Câncer de mama tem diagnóstico tardio em 51% dos casos no SUS

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Câncer de mama - Sangiao Photography - shutterstock.com Foto: Câncer de mama - Sangiao Photography - shutterstock.com

O diagnóstico de câncer de mama ocorre em estágios avançados para 51% das pacientes atendidas no Sistema Único de Saúde. O índice de detecção tardia nos níveis 3 e 4 da patologia alcança 68,3% entre mulheres de 20 a 29 anos, faixa etária que não integra o grupo prioritário de rastreamento periódico no Brasil.

Os dados integram o relatório Panorama da Atenção ao Câncer de Mama no SUS, elaborado em parceria entre o Instituto Natura, a Avon, o Instituto Protea e o Observatório da Oncologia, ligado à Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia e ao Movimento Todos Juntos Contra o Câncer. O levantamento reuniu informações oficiais do Instituto Nacional de Câncer e do Ministério da Saúde divulgadas na quinta-feira (1).

Mulheres jovens enfrentam tumores mais agressivos de câncer de mama

câncer de mama
Foto: câncer de mama – Yuganov Konstantin/Shutterstock.com

A distribuição dos casos por faixa etária evidencia uma barreira no diagnóstico para quem tem menos de 50 anos. Enquanto a proporção de descoberta tardia atinge 68,3% nas pacientes de 20 a 29 anos, a taxa fica em 61,9% entre aquelas de 30 a 39 anos e chega a 53,7% no grupo de 40 a 49 anos. Mesmo entre as mulheres de 50 a 69 anos, público-alvo da política nacional de exames preventivos, 47,6% recebem o laudo da doença em estágio avançado, situação que reduz as chances estatísticas de cura.

A médica mastologista e consultora médica do Instituto Natura, Juliana Francisco, explicou a particularidade biológica observada nessa população. “Abaixo dos 40 anos, há proporcionalmente mais tumores de alto grau, como os triplo-negativos e os HER2 positivos, de crescimento geralmente mais rápido”, afirmou a médica.

Mariana Lorencinho, gerente de Políticas Públicas pelo Cuidado com a Saúde das Mamas no Instituto Natura, defendeu o uso das estatísticas para guiar ações assistenciais. “Monitorar esses dados é fundamental para apoiar políticas públicas de qualidade e baseadas na compreensão dos reais desafios, além de ampliar a conscientização das mulheres, para que elas conheçam a importância da detecção precoce, realizem os exames indicados e encontrem a assistência de que precisam no momento certo”, declarou Lorencinho.

Quais sinais corporais exigem avaliação médica imediata no SUS?

O Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer orientam o rastreamento mamográfico bienal para mulheres assintomáticas de 50 a 69 anos. No entanto, alterações físicas nas mamas demandam investigação clínica prioritária em qualquer idade nas unidades básicas de saúde.

A rede pública estabelece como sinais e sintomas suspeitos de referência urgente as seguintes manifestações:

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  • Nódulo mamário endurecido e fixo em mulheres adultas de qualquer idade
  • Nódulo mamário com histórico de aumento contínuo de tamanho
  • Descarga papilar sanguinolenta espontânea em apenas uma das mamas
  • Lesão eczematosa na pele mamária sem resposta a tratamentos tópicos, retração cutânea ou aspecto semelhante a casca de laranja
  • Presença de linfonodo axilar endurecido, seja ele fixo ou móvel, bem como aumento em cadeias supraclaviculares ou infraclaviculares
  • Aumento progressivo no volume da mama acompanhado por edema ou vermelhidão
  • Alteração no contorno ou retração unilateral recente do mamilo
  • Tumoração palpável unilateral na mama de indivíduos do sexo masculino
  • Quadro de mastite ou inflamação tecidual que persiste após o uso completo de antibioticoterapia

Espera de 123 dias para início do tratamento dobra teto legal

O intervalo entre a confirmação do tumor e o início efetivo da terapia oncológica representa outro gargalo estrutural para a rede pública de saúde. Entre 2015 e 2025, as pacientes atendidas no SUS aguardaram uma média de 123 dias para começar a intervenção médica, marca que supera o dobro do teto de 60 dias previsto na Lei Federal nº 12.732 de 2012. No mesmo período histórico de dez anos, o Brasil contabilizou 203.785 mortes em decorrência do câncer de mama, atingindo em 2025 o patamar recorde de 21.668 vítimas fatais em doze meses.

A legislação nacional assegura que o paciente com neoplasia maligna tem direito de iniciar o primeiro procedimento terapêutico no prazo máximo de 60 dias após a emissão do laudo patológico comprobatório. Em 2025, as unidades da federação que registraram as maiores demoras na espera foram Sergipe, com média de 115 dias, Rio de Janeiro, com 107 dias, e Bahia, com 100 dias.

Regiões Norte e Sul apresentam disparidades no rastreamento

O levantamento apontou que a cobertura da mamografia para a população-alvo de 50 a 69 anos passou de 22,8% em 2024 para 22,1% em 2025 no território brasileiro. Enquanto a Região Sul alcançou a maior taxa de atendimento preventivo, com 25,6%, o Norte obteve 10,6% e o Centro-Oeste registrou 13,5%.

Os índices de adesão mamográfica variam consideravelmente entre as unidades federativas:

  • Piauí: 32,4%
  • Bahia: 28,8%
  • São Paulo: 28,7%
  • Pará: 8,7%
  • Rondônia: 7,9%
  • Tocantins: 5,8%

Ministério da Saúde contesta queda e projeta novos tratamentos

O Ministério da Saúde contestou as conclusões sobre retração no acesso aos exames preventivos e informou ter realizado 4,4 milhões de mamografias na rede pública. O órgão citou a expansão de programas territoriais para justificar a oferta de diagnósticos no país.

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“Essa expansão dos serviços deve-se a iniciativas como o Programa Agora Tem Especialistas, que de forma inédita colocou nas ruas 120 Carretas da Saúde, atendendo mais de 189 mil mulheres em todos os estados e reduzindo desigualdades regionais. Com as carretas, 52 municípios zeraram a fila por mamografias. Desde 2023, o Ministério da Saúde destinou R$ 409 milhões a equipamentos para diagnóstico e tratamento do câncer”, afirmou o Ministério da Saúde em nota oficial.

A pasta federal reportou também que as cirurgias mamárias chegaram a 63,6 mil procedimentos no último ano, com alta de 13,7% na comparação com 2023. As sessões de radioterapia tiveram aumento de 17,2%, e as de quimioterapia avançaram 14,5%. As projeções do Instituto Nacional de Câncer indicam a ocorrência de 78.610 novos diagnósticos anuais da doença no país durante o triênio 2026-2028.

O planejamento do governo federal prevê a introdução de 23 novos medicamentos oncológicos na rede assistencial, incluindo fármacos como trastuzumabe entansina e abemaciclibe, além de testes genéticos para rastrear mutações hereditárias. O cronograma com a data exata para o início do fornecimento desses remédios nos hospitais credenciados ao SUS ainda não foi informado pelo Ministério da Saúde.

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