à expressão em inglês slab window. Quando a crosta oceânica se parte e os blocos se afastam no manto, cria-se uma lacuna no escudo rígido. Essa abertura possibilita a subida de magma aquecido procedente do manto superior até as camadas mais rasas da crosta, alterando a temperatura e a dinâmica magmática em toda a província geológica.

Os pesquisadores ressaltaram que a passagem de material ígneo por essas janelas exerce influência direta na atividade vulcânica regional. As assinaturas químicas e térmicas simuladas a partir da fenda identificada coincidem com os padrões verificados em antigas rochas vulcânicas da América do Norte, sugerindo que eventos prévios de quebra de placas já modularam erupções em outros pontos da margem ocidental do continente no passado geológico.

Cronologia e antecedentes sísmicos na falha de Cascadia

A zona de subducção de Cascadia compreende um arco tectônico que vai do norte do estado da Califórnia, nos Estados Unidos, até a Ilha de Vancouver, no Canadá. Nesse setor, as placas oceânicas de Juan de Fuca e Explorer convergem e deslizam sob a Placa Norte-Americana. A quebra progressiva dessas estruturas insere-se em um histórico de eventos extremos e expedições científicas comprovadas:

  • 1700 — Ocorre o último megaterremoto documentado na Falha de Cascadia, com magnitude estimada em cerca de 9,0, responsável por provocar um tsunami transoceânico que atravessou o Pacífico e atingiu a costa do Japão.
  • 2021 — A expedição oceanográfica CASIE21 percorre a costa noroeste do Pacífico e utiliza sensores instalados ao longo de 15 quilômetros para coletar imagens de reflexão sísmica da crosta submersa.
  • 25 de setembro de 2026 — Cientistas formalizam a divulgação do estudo que comprova a fragmentação contínua da placa e a presença da falha de 75 quilômetros com zonas de silêncio e tremores.

Incertezas sobre os próximos megaterremotos em Cascadia

A constatação do rompimento da placa oceânica em Cascadia não extingue os perigos tectônicos para as populações costeiras na escala de tempo humana. Como a desaceleração e o desaparecimento total da subducção demandam dezenas de milhões de anos, o acúmulo de estresse elástico nas porções ainda interligadas continua ativo, mantendo o risco de novos abalos de grande intensidade e formação de ondas gigantes no noroeste americano.

A previsão do impacto exato que essa partição provocará na periodicidade dos próximos megaterremotos em Cascadia permanece incerta. Os pesquisadores continuam elaborando modelos numéricos para calcular de que maneira a perda de rigidez nessa seção de 75 quilômetros altera a transferência de tensão mecânica para as áreas vizinhas que ainda permanecem fortemente acopladas.

To Top

Sua privacidade

O Mix Vale usa cookies para medir audiência e exibir anúncios que sustentam a redação. Você escolhe. Saiba mais.