A Gruta que Chora, localizada no litoral norte de São Paulo, tem sua estrutura física explicada pela ação do desgaste mecânico em fraturas rochosas que se cruzam em ângulos de cerca de 90 graus. A cavidade rochosa fica no canto esquerdo da Praia da Sununga, ao lado da Praia do Lázaro, e foi catalogada como um dos dez geossítios oficiais do município de Ubatuba em levantamento conduzido pelo Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo.
O gotejamento constante da formação e as feições geológicas internas despertam interesse de pesquisadores e viajantes. A cavidade está formalmente inserida no plano de manejo da Área de Proteção Ambiental Marinha do Litoral Norte, administrado pela Fundação Florestal, que reconhece o local como patrimônio natural paulista devido ao seu interesse didático e científico.
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Origem física e fraturas da Gruta que Chora
O surgimento da caverna decorre de processos erosivos intensos que desgastaram famílias de fraturas rochosas a partir de uma fenda orientada no alinhamento N45. Esse padrão geométrico perpendicular provocou a instabilidade mecânica e a queda sucessiva de grandes blocos de pedra ao longo de milênios, acumulando fragmentos que recobrem o piso da entrada até os dias de hoje.
No teto da formação, pesquisadores identificaram uma estrutura escura classificada como dique basáltico, resultado da injeção de magma que preencheu fendas prévias existentes na rocha matriz granítica. As rochas de granito que constituem o costão da Praia da Sununga datam de cerca de 580 milhões de anos atrás, segundo as datações registradas pelos cientistas do Instituto de Geociências da USP, exibindo também diques sin-plutônicos deformados que se formaram durante o período de resfriamento da massa rochosa.
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A configuração geológica é detalhada na dissertação de mestrado elaborada pela geóloga Priscila Lopes de Abreu Santos, apresentada em 26 de novembro de 2014 no Instituto de Geociências da USP sob a orientação da professora Maria da Glória Motta Garcia. O estudo documentou a integridade das feições da Gruta que Chora e avaliou a vulnerabilidade da estrutura física em relação ao fluxo contínuo de pessoas que frequentam o costão rochoso da praia.
“Quando fazemos esses inventários, nós realizamos uma avaliação dos potenciais e dos talentos de cada local. Vemos alguns locais que são mais propícios para uso científico. Às vezes, eles não têm muita beleza cênica ou são mais difíceis de se chegar, então, ficam só para pesquisa. Outros são bonitos e passam por locais de fácil acesso, assim, também podem ter um apelo turístico. Outros têm muitos elementos geológicos importantes, logo, eles têm um apelo didático, educativo em diversos níveis: tan…”, afirmou a professora Maria da Glória Motta Garcia, coordenadora do núcleo de pesquisa GeoHereditas da USP.
Dados geológicos e localização da Gruta que Chora
- Município: Ubatuba, no litoral norte do estado de São Paulo
- Acesso: canto esquerdo da Praia da Sununga, a pé pela vizinha Praia do Lázaro
- Orientação estrutural da fratura guia: direção N45 com fraturas secundárias em 90 graus
- Idade das rochas graníticas do costão: cerca de 580 milhões de anos
- Classificação institucional: geossítio catalogado no plano de manejo da APA Marinha do Litoral Norte
História folclórica e registros da Gruta que Chora
O pranto contínuo que desce pelas paredes de pedra alimenta a tradição popular da região caiçara há mais de um século. Narrativas transmitidas entre gerações atribuem o som das águas e os pingos nas pedras às lágrimas de uma jovem após o desaparecimento de seu par amoroso, além de mitos antigos sobre uma serpente marinha gigante que supostamente utilizava a entrada da fenda escura como refúgio durante ressacas marítimas violentas.
O primeiro registro impresso das lendas locais ocorreu em 7 de janeiro de 1951, em publicação feita na página 17 do jornal santista A Tribuna pelo historiador Francisco Martins dos Santos. O texto compilou relatos orais de pescadores e moradores tradicionais de Ubatuba que buscavam dar sentido ao gotejamento constante antes de a geologia descrever o comportamento hídrico decorrente da infiltração da chuva pelas fendas superiores do maciço rochoso.
Mapeamento de geossítios em Ubatuba pelo GeoHereditas
Os levantamentos científicos na região do litoral norte paulista ganharam tração com a estruturação do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Patrimônio Geológico e Geoturismo, denominado GeoHereditas, organizado a partir de demandas formuladas em 2011 no Instituto de Geociências da USP. O grupo reuniu pesquisadores com a meta de identificar áreas com relevância cênica e científica que demandassem medidas de conservação ambiental associadas ao turismo ecológico sustentável.
Além da Gruta que Chora, o inventário geológico municipal de Ubatuba inclui outros pontos de interesse científico, como a Pedra do Sino de Ubatuba, a Brecha Magmática da Ilha Anchieta, o Charnockito Ubatuba e o Pico do Corcovado. Essas formações rochosas revelam fases distintas da evolução tectônica da costa brasileira e fornecem amostras de transformações ocorridas durante a separação continental e a consolidação das serras litorâneas.
O núcleo de pesquisa GeoHereditas mantém dados técnicos e documentação visual das feições da caverna para consultas de especialistas em geoconservação. Não está confirmada a liberação pública aberta de modelos tridimensionais digitais da Gruta que Chora para navegação externa pela internet, mantendo-se o material restrito ao acervo institucional e a estudos acadêmicos correlatos.
O acesso à Gruta que Chora permanece aberto a visitantes a partir da faixa de areia da Praia do Lázaro e da Praia da Sununga, dependendo das condições de maré para a aproximação segura do costão rochoso.
