O medicamento daraxonrasib tem seus mecanismos de resistencia biologica mapeados por cientistas apos pacientes com cancer de pancreas avancado apresentarem progressao da doenca. A investigacao detalhou como as celulas tumorais multiplicam copias de genes para anular a acao da terapia-alvo, processo observado em casos clinicos recentes como o do ex-senador norte-americano Ben Sasse.
Um estudo conduzido por pesquisadores do Dana-Farber Cancer Institute e publicado na revista Nature Medicine com 44 pacientes revelou que 59% dos individuos desenvolveram alteracoes geneticas ligadas a resistencia na via de sinalizacao RAS. O mecanismo mais frequente, detectado em 36% dos participantes analisados, consistiu na amplificacao do gene KRAS mutado, situacao em que a celula doente eleva a quantidade da proteina para superar o bloqueio imposto pela medicacao.
Ben Sasse enfrenta avanco tumoral apos uso do daraxonrasib
Diagnosticado com adenocarcinoma de pancreas metastatico em estagio 4 em dezembro de 2025, o ex-senador dos Estados Unidos por Nebraska e ex-presidente da Universidade da Florida, Ben Sasse, relatou mudancas no quadro clinico. No inicio do tratamento, o ex-parlamentar registrou uma reducao de 76% no volume das lesoes tumorais ao participar de ensaio clinico com o comprimido.
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Em 22 de setembro de 2026, Ben Sasse divulgou que precisou passar por uma intervencao cirurgica no figado para a retirada de tecidos afetados, ocasiao em que a equipe medica identificou a perda de sensibilidade ao remedio. “Coisa boa: uma grande cirurgia no figado na semana passada limpou com sucesso uma quantidade de cancer. Coisa ruim: testes nos tumores mostram que eles estavam mais avancados do que pensavamos — o que significa que tumores em constante mutacao desenvolveram alguns truques de resistencia ao nosso protocolo anterior de tratamento”, afirmou o ex-senador em publicacao na rede social X, em traducao livre.
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Diante do quadro de escape celular, os medicos direcionaram Ben Sasse para um protocolo de quimioterapia intensiva para conter as celulas remanescentes da doenca metastatica.
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Pesquisa genica revela 17 copias do gene KRAS em celulas resistentes
Ao analisar o DNA tumoral circulante no sangue de pacientes antes e depois do uso do medicamento, os pesquisadores constataram que o daraxonrasib atua como uma cola molecular. A substancia forma um complexo trimerico ao se conectar a ciclofilina A intracelular e a proteina RAS mutada, interrompendo as mensagens quimicas que ordenam a divisao descontrolada do tecido tumoral.
Diferentemente de inibidores anteriores direcionados a mutacao KRAS G12C, nos quais o tumor criava mutacoes pontuais que alteravam a anatomia do encaixe quimico, o daraxonrasib manteve a ligacao com a proteina preservada. As celulas cancerosas driblaram a barreira terapeutica aumentando a expressao numerica do proprio alvo molecular ou ativando rotas biologicas paralelas, como as vias RTK e MAPK.
Em um dos casos descritos na Nature Medicine, a biopsia hepatica de um paciente resistente revelou a presenca de 17 copias do gene KRAS mutado, quando a estrutura celular padrao abriga apenas duas copias normais do gene. O oncologista Stephen Stefani, da Americas Health Foundation, compara o processo ao surgimento repentino de varios interruptores identicos dentro da celula, fazendo com que a dosagem diaria administrada deixe de cobrir a totalidade dos alvos em atividade.
O medico oncologista clinico Tiago Cordeiro Felismino, do Centro de Referencia de Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center, explica que o organismo dispoe de centenas de circuitos de comunicacao interna. Embora o circuito dependente de KRAS esteja entre os mais relevantes na biologia tumoral pancreatica, ele nao atua de maneira isolada, o que permite o recrutamento de desvios metabolicos alternativos durante a pressao do tratamento farmacologico.
