O cabotegravir injetável de ação prolongada alcançou 90,8% de cobertura protetiva contra o HIV em condições reais de atendimento no Sistema Único de Saúde. O resultado integra o estudo multicêntrico ImPrEP CAB Brasil, coordenado pelo Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, vinculado à Fundação Oswaldo Cruz, que registrou uma incidência de infecção substancialmente menor entre os voluntários que utilizaram a fórmula injetável em comparação aos pacientes em uso dos comprimidos diários convencionais.
Desenvolvida em parceria com o Ministério da Saúde, a Organização Mundial da Saúde e a Unitaid, a pesquisa teve as conclusões científicas publicadas em 24 de setembro de 2026 no periódico especializado The Lancet HIV. O levantamento avaliou a integração da Profilaxia Pré-Exposição de longa duração na rotina pública brasileira, acompanhando homens cisgênero que fazem sexo com homens, indivíduos não binários e pessoas transgênero com idades de 18 a 30 anos.
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Estudo da Fiocruz mede taxas de infecção e cobertura preventiva
A taxa de incidência do HIV entre os 1.201 participantes acompanhados com o cabotegravir injetável ficou em 0,20 caso por 100 pessoas ao ano, totalizando 3 novas infecções durante o período observado. Em contrapartida, o grupo comparador atendido na rotina habitual do sistema público com a profilaxia oral obteve 1,48 caso por 100 pessoas ao ano, somando 18 infecções registradas. Além da menor taxa de contaminação, a intervenção injetável assegurou retorno pontual dos pacientes para a aplicação intramuscular bimestral em 92% dos agendamentos previstos.
Na divisão dos grupos avaliados pela instituição científica, o tempo total com barreira farmacológica ativa contra o vírus variou amplamente de acordo com a via de administração escolhida pelos voluntários atendidos nos centros de saúde participantes:
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- Grupo com cabotegravir injetável: permaneceu protegido contra o vírus em 90,8% dos dias de acompanhamento clínico.
- Grupo voluntário em profilaxia oral diária: obteve proteção farmacológica em 47,3% dos dias monitorados pela pesquisa.
- Grupo da rotina do sistema público em profilaxia oral: registrou cobertura preventiva em 35,5% dos dias de acompanhamento.
Barreiras sociais e desafios de adesão ao cabotegravir injetável
Embora a aceitação da injeção intramuscular tenha sido ampla entre as populações prioritárias, os dados do estudo apontaram a permanência de obstáculos sociais determinantes na continuidade da assistência à saúde. Voluntários pretos, pardos, indígenas ou asiáticos apresentaram risco 60% maior de descontinuidade do acompanhamento ambulatorial quando comparados a pessoas brancas, reflexo de episódios de estigma e dificuldades estruturais enfrentadas durante o atendimento presencial.
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O nível de escolaridade formal e a saúde mental dos participantes também exerceram influência direta na manutenção do calendário preventivo estabelecido pelos serviços de saúde. Indivíduos com ensino médio incompleto tiveram probabilidade superior a 80% de abandono da profilaxia em relação aos voluntários portadores de diploma de ensino superior. Paralelamente, quadros diagnosticados de depressão grave figuraram entre os fatores determinantes para a perda de seguimento médico ao longo dos meses de observação.
Beatriz Grinsztejn, co-pesquisadora principal do ImPrEP e chefe do Laboratório de Pesquisa Clínica em DST e Aids do INI/Fiocruz, enfatizou as exigências complementares para a eficácia das políticas públicas ao analisar os números do levantamento: “A PrEP comprovou ser uma importante tecnologia de prevenção, especialmente junto a populações como HSH, travestis e mulheres trans na América Latina. Os determinantes sociais e estruturais de risco ao HIV precisam ser abordados para a plena realização dos benefícios da profilaxia.”
Histórico regulatório do cabotegravir e diretrizes no Brasil
A formulação de longa ação avaliada pelos pesquisadores funciona como inibidor de transferência da fita da integrase do vírus. No histórico da regulação sanitária brasileira, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária concedeu o registro comercial do cabotegravir em 1 de novembro de 2023, sob as marcas Vocabria e Apretude, liberando a molécula para uso profilático e terapêutico em território nacional. O esquema prevê duas injeções intramusculares iniciais com intervalo de um mês, seguidas por doses regulares a cada dois meses.
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O formato tradicional ofertado de maneira contínua na rede pública de saúde brasileira apoia-se exclusivamente em comprimidos orais compostos pela combinação de tenofovir e entricitabina. Essa profilaxia é distribuída gratuitamente nas modalidades de ingestão diária ou sob demanda antes de relações sexuais, formato em que o esquecimento na tomada das pílulas permanece como o principal obstáculo para a manutenção da eficácia protetiva da intervenção.
Etapas de implantação da nova profilaxia nos serviços de saúde
A transição da tecnologia experimental para a oferta ampla na rede pública depende de trâmites formais conduzidos pela gestão federal de saúde. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS avalia conjuntamente com o Ministério da Saúde a viabilidade da inclusão da PrEP injetável no catálogo do sistema público para públicos vulneráveis.
- 1 de novembro de 2023: concessão do registro oficial do cabotegravir pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária para profilaxia e tratamento.
- 24 de setembro de 2026: veiculação dos dados do estudo multicêntrico no periódico médico The Lancet HIV.
- 25 de setembro de 2026: apresentação institucional detalhada dos resultados da pesquisa realizada pelo INI/Fiocruz.
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O prazo definitivo para a conclusão do processo de incorporação do cabotegravir injetável pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS ainda não foi estabelecido. A distribuição universal das ampolas nas unidades básicas e centros de referência depende do encerramento das negociações de custos entre o Ministério da Saúde e os fabricantes, além da formulação do cronograma logístico de entrega.
