Os registros de prontuários eletrônicos de quase 240 mil mulheres contêm menção à menopausa em apenas 12% dos casos nos Estados Unidos. A constatação faz parte de uma pesquisa científica realizada pela Universidade do Colorado Anschutz, em Aurora, que apontou uma omissão sistemática do status reprodutivo mesmo quando mais da metade das participantes relata espontaneamente que está vivenciando ou já concluiu esse período biológico.
O trabalho científico foi publicado na revista Menopause com o título “Menopause in the All of Us Research Program” e detalha a discrepância entre a rotina clínica e os relatos individuais de saúde. As pesquisadoras Audrey E. Hendricks e Nanette Santoro, professoras da instituição de ensino, alertaram para as consequências diretas dessa falta de documentação: “É impossível pesquisar e tratar aquilo que não é medido. Registrar a transição para a menopausa é uma etapa essencial para melhorar a assistência à saúde das mulheres na meia-idade.”
Subnotificação da menopausa reduz dados sobre sintomas clínicos
A investigação identificou que dados estruturados em sistemas hospitalares subnotificam o status menopausal de maneira contínua quando comparados com autorrelatos obtidos por questionários médicos independentes. Informações clínicas fundamentais para a continuidade do cuidado, como a idade em que os ciclos menstruais cessaram e a presença de queixas rotineiras como ondas de calor e alterações no sono, ficaram quase que inteiramente de fora tanto dos prontuários médicos quanto dos formulários preenchidos nos serviços de atendimento.
A menopausa não é classificada como uma enfermidade, o que leva muitos médicos e enfermeiros a deixarem de inserir códigos específicos da Classificação Internacional de Doenças durante as consultas de rotina na atenção primária ou ginecológica. Essa ausência de codificação ocorre mesmo quando os profissionais perguntam às pacientes sobre a data do último ciclo menstrual, já que essas notas nem sempre são convertidas em registros estruturados nos softwares médicos de saúde.
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Entre as pacientes que receberam um código de diagnóstico formal de menopausa no histórico médico eletrônico, cerca de 99% confirmaram a passagem pela fase reprodutiva no questionário. No entanto, o volume de menções captadas por meio de respostas diretas das mulheres superou em 7 vezes o total de diagnósticos formais anotados pelos médicos nos bancos de dados analisados.
All of Us Research Program: números da amostra do estudo
- Data de publicação no periódico Menopause: 8 de setembro de 2026.
- Local da instituição de pesquisa: Aurora, Colorado, Estados Unidos.
- Proporção de prontuários com menção à menopausa: 12% em quase 240 mil mulheres analisadas.
- Relatos de menopausa colhidos em questionários: 192.655 entre cerca de 396 mil mulheres.
- Diagnósticos formais registrados com código nos sistemas: 27.975 prontuários.
- Concordância entre diagnóstico no prontuário e resposta no questionário: 99%.
- Meta total de voluntários da iniciativa: 1 milhão de participantes.
Impacto da menopausa no coração, ossos e saúde mental
A carência de registros detalhados limita o avanço de estudos epidemiológicos de larga escala que avaliam os desfechos crônicos associados ao envelhecimento feminino. O momento do início da transição menopausal e a severidade dos sintomas associados exercem influência direta sobre a perda de massa óssea, o risco de osteoporose, a ocorrência de distúrbios cardiovasculares e eventuais alterações na cognição e na saúde mental ao longo da vida.
Por ser um processo natural, a idade de início pode variar de forma ampla, ocorrendo habitualmente entre os 45 e os 54 anos sem que represente uma alteração patológica imediata. A ausência de parâmetros anotados impede que sistemas de saúde correlacionem os perfis hormonais de longo prazo com o surgimento precoce de doenças arteriais ou com as necessidades individuais de reposição terapêutica e exames preventivos.
O estudo utilizou a infraestrutura do All of Us Research Program, uma iniciativa mantida pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos criada para reunir históricos clínicos, informações demográficas e perfis genômicos de voluntários. Diante das falhas na alimentação das fichas médicas, Audrey E. Hendricks e Nanette Santoro afirmaram: “Em nossa avaliação, deixar de registrar essas informações representa uma enorme oportunidade perdida de impulsionar pesquisas essenciais e aprimorar a assistência médica personalizada.”
Novas ferramentas computacionais e questionários para consultas
Para contornar a lacuna na rotina ambulatorial, a equipe liderada por Audrey E. Hendricks e pelo pesquisador Jack W. Staples, também do Departamento de Informática Biomédica da Universidade do Colorado Anschutz, trabalha na criação de um questionário padronizado curto. A proposta é aplicar o formulário na recepção das clínicas durante o momento de check-in das pacientes, viabilizando a transferência imediata das informações para o sistema digital de saúde.
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Paralelamente, os cientistas desenvolvem algoritmos computacionais desenhados para deduzir o status menopausal a partir da combinação de outros registros já presentes no sistema de saúde, incluindo prescrições, marcadores genéticos e exames laboratoriais anteriores. A equipe também avalia recortes de escolaridade, etnia, faixa de renda e localização geográfica para identificar os gargalos sociodemográficos que mais contribuem para a falta de preenchimento médico.
Ainda não há prazo definitivo para a implementação clínica ampla do questionário padronizado de check-in que está sendo desenhado pelas pesquisadoras nos centros de saúde dos Estados Unidos.
