O cometa interestelar 3I/ATLAS atingiu a marca de 1,77 bilhão de quilômetros de distância da Terra enquanto se desloca a 209 mil km/h rumo ao espaço exterior. Novas análises astroquímicas divulgadas na quarta-feira (23) revelam que o corpo celeste se formou a temperaturas inferiores a -240 °C, correspondentes a cerca de 30 Kelvin, nas franjas externas de um sistema estelar antigo.
As conclusões têm como base dados espectroscópicos obtidos no observatório de La Palma, nas Ilhas Canárias, e modelos de evolução química estelar. “Este objeto nos dá uma rara chance de estudar material que se formou em um lugar completamente diferente do nosso Sistema Solar. Descobrir que ele é tão rico em nitrogênio nos mostra que provavelmente se formou sob condições de frio extremo, longe de sua estrela nativa”, afirmou a pesquisadora Léa Ferellec, da Northumbria University, em tradução livre.
Cometa 3I/ATLAS: instrumento WEAVE identifica cinco íons em cauda de plasma
Diferentemente das leituras usuais da nuvem de gás que envolve o núcleo, as medições do telescópio William Herschel examinaram especificamente a cauda de plasma gerada após a aproximação máxima do cometa com o Sol. Por meio do espectrógrafo WEAVE, os pesquisadores conseguiram identificar de forma simultânea cinco espécies de íons na estrutura: nitrogênio molecular, monóxido de carbono, dióxido de carbono, água ionizada e cátion metilidino, catalogados quimicamente como N2+, CO+, CO2+, H2O+ e CH+.
A presença abundante de nitrogênio molecular em proporção direta com o monóxido de carbono permitiu calcular com precisão o patamar térmico do berço estelar do cometa. A astrônoma Cyrielle Opitom, da Universidade de Edimburgo, integrou o grupo observacional que acompanhou a evolução dos gases pós-periélio, etapa crucial para determinar que os compostos voláteis permaneceram congelados desde a formação original do objeto interestelar.
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Proporções isotópicas comprovam origem em estrela com metade dos metais do Sol
Um estudo complementar publicado na segunda-feira (21) pelo pesquisador Kenji Furuya, do RIKEN Pioneering Research Institute, no Japão, avaliou a composição atômica da água do visitante interestelar. As modelagens identificaram uma anomalia nas proporções entre deutério e hidrogênio simples, assim como nas taxas entre os isótopos de carbono-12 e carbono-13, parâmetros que funcionam como uma assinatura cronológica do meio onde os blocos de gelo se aglutinaram.
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Essas taxas isotópicas atípicas confirmam que o corpo celeste foi ejetado de um sistema cujo astro central apresentava nível de metalicidade estimado em cerca de 50% do índice solar. Isso significa que a estrela hospedeira original continha metade da concentração de elementos mais pesados que o hélio existente no Sol, indicando um sistema planetário muito antigo ou desenvolvido em regiões periféricas da galáxia.
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Terceiro objeto de fora do Sistema Solar registrado desde 2017
O 3I/ATLAS representa apenas a terceira intrusão confirmada de um corpo interestelar no Sistema Solar desde o início das medições astronômicas modernas. O primeiro registro histórico ocorreu em 2017 com a passagem do asteroide 1I/’Oumuamua, seguido em 2019 pela identificação do cometa 2I/Borisov. Diversos instrumentos em órbita participaram do monitoramento coordenado do 3I/ATLAS, incluindo os telescópios espaciais James Webb e Hubble, o Very Large Telescope no Chile, além dos sensores das missões planetárias Juice e Europa Clipper.
Cronologia e dados de observação do cometa 3I/ATLAS
- 1 de julho de 2025: descoberta oficial do objeto interestelar pelo sistema de rastreio ATLAS instalado no Chile.
- 29 de outubro de 2025: passagem pelo periélio, atingindo o ponto de maior proximidade da órbita solar às 11:45 UT.
- 30 de novembro de 2025: início das observações espectroscópicas profundas com o instrumento WEAVE nas Ilhas Canárias.
- 8 de setembro de 2026: apresentação formal das taxas iônicas de nitrogênio na Royal Astronomical Society.
- 21 de setembro de 2026: divulgação da modelagem de deutério e metalicidade estelar conduzida pelo instituto RIKEN.
A identidade precisa e a localização da estrela onde o corpo celeste se formou antes de ser expulso para o vácuo interestelar permanecem desconhecidas pela comunidade científica. Enquanto segue em trajetória hiperbólica irreversível para fora dos limites planetários, os astrônomos mantêm o processamento dos bancos de dados captados por telescópios terrestres e sondas espaciais.
