Câncer de mama e quimioterapia exigem cuidados odontológicos antes do início dos ciclos

Câncer de Mama Foto: Câncer de Mama - Foto: Oasishifi/Shutterstock.com

O tratamento por quimioterapia contra o câncer de mama provoca alterações diretas no fluxo salivar e na integridade gengival das pacientes, o que eleva a vulnerabilidade a infecções e dores durante as aplicações. Diante desse impacto clínico, especialistas alertaram nesta terça-feira (6), durante as ações do Outubro Rosa em São Paulo, que o acompanhamento odontológico preventivo precisa começar antes da primeira sessão de medicamentos.

A orientação tem como base o risco aumentado de complicações periodontais quando a imunidade cai em decorrência dos fármacos oncológicos. “Quanto mais cedo identificarmos problemas como inflamação gengival, cáries ou infecções, maior a possibilidade de trabalhar preventivamente e acompanhar essas alterações ao longo do tratamento”, disse a cirurgiã-dentista Luisa Casado.

Estudos clínicos apontam queda salivar e perda de paladar a partir do terceiro ciclo

Pesquisas recentes documentaram a progressão dos danos bucais causados pelas substâncias utilizadas no combate aos tumores mamários. Um estudo publicado no periódico International Journal of Dental Hygiene em 1 de setembro de 2026 acompanhou 40 mulheres durante 24 semanas, divididas entre 20 pacientes com câncer e gengivite e 20 participantes sem a neoplasia que também apresentavam inflamação na gengiva. A investigação demonstrou que as mulheres submetidas ao tratamento quimioterápico enfrentaram severa dificuldade para controlar a inflamação periodontal e registraram redução contínua do volume de saliva nas medições de 6, 12 e 24 semanas.

câncer de mama
Foto: câncer de mama – Yuganov Konstantin/Shutterstock.com

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Em outra frente científica divulgada em 2026 pelo Journal of Clinical and Experimental Dentistry, pesquisadores monitoraram 68 mulheres submetidas ao protocolo quimioterápico AC-T, composto pela administração de doxorrubicina, ciclofosfamida e taxanos. A análise identificou piora do quadro periodontal, perda acentuada do fluxo de saliva e alteração perceptível do paladar logo a partir do terceiro ciclo da terapia. Com a diminuição do líquido salivar, a cavidade oral perde defesas naturais essenciais, acelerando processos de desmineralização dos dentes e facilitando o avanço de cáries.

“Se a paciente inicia a quimioterapia já com inflamação gengival, precisamos de monitoramento constante para evitar o agravamento do quadro. O objetivo é atuar em conjunto com a equipe médica e preservar o equilíbrio da saúde bucal”, afirmou Luisa Casado.

Por que a quimioterapia contra o câncer de mama prejudica a saúde bucal?

Os medicamentos citotóxicos administrados na quimioterapia atuam para destruir as células tumorais de multiplicação rápida, mas acabam atingindo também tecidos saudáveis com alto índice de renovação celular, como a mucosa da boca e as glândulas salivares. Essa interferência direta diminui temporariamente a capacidade do organismo de regenerar o epitélio bucal e modifica a composição química da saliva, reduzindo o pH e a quantidade de enzimas protetoras que normalmente combatem bactérias patogênicas.

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Sem essa barreira fisiológica eficiente, o acúmulo de placa bacteriana desencadeia sangramentos e infecções nos tecidos de suporte dos dentes com muito mais facilidade. O ressecamento intenso da mucosa oral também gera desconforto ao engolir, altera a sensibilidade gustativa e deixa a cavidade bucal suscetível ao surgimento de feridas dolorosas que complicam a ingestão adequada de alimentos e nutrientes.

Laserterapia e controle prévio de focos infecciosos integram o suporte clínico

A intervenção do cirurgião-dentista antes das aplicações visa eliminar previamente cáries ativas, raízes residuais comprometidas e inflamações gengivais crônicas que possam servir de porta de entrada para bactérias no organismo debilitado. Quando o tratamento oncológico já está em andamento, o suporte se concentra no alívio sintomático de lesões decorrentes da toxicidade medicamentosa e na manutenção da higiene mecânica cuidadosa.

“Caso haja focos de infecção, alinhamos a melhor conduta com os oncologistas. Durante a quimioterapia, o foco passa a ser preventivo e de alívio de sintomas — como na mucosite oral decorrente da baixa imunidade, em que a laserterapia é fortemente indicada para reduzir o incômodo e acelerar a cicatrização”, explicou Luisa Casado.

A mucosite oral se manifesta por meio de úlceras na mucosa causadas pela baixa resposta imune, provocando dor severa que muitas vezes inviabiliza a alimentação normal. A aplicação de laser de baixa potência atua estimulando o reparo tecidual e reduzindo mediadores inflamatórios, sem interferir na ação dos quimioterápicos no organismo.

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Incidência de câncer de mama no Brasil e dados da assistência odontológica

  • Estimativa anual de novos casos no Brasil para o triênio 2026 a 2028: 78.610 diagnósticos segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA).
  • Estudo do International Journal of Dental Hygiene: 40 mulheres monitoradas por 24 semanas com queda progressiva no fluxo de saliva.
  • Estudo do Journal of Clinical and Experimental Dentistry: 68 mulheres submetidas ao protocolo AC-T com alterações a partir do terceiro ciclo.
  • Alerta médico e odontológico: divulgado em 6 de outubro de 2026, às 13h55, em São Paulo.

O câncer de mama permanece como a neoplasia maligna de maior incidência entre as mulheres no país, desconsiderados os tumores de pele não melanoma. A mobilização anual do Outubro Rosa busca reforçar a importância do diagnóstico precoce da doença e garantir medidas que preservem a qualidade de vida durante as etapas mais agressivas do tratamento oncológico.

Condutas recomendadas para pacientes em tratamento oncológico

Para diminuir o risco de infecções sistêmicas e lesões graves durante o período de baixa imunidade, profissionais de odontologia e oncologia orientam a adoção de rotinas preventivas específicas:

  • Realizar avaliação odontológica completa antes do início da quimioterapia para tratar previamente cáries e inflamações periodontais.
  • Utilizar escova de dentes com cerdas macias e evitar movimentos agressivos para não ferir o tecido gengival.
  • Manter o controle diário da placa bacteriana e seguir rotina de higienização orientada por profissional.
  • Manter acompanhamento com o cirurgião-dentista ao longo de todos os ciclos do tratamento medicamentoso.
  • Informar ao dentista a lista completa de remédios utilizados na terapia oncológica.
  • Comunicar à equipe médica assistente qualquer aparecimento de feridas, sangramentos, inchaço, dor ou ressecamento bucal intenso.
  • Evitar a realização de procedimentos odontológicos invasivos sem autorização prévia e alinhamento com a equipe oncológica responsável.

O alinhamento entre oncologistas e cirurgiões-dentistas define os intervalos seguros para eventuais intervenções clínicas, ajustando os procedimentos conforme as contagens de células sanguíneas em cada etapa da quimioterapia.

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