Fiocruz conclui ações do Cuida Chagas para integrar dados ao SUS

Fiocruz no Rio da JaneiroFiocruz no Rio da Janeiro

Fiocruz no Rio da Janeiro - Foto: dabldy/ Istockphoto.com

O projeto internacional Cuida Chagas concluiu cinco anos de atividades de campo voltadas para a eliminação e o tratamento da transmissão vertical da doença de Chagas em populações vulneráveis. A iniciativa, coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), entrou na fase de consolidação de evidências científicas e organização de fluxos assistenciais destinados à incorporação no Sistema Único de Saúde (SUS).

Durante o período de atuação direta em 31 municípios distribuídos entre Brasil, Bolívia, Colômbia e Paraguai, a iniciativa examinou mais de 81 mil pessoas e confirmou mais de 2.660 diagnósticos da infecção. A gestão técnica dos trabalhos esteve sob responsabilidade do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), contando com o apoio da Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec), além de ministérios da saúde e instituições científicas dos países parceiros.

Cuida Chagas estrutura diagnóstico precoce com teste molecular

Foto: Médico com estetoscópio. Saúde e conceito médico – Foto: Ridofranz/ Istockphoto.com

O foco central da intervenção consistiu em interromper a transmissão congênita, ocorrência registrada quando o protozoário Trypanosoma cruzi passa da gestante para o feto ao longo da gravidez ou durante o parto. Para aprimorar a triagem neonatal e superar as barreiras de identificação em bebês que não apresentam sintomas clínicos imediatos, a equipe inseriu o teste de biologia molecular baseado na reação em cadeia da polimerase (PCR). O procedimento viabiliza o rastreio do DNA do parasita na corrente sanguínea de recém-nascidos, o que possibilita a prescrição terapêutica rápida nos primeiros meses de vida, momento em que os índices de cura são elevados.

A investigadora principal do projeto e pesquisadora do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, Andréa Silvestre de Sousa, explicou as frentes consolidadas pelo consórcio internacional. De acordo com a especialista, “o projeto deixa como legado caminhos concretos para integrar testagem de mulheres em idade fértil; gestante às rotinas dos serviços, fortalecer o acompanhamento das crianças expostas à transmissão vertical; descentralizar coleta de exames; organizar fluxos entre atenção primária, vigilância, laboratórios, serviços especializados; e ampliar o acesso ao tratamento e ao cuidado integral.”

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Números consolidados do projeto Cuida Chagas

As atividades envolveram mobilização comunitária, capacitação de equipes de saúde e rastreamento epidemiológico intensivo nas regiões contempladas. Os resultados finais das intervenções nos quatro países parceiros incluem os seguintes registros quantitativos apurados pela coordenação:

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  • 81 mil pessoas submetidas a exames clínicos e laboratoriais.
  • 2.660 diagnósticos positivos para a enfermidade confirmados.
  • 2,5 mil profissionais de saúde treinados em protocolos de manejo e triagem.
  • 1.000 ações comunitárias e educativas realizadas nos territórios.
  • 100 lideranças locais formadas para atuação direta nas comunidades.

Com o encerramento do trabalho em campo, as equipes de pesquisadores trabalham na compilação sistemática dos bancos de dados clínicos e epidemiológicos. A proposta é transformar as rotinas validadas nas unidades básicas de saúde em diretrizes formais que possam ser adotadas pelo SUS em escala nacional

, fortalecendo a porta de entrada da atenção primária e a descentralização dos testes laboratoriais.

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Como a doença de Chagas é transmitida às populações?

A enfermidade, identificada em 1909 pelo médico e pesquisador brasileiro Carlos Chagas, permanece classificada como uma infecção parasitária negligenciada e potencialmente letal. Embora o controle de vetores tenha reduzido o contágio clássico em várias áreas da América Latina, a infecção persiste como um desafio relevante para a saúde pública continental devido à multiplicidade de mecanismos de contágio que mantêm o ciclo biológico do agente infeccioso em circulação entre humanos e reservatórios naturais.

A transmissão do Trypanosoma cruzi ocorre por meio de diferentes vias documentadas pela vigilância epidemiológica:

  • Transmissão vetorial: contato da pele lesionada ou mucosas com os dejetos eliminados por insetos triatomíneos, conhecidos popularmente como barbeiros.
  • Transmissão oral: ingestão acidental de alimentos contaminados com fezes ou extratos triturados do vetor, situação comum em surtos associados a caldo de cana e açaí.
  • Transmissão congênita ou vertical: passagem do parasita da corrente sanguínea da mãe para o bebê durante o período gestacional ou no trabalho de parto.
  • Transmissão sanguínea e cirúrgica: realização de transfusões de sangue ou derivados e transplantes de órgãos provenientes de doadores infectados sem triagem prévia.

O foco em mulheres em idade reprodutiva e gestantes busca romper a cadeia congênita, uma vez que a via materno-fetal tornou-se uma das principais fontes de novos casos em centros urbanos e regiões onde o inseto transmissor já se encontra controlado pelas ações tradicionais de borrifação e vigilância entomológica.

Etapas de incorporação das evidências do Cuida Chagas ao SUS

A divulgação inicial sobre a conclusão das ações de campo do consórcio ocorreu no Rio de Janeiro em 14 de setembro de 2026. A partir desse marco, os pesquisadores iniciaram a entrega dos relatórios técnicos destinados às instâncias de gestão do Ministério da Saúde e aos órgãos gestores dos outros três países participantes.

A relação com os nomes detalhados de cada um dos 31 municípios beneficiados pelas atividades de campo no Brasil, na Bolívia, na Colômbia e no Paraguai não foi informada nos relatórios públicos divulgados pelas instituições executoras até o momento. A equipe de investigação científica segue agora com as reuniões bilaterais para desenhar a implementação definitiva dos protocolos de PCR e das rotinas de rastreamento na atenção básica brasileira.