Telescópio VLT dispara lasers de quatro estruturas no Chile para criar estrelas-guia na mesosfera

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telescópios principais que compõem o VLT podem disparar lasers - Divulgação/Ghizzi Panizz/OES Foto: telescópios principais que compõem o VLT podem disparar lasers - Divulgação/Ghizzi Panizz/OES

O Telescópio Muito Grande (VLT) opera simultaneamente com lasers disparados de quatro estruturas separadas no deserto do Atacama, no Chile, para anular as distorções visuais provocadas pela atmosfera da Terra. A tecnologia cria estrelas-guia artificiais no céu e permite que os quatro instrumentos principais funcionem combinados como um único telescópio virtual de alta resolução.

A configuração atual foi viabilizada após o Observatório Europeu do Sul (OES) concluir, no fim de 2025, a instalação do último equipamento de uma série de alta potência no complexo de Paranal, elevando para sete o total de lasers disponíveis. Segundo a astrônoma Amelia Bayo, cientista de projetos do OES, a técnica supera uma das maiores barreiras da astronomia em terra firme: “A nossa atmosfera nos protege, o que é fantástico. Mas, para os astrônomos, é horrível, pois a atmosfera basicamente prejudica a nitidez da luz proveniente das estrelas e galáxias”.

Telescópio VLT dispara feixes de sódio a 90 km de altitude

Os feixes de luz projetados a partir do solo viajam em linha reta até atingirem uma camada da mesosfera localizada a cerca de 90 km de altitude, onde há grande concentração de átomos de sódio. Ao entrarem em contato com a radiação, essas partículas são excitadas e passam a emitir fótons com intensidade suficiente para serem captados pelos espelhos dos telescópios. O processo gera pontos de luz que atuam como estrelas artificiais sob medida, posicionadas exatamente no campo de observação desejado pelos cientistas. Amelia Bayo explica a vantagem do método: “Nossa atmosfera é rica em sódio. Ela oferece uma lona onde podemos colocar a estrela onde quisermos”.

Cada um dos lasers emite um feixe de 30 cm de diâmetro com 22 W de potência, índice cerca de 4 mil vezes superior ao de uma caneta laser comercial. Diferentemente de equipamentos de gerações anteriores, que dependiam de corantes líquidos tóxicos e exigiam dias de calibração manual, as novas fontes mantêm estabilidade contínua ao toque de um comando. “Antes, quase parecia que você estava segurando uma caneta laser com a mão trêmula. Agora, você tem um aparelho perfeitamente estável que lança um raio muito mais poderoso”, afirmou Bayo.

Via Láctea, estrelas , espaço - sripfoto/ istockphoto.com
Foto: Via Láctea, estrelas , espaço – sripfoto/ istockphoto.com

Óptica adaptativa e espelhos magnéticos corrigem distorções no VLT

A criação da estrela artificial é a etapa inicial de um método chamado óptica adaptativa, concebido para medir e anular a turbulência atmosférica em frações de segundo. Quando a luz celeste atinge a superfície do espelho primário de 8,2 metros de diâmetro de cada unidade, o reflexo é direcionado a um espelho secundário deformável. Esse dispositivo interno conta com materiais piezoelétricos capazes de produzir cargas elétricas e alterar sua forma física em altíssima velocidade. O espelho corretor fica suspenso no interior de um campo magnético, flutuando sem contato mecânico rígido para neutralizar as oscilações do ar em tempo real.

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Sem essa correção instantânea da trajetória luminosa, a qualidade dos dados científicos colhidos pelo observatório chileno seria comprometida pelas massas de ar em constante mutação. “A implementação é difícil, mas a ideia é supersimples”, resumiu Bayo, alertando para a necessidade de um ponto de referência luminoso fixo. “Se você não compensar a atmosfera, sua estrela ficará pulando em diferentes lugares do seu detector e você acabará com uma imagem borrada.”

Especificações técnicas e histórico dos lasers do observatório VLT

O conjunto operacional reúne dados de engenharia e marcos cronológicos desde a transição de testes individuais até a unificação dos quatro telescópios principais do complexo:

  • Total de lasers disponíveis no complexo de Paranal: 7 unidades de alta potência concluídas no fim de 2025.
  • Telescópios principais integrados: 4 unidades com espelhos de 8,2 metros de diâmetro, denominadas Antu, Kueyen, Melipal e Yepun.
  • Potência individual de emissão: 22 W por dispositivo, em feixes com 30 cm de diâmetro.
  • Altitude da camada de atuação: 90 km na mesosfera terrestre, em região com abundância de átomos de sódio.
  • Primeiro teste com múltiplos feixes: 26 de abril de 2016, quando o telescópio Yepun disparou quatro lasers ao mesmo tempo com o sistema 4LGSF.
  • Data de divulgação das operações conjuntas em rede: sexta-feira, 2 de outubro de 2026.

Origem na Guerra Fria e descobertas astronômicas no VLT

A aplicação prática de feixes de laser para a criação de estrelas-guia tem raízes militares. Durante o período da Guerra Fria, entre 1947 e 1991, as Forças Armadas dos Estados Unidos desenvolveram técnicas semelhantes de óptica para rastrear satélites da União Soviética em órbita baixa. Com o tempo, a comunidade científica adaptou os princípios balísticos e de sensoriamento para resolver o problema da refração atmosférica enfrentado pelos observatórios instalados na superfície da Terra.

Com o auxílio dessas ferramentas ópticas, o complexo do VLT acumulou descobertas de relevância internacional ao longo dos últimos anos. As instalações no deserto do Atacama foram responsáveis por registrar a primeira imagem direta de um exoplaneta, corpo celeste situado fora do Sistema Solar, além de realizarem o mapeamento orbital detalhado de estrelas que circulam ao redor do buraco negro supermassivo no centro da Via Láctea.

Sistema de segurança aérea desativa feixes do VLT no Atacama

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A operação de feixes com 22 W de potência em direção ao espaço exige medidas de controle sobre o tráfego aéreo na região de Paranal para evitar o ofuscamento visual de tripulações. Um mecanismo automatizado monitora constantemente as rotas de aproximação nas imediações do observatório chileno. De acordo com a astrônoma Itziar de Gregorio-Monsalvo, representante do OES no Chile, a interrupção ocorre sem intervenção manual quando há aeronaves por perto: “É claro que os aviões podem passar sobre o observatório, mas temos um mecanismo de segurança. Se os aviões cruzarem o espaço aéreo perto do nosso local de observação, os lasers são desligados automaticamente”. O protocolo assegura a integridade das rotas aéreas comerciais enquanto os instrumentos permanecem voltados para o céu noturno.

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