Ciência

Baleia-jubarte vela filhote morto no fundo do mar na Austrália

Baleias Jubarte - Hyserb / shutterstock.com
Baleias Jubarte - Hyserb / shutterstock.com

Pesquisadores documentaram o primeiro registro científico de uma baleia-jubarte fêmea velando e acariciando seu filhote natimorto no fundo do mar, na costa de Queensland, na Austrália. A interação subaquática durou pelo menos duas horas contínuas a cerca de 1 km da praia de Palm Beach Reef, em Gold Coast, sem que a mãe tentasse se alimentar ou seguir viagem.

O estudo conduzido por cientistas da Universidade Griffith e da Fundação Sea World foi publicado na revista Discover Animals em 16 de setembro de 2026. A equipe acompanhou a mãe mergulhando repetidamente até o leito marinho, onde tocou o corpo inerte da cria com a cabeça e a nadadeira peitoral, mantendo repouso e contato visual direto por mais de uma hora ao lado do filhote.

Baleia jubarte
Baleia jubarte – Jonas Gruhlke/ Shutterstock.com

Pesquisa da Universidade Griffith detalha comportamento maternal inédito

Diferente de cetáceos com dentes, como golfinhos e orcas, que costumam empurrar e equilibrar crias mortas na linha da água, a fêmea de baleia-jubarte permaneceu submersa sem tentar içar o neonato até a superfície. Durante todo o episódio, uma segunda baleia-jubarte adulta permaneceu nas proximidades na função de acompanhante, realizando mergulhos breves e mantendo vigília na superfície oceânica.

Saiba mais: Ameaça de nova tragédia: baleia jubarte ‘Hartwin’ é avistada debilitada na costa da Alemanha

A filmagem subaquática que deu origem à análise acadêmica foi registrada em 17 de julho de 2025 pelo capitão de barco de resgate da Fundação Sea World e coautor do estudo, Andrew Mulville. Ele utilizou uma câmera portátil para documentar o evento logo após a expulsão da membrana amniótica. “Quando eu realmente entendi o que estava acontecendo, fiquei totalmente surpreso. À primeira vista, pensei que eram apenas duas baleias descansando na superfície, mas o comportamento delas era incomum”, afirmou Mulville, em tradução livre.

O autor principal da pesquisa e especialista em ecologia marinha do Programa de Pesquisa de Baleias e Clima da Universidade Griffith, Jan-Olaf Meynecke, destacou as particularidades da atitude registrada em comparação com outras espécies de mamíferos marinhos. “Diferente de relatos sobre baleias com dentes em que as mães foram observadas erguendo seus filhotes mortos até a superfície, esta mãe de baleia-jubarte apresentou comportamento e atenção pós-morte prolongados em direção ao seu filhote falecido sob a superfície”, disse Meynecke, em tradução livre.

Misticetos e a raridade de registros pós-morte em alto-mar

As reações de cuidado direcionadas a indivíduos debilitados ou mortos, classificadas na biologia como comportamento epimelético, são conhecidas entre animais de forte interação comunitária. Cetáceos dentados contam com diversos registros de mães que transportam filhotes mortos por longos períodos. O caso mais longo ocorreu em 2018 com a orca J35, conhecida como Tahlequah, que carregou o corpo de sua cria falecida por 17 dias ao longo de 1.500 km no mar de Salish. Em contrapartida, episódios em baleias de barbatana permaneciam quase ausentes na literatura.

Essa escassez de dados decorre de fatores fisiológicos e comportamentais da espécie. As baleias-jubarte passam por uma gestação que dura de 11 a 12 meses, migrando para águas mais quentes para dar à luz filhotes que nascem com baixas reservas de gordura corporal. Em casos de morte perinatal, os corpos afundam rapidamente no oceano aberto, o que inviabiliza o acompanhamento dos cientistas e dificulta a visualização das reações maternas imediatas.

Os principais marcos cronológicos e dados do levantamento científico reúnem informações sobre o monitoramento:

  • 17 de julho de 2025: gravação das imagens submarinas da fêmea de jubarte com o filhote natimorto em Palm Beach Reef.
  • 16 de setembro de 2026: publicação formal do artigo científico na revista Discover Animals e divulgação institucional.
  • 1 km de distância da praia: ponto exato onde a carcaça do neonato permaneceu no leito oceânico durante as filmagens.
  • 2 horas: tempo mínimo de observação ininterrupta da interação maternal registrada pelos equipamentos de campo.
  • 7 filhotes mortos: total de perdas neonatais de jubartes registradas na costa leste australiana naquele mesmo mês de monitoramento.

Distinção científica entre luto e apego maternal em baleias-jubarte

Os pesquisadores evitam afirmar categoricamente que o episódio configure um processo de luto nos moldes das emoções humanas, preferindo classificar a atitude como manifestação atenciosa pós-morte decorrente de fortes laços reprodutivos. Mudanças hormonais intensas provocadas pelo parto recente mantêm a fêmea orientada a proteger a cria, o que pode prolongar a assistência mecânica mesmo na ausência de sinais vitais no filhote.

“Os comportamentos que observamos podem representar luto, mas também podem refletir apego materno, confusão ou cuidado instintivo”, explicou Jan-Olaf Meynecke, em tradução livre. A interrupção de atividades rotineiras de migração e de alimentação diante da morte também é verificada em outros grupos sociais complexos, a exemplo de elefantes e grandes primatas.

A causa exata da morte do neonato não pôde ser atestada laboratorialmente pelos cientistas que recolheram os dados na enseada australiana. Da mesma forma, relatos de moradores que avistaram duas jubartes adultas na mesma enseada nos dois dias seguintes ao parto não puderam ter a identidade individual dos animais confirmada pela equipe de pesquisa.

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