Ensaios clinicos medem sobrevida com daraxonrasib
A Food and Drug Administration (FDA), agencia reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, concedeu aprovacao formal ao daraxonrasib em 26 de agosto de 2026 sob o nome comercial Rasonque, desenvolvido pela farmaceutica Revolution Medicines. A indicacao alcanca pacientes adultos diagnosticados com adenocarcinoma ductal de pancreas metastatico previamente tratados.
Mais de 90% dos tumores ductais pancreaticos carregam mutacoes no gene KRAS, considerado por decadas um componente inatingivel pela ausencia de cavidades estruturais profundas na superficie proteica. A aprovacao teve como base os dados apresentados no congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clinica (ASCO), realizado em Chicago.
- 13,2 meses foi a sobrevida global mediana observada nos pacientes tratados com daraxonrasib no ensaio clinico de fase 3 RASolute 302.
- 6,7 meses foi a sobrevida global mediana registrada no braco de pacientes submetidos a quimioterapia padrao no mesmo estudo.
- 7,3 meses consistiu no tempo mediano livre de progressao da doenca com o uso do comprimido oral.
- 3,5 meses representou o periodo mediano livre de progressao verificado entre os pacientes que receberam o regime de quimioterapia.
- 59% dos participantes exibiram alteracoes geneticas na via de sinalizacao RAS no instante em que o tumor voltou a progredir.
- 36% dos pacientes desenvolveram especificamente a amplificacao numerica de copias do gene KRAS mutado durante o tratamento.
Durante a apresentacao plenaria dos dados da fase 3 na ASCO, a oncologista Rachna Shroff, da Universidade do Arizona, relatou o impacto dos resultados sobre o meio medico: “Tendo tratado cancer de pancreas por 16 anos, eu cheguei a chorar”. O presidente da fundacao filantropica Break Through Cancer e professor de biologia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Tyler Jacks, pontuou que “todos acreditamos que o daraxonrasib e outros inibidores de KRAS sao passos iniciais importantes para tratar o cancer de pancreas e, um dia, alcancar curas”.
Biopsias seriadas avaliam associacao do daraxonrasib a quimioterapia
Resultados preliminares apresentados pelo oncologista Andrew J. Aguirre, do Dana-Farber Cancer Institute, na conferencia tematica da Associacao Americana para Pesquisa do Cancer (AACR) em San Diego, trouxeram informacoes sobre as etapas iniciais de acao do farmaco. A analise acompanhou biopsias seriadas coletadas em tres momentos distintos de 66 pacientes.
Os exames indicaram que cerca de metade das celulas tumorais morreu apos duas semanas de administracao do daraxonrasib. A populacao residual de celulas cancerosas que sobreviveu ao primeiro impacto exibiu caracteristicas morfologicas menos agressivas e maior vulnerabilidade biologica a agentes quimioterapicos convencionais, sinalizando potenciais vantagens na associacao de tecnicas terapeuticas.
A investigacao genica do estudo da Nature Medicine demonstrou ainda que cerca de 40% dos pacientes nao apresentaram mutacoes geneticas detectaveis em testes de sangue no momento da progressao. Pesquisadores avaliam que essa fracao de escapes tumorais pode decorrer de adaptacoes celulares funcionais que nao alteram a sequencia direta do DNA ou de mutacoes restritas a tecidos especificos que o exame sanguineo nao conseguiu coletar.
Os mecanismos moleculares exatos presentes nesse grupo de 40% de pacientes sem mutacao evidente continuam sob investigacao laboratorial. A eficacia clinica em humanos da associacao do daraxonrasib com inibidores de receptores de tirosina quinase (RTK) ou conjugados anticorpo-medicamento tambem permanece pendente de comprovacao.
Para determinar o impacto do uso precoce da substancia, pesquisadores coordenam o ensaio clinico global de fase 3 RASolute 303. O protocolo planeja recrutar 900 pacientes com cancer de pancreas metastatico nao tratado para avaliar se o emprego imediato do daraxonrasib isolado ou em conjunto com a quimioterapia padrao amplia a duracao do controle da doenca em primeira linha.

