Telescópio Hubble detecta decágono inédito em formação no polo sul de Saturno

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onda de dez lados circundando o polo sul de Saturno - Divulgação/Nasa Foto: onda de dez lados circundando o polo sul de Saturno - Divulgação/Nasa

Pesquisadores identificaram em Saturno uma inédita onda atmosférica com formato regular de decágono ao redor do polo sul do planeta. A estrutura de dez lados apresenta perímetro total de aproximadamente 167,8 mil quilômetros e dá mostras de estar em pleno processo de formação diante das observações científicas.

O achado foi detalhado em estudo publicado em 2 de setembro de 2026 na revista Science Advances, a partir de registros obtidos pelo Telescópio Espacial Hubble e por observatórios terrestres. De acordo com a análise liderada por Agustín Sánchez-Lavega, pesquisador da Universidade do País Basco, cada um dos dez lados da figura geométrica mede cerca de 16,8 mil quilômetros, dimensão que supera individualmente o diâmetro do planeta Terra.

Saturno e as medidas da nova estrutura decagonal

Diferente de um vórtice isolado ou de nuvens comuns, a formação corresponde a uma oscilação ondulatória profunda dentro de uma corrente de jato de ventos intensos no hemisfério austral saturniano. Os registros reunidos pela equipe de astrônomos e agências espaciais indicam que a onda possui características físicas singulares medidas de maneira direta:

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  • Perímetro total da formação: cerca de 167,8 mil quilômetros ao redor do polo sul
  • Extensão de cada lado: aproximadamente 16,8 mil quilômetros (16.782 quilômetros)
  • Localização geográfica: latitude centrada em 63 graus sul (63°S)
  • Velocidade dos ventos locais: corrente de jato a cerca de 400 km/h (116 metros por segundo)
  • Velocidade de deriva da onda: deslocamento a 2,5 metros por segundo
  • Ciclo de rotação completo: estimativa de 800 dias terrestres para uma volta inteira

Telescópio Hubble confirma evolução da onda em Saturno

Os primeiros indícios da presença dessa oscilação poligonal surgiram em 2024, quando dados da rede Planetary Virtual Observatory Laboratory começaram a registrar distorções visuais na região austral. Os astrônomos amadores Trevor Barry e Jean-Paul Oger, coautores do artigo científico, detectaram as primeiras faixas onduladas e discretas, o que levou os pesquisadores profissionais a examinar os arquivos do programa Outer Planet Atmospheres Legacy, conduzido com o Telescópio Espacial Hubble sob coordenação do Goddard Space Flight Center da NASA, em Greenbelt, nos Estados Unidos.

A investigação minuciosa em imagens anteriores revelou que o desenho já ensaiava seus primeiros contornos em dados captados pelo Hubble em outubro de 2023. A confirmação definitiva da geometria com dez vértices bem delineados ocorreu após a captura de fotografias em alta resolução realizadas pela câmera WFC3 do telescópio espacial em 29 de agosto de 2025. Esse acompanhamento temporal permitiu aos cientistas atestar que a estrutura se fortaleceu de maneira contínua ao longo de quase dois anos.

Em declaração oficial sobre o achado, a cientista sênior do Goddard Space Flight Center e investigadora principal do programa, Amy Simon, destacou a raridade do evento. “Nunca vimos nada parecido no hemisfério sul de Saturno. O hexágono do norte está lá toda vez que olhamos há mais de 40 anos. Essa estrutura é diferente: ela parece estar se fortalecendo, o que nos dá a rara oportunidade de assistir ao desenvolvimento de um padrão atmosférico gigante”, afirmou Simon, em tradução livre.

Comparação entre os polos norte e sul de Saturno

Até a confirmação do decágono austral, o polo norte de Saturno detinha a exclusividade conhecida de abrigar uma formação poligonal duradoura no planeta, um hexágono com cerca de 32 mil quilômetros de largura que intriga astrônomos desde a passagem das sondas Voyager, entre 1980 e 1981. Durante décadas, os cientistas procuraram uma estrutura correspondente no lado oposto do planeta sem encontrar vestígios. A sonda Cassini, que orbitou Saturno de maneira contínua entre 2004 e 2017, nunca registrou qualquer figura poligonal similar no polo sul do planeta.

O autor principal do estudo apontou que a busca vinha sendo mantida por décadas justamente pela simetria geral do gigante gasoso. Agustín Sánchez-Lavega explicou que, diante da simetria de Saturno em seu sistema de correntes de jato norte-sul, os pesquisadores procuravam uma contraparte para o hexágono norte no polo sul em imagens do Hubble desde 1990. Segundo o pesquisador, simulações de correntes sugerem que a oscilação surgiu pelo aprisionamento de uma onda ondulante na corrente de jato que circula o polo.

A visibilidade do hemisfério meridional facilitou a detecção recente porque o polo sul de Saturno esteve oculto aos telescópios terrestres entre 2012 e 2023, devido à inclinação gradual do eixo orbital do planeta. Com a mudança das estações e a nova inclinação do disco planetário em relação à Terra, a área voltou a ser exposta aos instrumentos astronômicos, viabilizando o monitoramento detalhado da atmosfera polar.

Próximos passos e pontos em aberto sobre a atmosfera de Saturno

A constatação de que a formação não é perfeitamente homogênea em brilho reforça a ideia de que o decágono se encontra em transformação dinâmica. Enquanto os lados do hexágono norte exibem níveis semelhantes de luminosidade há quatro décadas, os vértices da onda sul apresentam variações marcantes de contraste, o que aponta para diferentes espessuras ou altitudes nas nuvens que compõem o sistema tridimensional.

O pesquisador Michael H. Wong, do Laboratório de Ciências Espaciais da Universidade da Califórnia em Berkeley, avaliou o peso das observações sistemáticas para o resultado. “Alguns anos atrás, essa feição não estava lá. Isso demonstra a importância da observação regular dos planetas exteriores”, explicou Wong, em tradução livre.

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Apesar da comprovação da estrutura geométrica, questões centrais sobre o fenômeno continuam sem resposta definitiva. Ainda não se sabe se o decágono persistirá estável ao longo das próximas décadas como ocorre no norte ou se acabará se desfazendo com o avanço da radiação solar, cujo pico de incidência na latitude de 60 graus sul está previsto para acontecer em 2032. Da mesma forma, a composição química exata dos aerossóis responsáveis pelo tom azulado visível na onda atmosférica permanece desconhecida pelos pesquisadores.

Os astrônomos manterão a rotina de registros com o Telescópio Espacial Hubble para verificar se o decágono assumirá um comportamento permanente ou passageiro conforme a incidência de luz solar se intensificar na região.

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