Os morcegos surgiram no continente europeu há cerca de 65 milhões de anos, logo após a extinção em massa que dizimou os dinossauros, de acordo com o maior estudo integrado de genomas e fósseis já realizado sobre o grupo. A análise internacional estabeleceu com 99,2% de probabilidade que esses mamíferos voadores se originaram na Europa antes de se dispersarem pelo globo. O resultado contraria hipóteses anteriores mantidas pela comunidade científica, que apontavam para origens na América do Norte, Ásia ou África por volta de 50 milhões de anos atrás.
Publicado na revista Nature pelo consórcio científico Bat1K na quarta-feira (23 de setembro de 2026), o levantamento mobilizou 137 cientistas de 64 países. O trabalho mapeou a árvore genealógica completa da ordem e identificou que o voo motorizado e a ecolocalização laríngea evoluíram em conjunto logo no início da história evolutiva dos animais. O artigo intitulado ‘Reference genomes and fossils revise bat family phylogeny and biogeography’ teve como primeira autora a pesquisadora Ariadna E. Morales.
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Consórcio Bat1K mapeia genomas e fósseis de morcegos
A equipe de especialistas analisou dados genéticos de alta qualidade obtidos de 103 espécies vivas de morcegos, abrangendo todas as 21 famílias atualmente reconhecidas na ordem. Esse material genômico foi integrado à avaliação anatômica de 44 espécimes fósseis por meio de modelagem computacional evolutiva. Com base no cruzamento de dados, os pesquisadores reconstruíram o genoma do ancestral comum de todos os morcegos modernos e identificaram que o animal original possuía 26 cromossomos.
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O consórcio internacional Bat1K foi fundado em 2017 pelas cientistas Emma Teeling e Sonja Vernes com a meta de sequenciar o genoma de todas as espécies vivas de morcegos da Terra. Até a publicação desta pesquisa, as linhagens fósseis mais antigas conhecidas fisicamente datavam de aproximadamente 52 milhões de anos, o que deixava uma lacuna sobre o momento exato em que o grupo se separou dos outros mamíferos placentários terrestres.
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“Os morcegos nos surpreendem constantemente. Eles são um dos maiores experimentos da evolução”, afirmou Sonja Vernes, professora de biologia da Universidade de St Andrews, na Escócia, e codiretora fundadora do projeto Bat1K.
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A aparência dos antecessores diretos dos morcegos ainda depende de novas descobertas geológicas, já que os fósseis mais recuados encontrados até hoje já dispõem de estruturas corporais inteiramente adaptadas ao voo. “Não sabemos ao certo, mas acredito que se pareciam com musaranhos-arborícolas começando a desenvolver dedos longos. Isso é apenas um palpite, já que todos os fósseis mais antigos se parecem com morcegos modernos”, explicou Emma Teeling, professora de zoologia da University College Dublin, na Irlanda, e também líder do consórcio.
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Voo motorizado e ecolocalização impulsionaram dispersão dos morcegos
Os morcegos representam os únicos mamíferos capazes de voo propulsionado e sustentado em toda a história da Terra. Na evolução dos vertebrados, essa habilidade motora foi compartilhada apenas com os répteis da ordem dos pterossauros, extintos no impacto do asteroide há 66 milhões de anos, e com as aves, que sobreviveram àquele cataclismo. Diferente das asas das aves e dos pterossauros, a estrutura dos morcegos é formada por membros anteriores modificados com dedos alongados que esticam uma fina membrana de pele.
Além do voo, a ecolocalização laríngea permitiu aos animais emitirem ondas sonoras em alta frequência para processar o eco refletido por presas e obstáculos. Esse sistema sensorial abriu caminho para a caça no período noturno sem a pressão predatória de aves de rapina diurnas. A bióloga evolucionista Liliana M. Dávalos, professora da Universidade Estadual de Nova York em Stony Brook e uma das líderes do estudo, detalhou que essa adaptação simultânea foi determinante para a rápida sobrevivência do grupo no final do Paleoceno.
“Acredito que a capacidade de voar e usar a ecolocalização abre oportunidades incríveis para ocupar novos nichos ecológicos — como caçar à noite, quando há menos competição e menos predadores, por exemplo. O voo os levou para o ar. A ecolocalização permitiu que dominassem a noite”, declarou Sonja Vernes.
“A ecolocalização permitiu que os morcegos se tornassem noturnos, essencialmente, e não competissem com as aves nem fossem predados por aves diurnas (ativas durante o dia)”, reforçou Emma Teeling.
Rota geográfica dos morcegos partiu da Europa para o mundo
Após se estabelecerem na Europa cerca de um milhão de anos depois do asteroide que encerrou a era dos dinossauros não aviários, os primeiros morcegos migraram para a África. O continente africano funcionou como um segundo núcleo inicial de irradiação, a partir do qual as linhagens se multiplicaram e alcançaram a Ásia, a América do Norte, a América do Sul e a Oceania. A paleontóloga Suzanne Hand, professora da Universidade de New South Wales, na Austrália, participou da validação das pistas fósseis desse trajeto intercontinental.
Hoje, existem mais de 1.500 espécies de morcegos na Terra, o que corresponde a mais de 20% de todas as espécies vivas de mamíferos no planeta. Esses animais habitam desde florestas tropicais até zonas desérticas e cumprem serviços de polinização, dispersão de sementes e controle de pragas de insetos. O único território do planeta que nunca foi ocupado por nenhuma espécie de morcego é a Antártida.
Dados e medidas da pesquisa com morcegos
- 65 milhões de anos: idade determinada para o surgimento dos morcegos na Europa
- 103 espécies: total de genomas de morcegos de alta precisão avaliados
- 21 famílias: totalidade das famílias taxonômicas vivas representadas no artigo
- 44 espécimes fósseis: registros anatômicos integrados às matrizes evolutivas
- 137 cientistas: quantidade de pesquisadores de 64 países no estudo da Nature
- 1,7 metro: envergadura da maior espécie atual, o morcego-raposa-dourado-gigante das Filipinas
- 13 centímetros: envergadura da menor espécie viva, o morcego-abelha da Tailândia e de Myanmar
Pesquisa médica e busca por fósseis de transição dos morcegos
A reconstrução genômica estabelece bases para estudos biomédicos focados na saúde humana. Os morcegos apresentam alta tolerância a patógenos virais sem desenvolver quadros inflamatórios graves, além de uma longevidade incomum quando comparada a outros mamíferos de massa corporal semelhante. Cientistas pretendem usar o banco genético do Bat1K para identificar mecanismos de resposta imunológica, reparo celular e prevenção de câncer.
Apesar do avanço sobre a datação e o local geográfico de origem, a ciência ainda não confirmou qual característica anatômica se manifestou primeiro: o voo motorizado ou a ecolocalização. Todos os fósseis mais antigos catalogados, com idades em torno de 50 a 52 milhões de anos, já exibem simultaneamente asas estruturadas e alterações auditivas típicas do sonar laríngeo, como a cóclea alargada e adaptações no ouvido médio. O esclarecimento dessa etapa depende da localização de fósseis de pré-morcegos de transição que preencham o intervalo entre 52 milhões e 65 milhões de anos atrás.
