James Webb flagra ejeção de elementos pesados 500 milhões de anos após o Big Bang

Por
Telescópio James Webb Foto: Telescópio James Webb - muratart/ Shutterstock.com

O Telescópio Espacial James Webb detectou galáxias primitivas expelindo elementos químicos pesados para o espaço intergaláctico apenas 500 milhões de anos após o Big Bang. A descoberta, realizada por astrônomos liderados pela Universidade do Arizona, em Tucson, nos Estados Unidos, revela que o enriquecimento da matéria cósmica começou centenas de milhões de anos antes do que previam os modelos teóricos tradicionais.

O estudo comprovou que essas estruturas antigas já espalhavam componentes essenciais, como carbono, oxigênio e silício, quando o cosmos tinha somente cerca de 3% da sua idade atual. O trabalho científico foi publicado na revista Nature Astronomy na quinta-feira (24) e indica que o meio que circundava os primeiros aglomerados estelares não permaneceu quimicamente puro por muito tempo.

Saiba mais: Telescópio James Webb descobre como planeta gigante sobreviveu à morte de sua estrela

“Observamos que elementos pesados escaparam das galáxias muito, muito cedo no tempo cósmico”, afirmou o pesquisador de pós-doutorado do Departamento de Astronomia e Observatório Steward da Universidade do Arizona Yongda Zhu, primeiro autor do artigo científico, em tradução livre. “As galáxias não só estavam produzindo esses elementos, como também os estavam dispersando, possivelmente semeando outras galáxias.”

Dados da pesquisa liderada pela Universidade do Arizona

Estrelas, galáxias
Foto: Estrelas, galáxias – dima_zel/ Istockphoto.com

As conclusões foram obtidas por meio de análises espectroscópicas profundas que detalham o comportamento físico dos gases cósmicos primordiais e as propriedades dos sistemas estelares remotos.

  • Data da publicação oficial do estudo: 24 de setembro de 2026
  • Instituição de liderança acadêmica: Universidade do Arizona, em Tucson
  • Periódico de divulgação: revista Nature Astronomy
  • Equipamento principal de observação: espectrógrafo NIRSpec do Telescópio Espacial James Webb
  • Amostra observada: 3 galáxias primitivas com desvios para o vermelho entre 7,2 e 9,3
  • Tempo total de exposição acumulado: quase 30 horas de captação de luz no infravermelho

Espectroscopia do James Webb registra ventos gasosos em alta velocidade

Para conseguir enxergar os compostos ao redor dos corpos celestes, os cientistas recorreram aos dados do instrumento NIRSpec, o espectrógrafo de infravermelho próximo do observatório orbital. A equipe utilizou quase 30 horas de exposição acumulada para analisar detalhadamente a radiação de três galáxias primitivas, cuja luz viajou por mais de 13 bilhões de anos até alcançar os espelhos do observatório espacial. Essas formações situam-se em uma faixa de desvio para o vermelho, chamada tecnicamente de redshift, que varia de 7,2 a 9,3.

O método de medição tirou proveito do brilho natural emitido pelo centro dos próprios sistemas estelares para sondar a vizinhança gasosa. Conforme os fótons atravessavam o material circundante a caminho dos detectores na Terra, deixavam assinaturas específicas de absorção em comprimentos de onda determinados. Ao examinar minuciosamente os dados disponibilizados ao público, Zhu identificou linhas de absorção com nítido deslocamento para o azul em relação à velocidade de repouso das galáxias, sinal inequívoco de que as nuvens gasosas estavam sendo ejetadas para fora dos limites galácticos em direção ao vazio intergaláctico.

Veja também: Telescópio James Webb mapeia 800 mil galáxias para desvendar a matéria escura

As análises detalhadas confirmaram que esse gás em fuga atinge velocidades situadas entre 50 e 250 quilômetros por segundo em relação à velocidade sistêmica nebular das galáxias. A decomposição espectral permitiu aos pesquisadores discriminar com precisão os íons que compõem essas correntes ejetadas: oxigênio neutro (O I), silício ionizado (Si II e Si IV) e carbono ionizado (C II e C IV). Essa assinatura multifásica demonstra que ventos galácticos vigorosos empurravam metais recém-sintetizados para além do poço gravitacional em uma era extremamente remota.

“Usamos as próprias galáxias como fontes de luz de fundo”, explicou Yongda Zhu, em tradução livre. “À medida que a luz das galáxias viajava em direção à Terra, ela passava pelo gás circundante, e fomos capazes de observar os padrões de absorção da luz para detectar elementos específicos.”

