Animal que inspirou o Wolverine enfrenta perda de espaço para estradas e turismo
O carcaju, mamífero carnívoro conhecido por inspirar o personagem Wolverine dos quadrinhos, registra densidade populacional reduzida em áreas com tráfego de veículos e atividades de lazer nas montanhas do Canadá. Pesquisadores identificaram menos de 300 indivíduos em uma extensão de 81.800 km² monitorada no oeste da província de Alberta e no leste da Colúmbia Britânica.
O estudo, publicado nesta terça-feira (29) de setembro de 2026 na revista científica Biological Conservation, calculou que a população total da espécie na região avaliada poderia ser cerca de 30% maior caso os impactos causados por rodovias e pela recreação ao ar livre não existissem.
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A pesquisa de campo foi coordenada pela pesquisadora de ecologia Mirjam Barrueto, da Universidade de Calgary, sob orientação do professor adjunto Marco Musiani. Para quantificar a presença dos carnívoros, a equipe instalou 174 estações de amostragem durante os períodos de inverno entre 2018 e 2020. As estações operaram com armadilhas fotográficas disparadas por sensores de movimento e coletores de pelos, método que permitiu extrair material genético e confirmar a passagem de 226 indivíduos distintos pelo território.
O levantamento comprovou que a interferência humana não provocou apenas desvios temporários de rota, mas causou uma diminuição real no número de animais residentes em áreas movimentadas. Para mapear o fluxo recreativo, os cientistas recorreram a registros térmicos públicos de aplicativos esportivos, reunindo informações sobre esqui de montanha, heli-esqui, cat skiing, esqui cross-country e caminhadas em trilhas. O cruzamento dos dados demonstrou que tanto a malha viária quanto as trilhas de lazer reduzem o contingente de animais em escala populacional.
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“Fiquei um pouco surpresa com o impacto da recreação, para ser sincera. Como esperado, descobrimos que a densidade de estradas é o outro principal preditor para a densidade da população — e também para as fêmeas”, declarou Mirjam Barrueto, em tradução livre. A pesquisadora explicou ainda que as duas perturbações humanas atuaram diretamente na ocupação do solo: “Em áreas com mais distúrbios, seja densidade de estradas ou recreação, havia menos indivíduos do que em áreas com menos interferência. Isso em escala populacional, não se trata apenas de terem evitado uma área pequena, havia de fato menos indivíduos vivendo lá.”
O efeito das vias de transporte terrestres mostrou-se severo entre as fêmeas adultas. O padrão gera alerta biológico imediato porque a espécie apresenta baixa capacidade reprodutiva natural, gerando apenas de um a três filhotes por ninhada com intervalos de vários anos entre os partos. Qualquer retração na quantidade de fêmeas reprodutoras atrasa significativamente a regeneração dos bandos.
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Conhecido cientificamente como Gulo gulo e chamado popularmente de glutão, o animal é o maior membro terrestre da família Mustelidae, o mesmo grupo das lontras e das doninhas. No Canadá, a espécie consta formalmente na categoria de Preocupação Especial dentro da Lei de Espécies em Risco. Levantamentos anteriores conduzidos por especialistas da Universidade de Calgary já indicavam que a densidade do carnívoro nas Montanhas Rochosas canadenses havia caído quase 40% entre os anos de 2011 e 2020, processo impulsionado pela fragmentação de habitats, pelo avanço da caça e pelo uso de armadilhas fora dos limites de parques protegidos.
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A diretora de ciência e pesquisa da organização Nature Conservancy of Canada e coautora do artigo, Aerin L. Jacob, apontou caminhos práticos para os gestores ambientais a partir das conclusões publicadas. “Nossas descobertas são contundentes. O que me dá esperança é que isso nos dá uma base para agir em todos os níveis. Seja ao decidir sobre a abertura de trilhas, proteger e restaurar habitats ou trabalhar para prevenir e reduzir impactos”, afirmou a cientista, em tradução livre.
Os pesquisadores sugerem como medidas prioritárias a proteção estrita de refúgios florestais ainda isolados, a contenção da abertura de novos acessos rodoviários e o fechamento temporário de trilhas recreativas nas épocas e localidades de reprodução das fêmeas.
- Área geográfica total monitorada pela pesquisa: 81.800 km² entre Alberta e Colúmbia Britânica
- População estimada vivendo no território avaliado: menos de 300 indivíduos
- Estações de amostragem instaladas nos invernos de 2018 a 2020: 174 pontos
- Exemplares únicos identificados por DNA e imagens: 226 carnívoros
- Estimativa de perda populacional decorrente de estradas e turismo: 30%
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O repositório completo com os códigos e a base estatística da pesquisa foi disponibilizado publicamente no arquivo Dryad na quinta-feira (24), enquanto a íntegra analítica do artigo científico circula nas edições regulares da Biological Conservation.
