Animal Antártico habita ‘mini-vulcões’ a 1 km de profundidade e encerra mistério de um século

krill foi revelada após pesquisas com o ROV SuBastian - Divulgação/ Luján Agusti/National Geographic

krill foi revelada após pesquisas com o ROV SuBastian - Divulgação/ Luján Agusti/National Geographic

O krill antártico fêmea em fase reprodutiva habita e se alimenta em fontes hidrotermais a cerca de 1.100 metros de profundidade no Oceano Antártico. A descoberta derruba a premissa científica mantida por mais de cem anos de que a espécie Euphausia superba dependia exclusivamente das camadas superficiais iluminadas pelo sol para viver e amadurecer seus ovos.

Pesquisadores recolheram quatro espécimes adultas, todas copuladas e carregando embriões, no registro mais profundo de coleta reprodutiva da história desse crustáceo. O achado ocorreu durante uma expedição realizada a bordo do navio oceanográfico R/V Falkor (too), em uma iniciativa conjunta conduzida entre o Schmidt Ocean Institute e a National Geographic Society.

“Esta descoberta reforça a importância da exploração das profundezas marinhas para compreendermos o maior bioma do nosso planeta e as criaturas que nele habitam”, afirmou Ian Miller, diretor de ciência e inovação da National Geographic Society.

Dados da expedição científica no leito do Oceano Antártico

Os trabalhos de campo mobilizaram equipamentos de alta precisão no extremo sul do planeta para documentar as atividades biológicas registradas nas fendas vulcânicas submersas.

  • Data da publicação científica: 15 de setembro de 2026 na revista Communications Biology
  • Local de coleta dos animais: Hook Ridge, no estreito de Bransfield e na caldeira Quest, no Oceano Antártico
  • Profundidade da amostragem: 1.100 metros abaixo da superfície oceânica
  • Equipamento utilizado: veículo submarino operado remotamente ROV SuBastian
  • Navio de pesquisa: R/V Falkor (too)
Foto: Análises laboratoriais, cientista, pesquisa – Parilov/Shutterstock.com

Pesquisa de Kim S. Bernard comprova nutrição por quimiossíntese

O estudo formal intitulado “Deep Sea hydrothermal vent habitats support gravid Antarctic krill” foi liderado pela oceanógrafa biológica Kim S. Bernard, pesquisadora da Universidade Estadual do Oregon e Explorer da National Geographic. A investigação também reuniu a ecologista marinha Rachel Kaplan e o ecologista bentônico Andrew Thurber, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara.

A identificação começou quando Kim S. Bernard avistou animais se movimentando entre as fissuras da crosta oceânica, nadando e se alimentando ao redor das emanações quentes. Até então, o consenso estabelecido pela biologia marinha apontava que o krill se concentrava estritamente na faixa epipelágica, a cerca de 300 metros da lâmpada da superfície, consumindo apenas algas microscópicas que realizam fotossíntese.

Exames laboratoriais detalhados no conteúdo estomacal e análises isotópicas das fêmeas capturadas a 1.100 metros revelaram que os animais consumiram micro-organismos quimiossintéticos. Esses micróbios produzem carbono orgânico utilizando enxofre e compostos minerais exalados pelos respiradouros termais, funcionando como base alimentar independente da luz do sol.

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As análises químicas identificaram a presença de elementos indispensáveis para a maturação dos ovos e reprodução dos animais, como ferro, manganês e zinco. Os dados demonstraram ainda a absorção de altos teores de metais pesados tóxicos, entre eles chumbo e cádmio, substâncias expelidas em grandes volumes pelas emanações do solo submarino.

Pressão pesqueira sobre o krill e o reflexo na costa brasileira

O krill representa a principal engrenagem da teia trófica antártica e sustenta peixes, aves e mamíferos marinhos migratórios. A espécie enfrenta a pressão de pescarias industriais autorizadas pela Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos, conhecida pela sigla internacional CCAMLR, que estabelece um teto anual permitido de 620.000 toneladas.

Em 2024, expirou uma cláusula regulatória da CCAMLR que distribuía geograficamente os limites de captura, abrindo margem para a concentração da atividade de frotas pesqueiras nas proximidades da península Antártica. A retirada intensiva desse crustáceo de cerca de um centímetro gera alertas devido aos desdobramentos sobre populações de baleias que realizam viagens de 4 mil km até o litoral brasileiro para procriar.

No Brasil, a temporada reprodutiva de cetáceos em águas costeiras mais quentes movimenta um mercado econômico relevante. O turismo de observação de baleias gera uma movimentação financeira estimada em R$ 140 milhões por ano no litoral do país, atividade que depende diretamente da abundância de presas na Antártica antes do deslocamento migratório.

A mobilização em torno da conservação da espécie gerou a campanha internacional Antarctic Avengers, apoiada por cientistas e personalidades como o ator britânico Benedict Cumberbatch, que pressiona governos contra o uso de krill na indústria de cosméticos e em rações para a aquicultura. Um representante do governo brasileiro que acompanhou as discussões da comissão internacional expôs a posição do país.

“O Brasil apoia a criação da Área Marinha Protegida e se preocupa com a concentração espacial da captura do krill, mas não se opõe ao aumento do limite da captura do animal, desde que a sustentabilidade dessa atividade esteja cientificamente respaldada e desde que haja mecanismos consistentes de monitoramento e proteção ambiental instituídos”, afirmou o representante governamental.

Perguntas em aberto sobre a reprodução do krill nas profundezas

Apesar da comprovação de que fêmeas férteis habitam e se alimentam no leito rochoso aquecido pelas fontes, os pesquisadores ainda não confirmaram se a desova ocorre nas próprias fontes hidrotermais a 1.100 metros de profundidade ou se os animais sobem até as camadas mais rasas para liberar os ovos.

Outro ponto sob investigação envolve o destino toxicológico dos metais pesados encontrados nos tecidos das espécimes analisadas. A equipe científica ainda não determinou se os altos teores de chumbo e cádmio afetam a viabilidade dos embriões e a saúde dos predadores que se alimentam desse crustáceo no Oceano Antártico.

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