O cabotegravir injetável aplicado como profilaxia pré-exposição garantiu 90,8% de cobertura preventiva contra o HIV entre os usuários atendidos no Sistema Único de Saúde. Os dados constam no estudo clínico ImPrEP CAB Brasil, coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz e publicado na revista científica The Lancet HIV na quinta-feira, 24 de setembro de 2026.
Entre os participantes que utilizaram a profilaxia pré-exposição oral com comprimidos diários distribuídos na rede pública, a cobertura preventiva adequada alcançou 35,5% dos dias monitorados. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, declarou que o Brasil quer incorporar novas tecnologias de prevenção do HIV porque elas podem ampliar as possibilidades de cuidado e oferecer alternativas para pessoas que enfrentam dificuldades de adesão ao uso diário da medicação.
Dados comparativos da pesquisa ImPrEP CAB Brasil
- Participantes no grupo do cabotegravir injetável: 1.201 voluntários de 18 a 30 anos
- Novas infecções registradas com injeção: 3 casos (incidência de 0,20 por 100 pessoas ao ano)
- Novas infecções registradas com comprimidos orais: 18 casos (incidência de 1,48 por 100 pessoas ao ano)
- Adesão às injeções de cabotegravir dentro do prazo estipulado: 92%
- Dias com cobertura protetora no grupo injetável: 90,8%
- Dias com cobertura protetora no grupo oral convencional: 35,5%
A pesquisa foi desenvolvida pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, unidade da Fiocruz situada no Rio de Janeiro, sob a coordenação da pesquisadora principal Beatriz Grinsztejn. O trabalho ocorreu no formato de estudo híbrido de implementação de tipo 2, combinando o monitoramento da eficácia clínica do medicamento com o exame prático de sua aplicação na rotina dos postos de atendimento públicos em seis cidades brasileiras: Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Florianópolis, Manaus e Salvador.
Ao todo, 1.201 voluntários optaram pelo imunizante preventivo injetável na fase experimental da pesquisa. O grupo incluiu homens cisgênero gays e bissexuais, mulheres trans, homens trans e pessoas não binárias com idades entre 18 e 30 anos, perfil considerado prioritário pelas políticas de vigilância epidemiológica do país. O recrutamento dos integrantes começou em 17 de outubro de 2023 e terminou em 16 de setembro de 2024, enquanto o acompanhamento clínico integral de todos os indivíduos encerrou-se em 16 de outubro de 2025.
O índice de cumprimento do calendário vacinal alcançou 92% de aplicações administradas rigorosamente dentro do prazo médico fixado pelo protocolo científico. A regularidade resultou em uma taxa de incidência de 0,20 infecção por 100 pessoas ao ano entre os que escolheram a fórmula injetável, com o registro de apenas três diagnósticos positivos durante o período de testes. Em contrapartida, a coorte de comparação mantida com o tratamento oral no SUS somou 18 infecções, estabelecendo uma taxa de incidência de 1,48 por 100 pessoas ao ano.
Aplicação bimestral substitui comprimido diário do cabotegravir
A tecnologia desenvolvida com o princípio ativo cabotegravir recebeu aprovação formal da Agência Nacional de Vigilância Sanitária em 2023. A profilaxia consiste em injeções intramusculares aplicadas com intervalo de dois meses, procedimento adotado após a administração de duas doses iniciais com espaçamento mensal. O método substitui o regime de ingestão contínua da pílula, dispensando o usuário da necessidade de administrar comprimidos todos os dias para manter o organismo protegido contra a proliferação viral.
A profilaxia pré-exposição por via oral permanece disponível gratuitamente nos serviços de saúde para qualquer cidadão sob risco acrescido de exposição ao vírus. Essa terapia convencional combina os antirretrovirais entricitabina e tenofovir e continuará sendo distribuída normalmente pelo SUS caso a nova alternativa injetável venha a ser incorporada. A PrEP atua exclusivamente para bloquear o estabelecimento do HIV no corpo humano após eventual contato sexual, não oferecendo barreira biológica contra outras infecções sexualmente transmissíveis, o que mantém a recomendação oficial de uso conjunto de preservativos e testagem diagnóstica regular.
A elaboração do estudo ImPrEP CAB Brasil envolveu uma cooperação multilateral estabelecida entre a Fiocruz, o Ministério da Saúde, a Organização Mundial da Saúde e a agência internacional Unitaid, contando também com a doação das remessas de fármacos efetuada pela empresa farmacêutica ViiV Healthcare. O ministro Alexandre Padilha afirmou que o governo vê com muita esperança as novas tecnologias de proteção prolongada, mas exige que elas sejam oferecidas, sobretudo aos sistemas nacionais de saúde, com preços adequados, sem valores estratosféricos.
Avaliação do cabotegravir na Conitec e próximos passos
Em 27 de julho de 2026, durante a realização da 26ª Conferência Internacional de Aids, sediada no município do Rio de Janeiro, o governo federal divulgou a consolidação de um entendimento prévio sobre os parâmetros de preço para a aquisição da fórmula. Com esse alinhamento comercial, o Ministério da Saúde formalizou em agosto de 2026 o pedido oficial de incorporação tecnológica junto à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde.
O órgão colegiado submeteu o tema a uma consulta pública que vigorou até os últimos dias de agosto. Como a comissão mantém um calendário ordinário de encontros a cada trinta dias, a previsão estabelecida pelo Ministério da Saúde é de que a deliberação dos conselheiros sobre a inclusão da PrEP injetável seja pautada nas sessões de outubro de 2026.
A data definitiva da sessão plenária em que a Conitec emitirá o parecer final sobre a incorporação do cabotegravir não foi divulgada pelo Ministério da Saúde. O custo monetário exato a ser desembolsado por dose em moeda nacional após o acordo de preços com a fabricante também permanece sob reserva das autoridades sanitárias federais.