Ciclo bariônico precoce transforma a compreensão do amanhecer cósmico

A expulsão sistemática de matéria pesada demonstra a atuação plena do chamado ciclo bariônico, processo físico em que galáxias realizam trocas dinâmicas de gás com o meio ao seu redor. Em vez de atuarem como redutos fechados, os sistemas nascentes funcionavam como usinas abertas, capazes de retroalimentar a teia cósmica com materiais transformados. Esse mecanismo de fertilização ambiental ocorreu bem antes do ponto intermediário da Época da Reionização, fase na qual a radiação ultravioleta emitida pelas primeiras estrelas arrancou os elétrons dos átomos neutros de hidrogênio intergaláctico.

O pesquisador comparou a dispersão desses elementos químicos à disseminação de um pigmento em um meio líquido transparente para ilustrar como a vizinhança galáctica foi alterada precocemente. O enriquecimento metalífero transformou as condições físicas das nuvens circum-galácticas que mais tarde colapsariam para gerar novas concentrações estelares.

Confira também: Material para fabricação na Lua: NASA testa nova tecnologia sob microscópio

“Pense nesses elementos, originados das estrelas das galáxias, como corante alimentício pingado em um copo de água”, disse Zhu, em tradução livre. “A cor começa a se espalhar pela água e, de maneira semelhante, esses elementos pesados das primeiras galáxias começaram a escapar para o espaço e a enriquecer o ambiente ao redor.”

O trabalho acadêmico contou com a participação do pesquisador Zhiyuan Ji e da professora regente de astronomia Marcia J. Rieke, ambos da Universidade do Arizona e ligados ao desenvolvimento de instrumentos do James Webb, além do astrofísico George D. Becker. Os dados obtidos reforçam que as impressões digitais químicas detectadas nos primórdios guardam semelhanças notáveis com estruturas galácticas mais desenvolvidas que surgiram bilhões de anos depois.

Ejeção de metais e o paradeiro das estrelas da População III

Segundo o modelo cosmológico padrão, os instantes iniciais que sucederam o Big Bang produziram um Universo constituído exclusivamente por hidrogênio e hélio, além de traços mínimos de lítio. Os elementos mais pesados que o hélio, agrupados coletivamente sob a designação astronômica de metais, foram inexistentes até que a gravidade condensasse o gás virgem primordial nas primeiras fornalhas termonucleares estelares. Quando essas estrelas pioneiras esgotavam seu combustível e explodiam como supernovas cataclísmicas, dispersavam seus núcleos fundidos pelo espaço interestelar, pavimentando a formação de gerações solares seguintes e de planetas rochosos.

Até a publicação do novo levantamento, a astrofísica teórica sustentava a hipótese de que o gás interestelar e intergaláctico teria se mantido prístino e isento de contaminação metálica durante a maior parte do primeiro bilhão de anos do Universo. No entanto, a confirmação de que carbono, silício e oxigênio já eram arremessados para longe aos 500 milhões de anos sugere que a fase verdadeiramente pura do cosmos durou um intervalo de tempo muito menor do que o estimado pela comunidade científica internacional.

Essa alteração acelerada da composição do meio gasoso oferece uma resposta plausível para uma das maiores buscas observacionais da astronomia moderna: a ausência de registros diretos das estrelas da População III. Esses astros hipotéticos teriam sido os primeiros corpos celestes a brilhar, formados exclusivamente da mistura intocada de hidrogênio e hélio. Se o ambiente primordial foi contaminado por metais tão rapidamente, o intervalo temporal disponível para o nascimento de estrelas livres de elementos pesados encolheu de forma drástica, tornando extremamente rara a sobrevivência de bolsões de gás imaculado.

“Se você começar com sorvete de baunilha puro, mas começar a misturar confeitos logo depois, não demorará muito até que não consiga mais encontrar nenhum sorvete de baunilha puro e simples”, afirmou Zhu, ao comparar o processo de mistura cósmica em tradução livre.

Perguntas abertas sobre o alcance da contaminação intergaláctica

Os pesquisadores ressaltam que as conclusões divulgadas baseiam-se em um conjunto selecionado de três galáxias luminosas observadas pelo telescópio espacial. Ainda não se sabe se o processo de ejeção de elementos pesados flagrado nesses alvos específicos representava uma regra geral compartilhada por todas as galáxias da infância do Universo ou se constituía uma particularidade exclusiva dos sistemas mais massivos e brilhantes daquele período.

O avanço das investigações dependerá do processamento contínuo de novos espectros captados pelo observatório James Webb em regiões cósmicas profundas, buscando identificar se galáxias menores e menos luminosas também exibiam fluxos gasosos equivalentes em direção ao espaço circundante.

Notícias relacionadas