Doze entidades médicas cobram a proibição total de implantes hormonais manipulados no território nacional por meio de um documento encaminhado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O pedido oficial consta na Carta do Rio de Janeiro, apresentada às 11h30 desta quinta-feira (1), durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa, sediado na capital fluminense. Os médicos exigem a interrupção definitiva da manipulação, do comércio, da distribuição e da aplicação desses dispositivos, independentemente de a finalidade declarada ser clínica ou estética.
O manifesto das sociedades científicas alerta para os perigos decorrentes do uso dos produtos conhecidos como chips da beleza e afirma que a saúde dos pacientes está exposta a formulações sem testes adequados. As entidades destacam no documento que “prescrição individualizada não significa experimentação sem evidência e segurança”, ao contestarem as justificativas comumente apresentadas por clínicas privadas para manter a colocação de bastonetes subcutâneos sem respaldo técnico.
Riscos clínicos dos implantes hormonais manipulados e reações adversas
Os implantes sob questionamento contêm substâncias ativas como gestrinona, testosterona e estradiol produzidas de forma magistral em farmácias de manipulação. As entidades médicas apontam que esses produtos não possuem ensaios clínicos capazes de atestar a biodisponibilidade no organismo, a esterilidade microbiológica, a taxa uniforme de liberação hormonal ao longo do tempo ou a padronização entre lotes fabricados. Sem esses parâmetros laboratoriais básicos, a dosagem real absorvida pela corrente sanguínea torna-se imprevisível.
A gravidade do método reside também na via de administração sob a pele, que mantém a entrega constante de hormônios durante meses seguidos no tecido subcutâneo da paciente. Se houver manifestação de efeitos colaterais severos ou intoxicação hormonal, os médicos enfrentam barreiras operacionais graves para conter os danos, já que a remoção cirúrgica completa das cápsulas ou pellets frequentemente se revela inviável após a dispersão biológica do composto no organismo.
O endocrinologista Clayton Macedo, doutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), destacou as dificuldades enfrentadas pelas equipes hospitalares ao lidar com as reações dessas formulações. “Muitas dessas pacientes chegam internadas e não sabem exatamente o que foi implantado. E, diferentemente de outros tratamentos, não dá para simplesmente suspender — o hormônio continua sendo liberado no corpo. Em alguns casos, nem a retirada é possível”, afirmou o médico.
O uso indiscriminado de esteroides sintéticos como a gestrinona pode provocar quadros clínicos irreversíveis ou de difícil regressão. Pacientes relatam o surgimento precoce de acne severa, crescimento anormal de pelos pelo corpo, queda acentuada de cabelo, engrossamento permanente da voz e aumento do clitóris. As entidades alertam ainda para riscos sistêmicos graves a longo prazo, incluindo o desenvolvimento de complicações hepáticas, doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral (AVC), trombose e alterações estruturais nas mamas e no endométrio.
Valores cobrados por implantes hormonais superam custo inicial em até 6.000%
Além dos danos fisiológicos, a Carta do Rio de Janeiro expôs o modelo comercial construído ao redor dos dispositivos, caracterizado pela produção em larga escala, criação de estoques, treinamento comercial de profissionais e ampla publicidade em redes sociais. Esse ecossistema foi detalhado em apurações que identificaram margens brutas exorbitantes obtidas por consultórios privados que revendem os bastonetes hormonais manipulados sob alegações terapêuticas para o climatério ou para a endometriose.
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- Custo aproximado de aquisição em farmácias magistrais: R$ 200 por unidade manipulada
- Valores cobrados diretamente de pacientes em clínicas médicas: entre R$ 4 mil e R$ 12 mil
- Margem bruta de remuneração constatada na revenda dos dispositivos: até 6.000%
- Substâncias mais frequentes nas fórmulas sem registro: gestrinona, testosterona e estradiol
Histórico de decisões da Anvisa sobre implantes entre 2024 e 2026
O embate entre a comunidade médica e o setor de manipulação farmacêutica tem marcos regulatórios específicos nos últimos dois anos. Em outubro de 2024, a Anvisa chegou a determinar a suspensão total da manipulação, comercialização, propaganda e uso de todos os implantes hormonais manipulados no país, após receber notificações contínuas de complicações médicas. No mês seguinte, em novembro de 2024, a diretoria da agência recuou após recursos apresentados pelo setor magistral e liberou exceções para manipulações individualizadas com justificativa clínica, vetando apenas o uso estético ou anabolizante.
Essa brecha na regulamentação permitiu que farmácias e clínicas continuassem a produzir e aplicar implantes anabolizantes com a indicação formal de tratamento de sintomas da menopausa, endometriose e síndrome dos ovários policísticos, contornando a intenção da proibição original. Por essa razão, as 12 entidades médicas decidiram redigir a nova carta cobrando a interdição total do modelo, solicitando expressamente o “fortalecimento da fiscalização, da farmacovigilância, da notificação obrigatória de eventos adversos e da responsabilização das cadeias comerciais envolvidas”.
- Outubro de 2024: Anvisa determina a suspensão total de manipulação, comércio e publicidade de implantes
- Novembro de 2024: agência revê veto irrestrito e cria exceção para prescrições individualizadas de caráter clínico
- Maio de 2026: investigação jornalística aponta a persistência da venda com lucros de 6.000% por meio de brechas da regra
- 30 de setembro de 2026: início oficial do 20º Congresso Mundial de Menopausa no Rio de Janeiro
- 1 de outubro de 2026: lançamento público da Carta do Rio de Janeiro com a exigência de veto total
- 3 de outubro de 2026: data prevista para o término das atividades do congresso médico internacional
Terapias hormonais industriais continuam respaldadas por sociedades médicas
Os médicos signatários da Carta do Rio de Janeiro reforçaram que o pedido de interdição contra produtos manipulados não atinge a terapia de reposição hormonal tradicional. A reposição segue recomendada e segura quando realizada por meio de medicamentos industrializados devidamente registrados na Anvisa, cuja farmacocinética e padrões de segurança foram testados em estudos científicos formais. Esses produtos são comercializados em farmácias convencionais sob a forma de comprimidos orais, adesivos transdérmicos, géis de absorção cutânea e formulações de uso vaginal, apresentações que permitem o ajuste fino da dose diária ou a interrupção imediata da medicação caso ocorram efeitos adversos.
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A solicitação de fiscalização rigorosa não se limitou à Anvisa. O documento foi formalmente endereçado ao Ministério da Saúde, ao Conselho Federal de Medicina (CFM), aos Conselhos Regionais de Medicina e de Farmácia, ao Ministério Público, às Defensorias Públicas, aos órgãos de defesa do consumidor (Procons) e ao Congresso Nacional, exigindo a cooperação mútua dos órgãos públicos contra o comércio irregular.
A Anvisa ainda não emitiu uma resposta oficial nem publicou deliberação de sua diretoria colegiada a respeito das demandas apresentadas na Carta do Rio de Janeiro. A programação do 20º Congresso Mundial de Menopausa segue até sábado, 3 de outubro de 2026, data em que as entidades pretendem consolidar os relatórios técnicos apresentados nas mesas de debate.
