Araponga e seriema superam 120 decibéis e estão entre as aves mais barulhentas do mundo

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seriema - Diego Grandi/Shutterstock.com Foto: seriema - Diego Grandi/Shutterstock.com

A araponga-de-garganta-nua e a seriema produzem cantos que superam 120 decibéis e figuram entre as emissões vocais mais intensas já registradas na fauna mundial, aponta um estudo publicado no periódico científico Evolution. O volume gerado pelas duas aves brasileiras se equipara ao barulho de uma britadeira e ultrapassa os limites sonoros observados em quase toda a literatura ornitológica internacional.

O artigo científico, intitulado “Evolutionary drivers of vocal amplitude in birds”, foi publicado em 29 de setembro de 2026 pelos biólogos João C. T. Menezes e Jeffrey Podos, da Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos. A investigação avaliou a amplitude vocal de 123 espécies de aves distribuídas pelo Brasil e pelo território norte-americano, das quais 113 nunca tinham passado por mensurações de intensidade acústica em levantamentos científicos.

“Podemos dizer com segurança que as arapongas (da Amazônia e da Mata Atlântica) e a seriema emitem os cantos mais altos já medidos”, declarou João C. T. Menezes, biólogo evolucionista brasileiro egresso do programa de pós-graduação da instituição e autor principal do trabalho. O pesquisador também associou a força física das emissões sonoras aos ruídos da atividade humana: “A comparação mais próxima em sons do dia a dia seria o de uma britadeira”.

Dados do levantamento acústico da UMass Amherst

Seriema - Judson Castro/Shutterstock.com
Foto: Seriema – Judson Castro/Shutterstock.com

A amostragem de dados revelou uma diferença considerável entre as espécies de menor e maior potência sonora nas florestas e campos analisados. Entre os limites catalogados pelos equipamentos de precisão dos pesquisadores, destacam-se os seguintes parâmetros:

  • Total de espécies avaliadas: 123 aves monitoradas no Brasil e nos Estados Unidos.
  • Espécies sem registro anterior: 113 aves tiveram a amplitude sonora calculada pela primeira vez.
  • Intensidade das espécies mais altas: cantos com picos que ultrapassam 120 decibéis na araponga-de-garganta-nua e na seriema.
  • Média individual máxima da seriema: marca de 120,9 decibéis em LAeq registrada pela espécie Cariama cristata.
  • Extremo inferior da amostragem: canto de beija-flor medido em 64 decibéis, similar ao ruído de uma conversa humana normal.
  • Variação total no levantamento: intervalo de 58 decibéis entre o pássaro mais silencioso e os mais ruidosos da pesquisa.

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O que explica a potência sonora da araponga e da seriema?

A pesquisa constatou que as dimensões anatômicas das aves fornecem a resposta direta para a capacidade de atingir volumes ensurdecedores. O tamanho corporal associado à largura da abertura do bico despontou como o conjunto de variáveis determinantes para a projeção das ondas sonoras. Pássaros dotados de bicos amplos conseguem projetar o som com maior rendimento físico, em um efeito mecânico comparável à campânula alargada de instrumentos de sopro como os trompetes, somado a musculaturas robustas aptas a comprimir volumes expressivos de ar.

“Em geral, aves maiores e com uma abertura de bico mais larga tendem a cantar mais alto. Isso fica bem ilustrado pelas espécies com cantos mais altos que registramos: a seriema é a maior espécie na nossa amostra, enquanto as arapongas têm aberturas de bico especialmente largas para seu tamanho”, explicou João C. T. Menezes.

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Por outro lado, o levantamento derrubou premissas teóricas prévias que tentavam atribuir o volume extremo a pressões estritamente ambientais ou sociais. Os dados demonstraram que hipóteses ecológicas frequentes na biologia, como a densidade da vegetação do habitat, a capacidade de voo dos espécimes e os sistemas de acasalamento baseados em poligamia, não exercem influência generalizada sobre a amplitude vocal das aves analisadas.

Técnicas de medição a laser em áreas naturais

Capturar espécimes para ensaios acústicos em laboratório representava um entrave operacional para um inventário amplo de espécies em dois países. Para contornar essa dificuldade e registrar os animais livres em seus habitats nativos, os biólogos recorreram ao uso conjunto de telêmetros a laser e medidores portáteis de pressão sonora calibrados. O sistema simultâneo calculou com precisão a distância exata entre o microfone e a ave vocalizadora no momento da emissão, permitindo compensar a atenuação física natural que o ar impõe ao deslocamento das ondas sonoras.

Araponga-da-amazônia estabeleceu recorde de 125 decibéis em 2019

O novo levantamento amplia os registros históricos obtidos pelo mesmo grupo de pesquisa da instituição norte-americana. Em 21 de outubro de 2019, um trabalho liderado pelo professor Jeffrey Podos identificou que a araponga-da-amazônia (Procnias albus), conhecida popularmente como araponga-branca, atingia até 125 decibéis durante suas exibições reprodutivas de corte, desempenho formalizado como recorde mundial no Guinness World Records.

As duas espécies recém-mensuradas ocupam ecossistemas brasileiros distintos e se somam à ave amazônica no grupo das vocalizações extremas. Enquanto a araponga-de-garganta-nua (Procnias nudicollis) vive restrita a trechos remanescentes do bioma da Mata Atlântica, a seriema (Cariama cristata) é uma ave terrestre nativa de formações campestres abertas, comum em paisagens do Cerrado e da Caatinga. O estudo aponta que as duas passam a figurar como novas candidatas ao topo da lista global de amplitude ao lado da araponga-da-amazônia, dependendo do critério acústico adotado.

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Custo biológico das vocalizações permanece em estudo

Apesar das constatações morfológicas obtidas no levantamento de campo, a vantagem evolutiva exata e a relação de custo-benefício de produzir cantos de tamanha intensidade sonora permanecem sem confirmação definitiva por parte dos cientistas. Se a amplitude elevada amplia o alcance geográfico para a atração reprodutiva de parceiros, o ruído estridente simultaneamente expõe o indivíduo à detecção visual e auditiva por predadores naturais.

A equipe coordenada por João C. T. Menezes e Jeffrey Podos pretende agora direcionar os trabalhos futuros para identificar os custos biológicos diretos associados a esse esforço e elucidar os mecanismos anatômicos finos que viabilizam tamanha irradiação acústica.

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