A dependência de exercícios físicos pode provocar prejuízos corporais, emocionais e sociais graves em praticantes que perdem o controle sobre a rotina esportiva. Uma revisão científica internacional publicada no periódico Journal of Behavioral Addictions indica que, embora levantamentos apontem taxas de risco entre 3% e 42% dos praticantes, a patologia verdadeira é rara e costuma ser superestimada em decorrência de confusões metodológicas entre dedicação atlética e transtorno mental.
Conduzido por pesquisadores das universidades ELTE Eötvös Loránd e Széchenyi István, na Hungria, e da Universidade Flinders, na Austrália, o estudo detalha que a compulsão esportiva se estabelece quando o indivíduo não consegue mais escolher se quer ou não treinar. Em declaração documentada no levantamento, em tradução livre, o professor de Saúde Mental e Bem-Estar da Universidade Flinders e coautor do trabalho, Zsolt Demetrovics, explicou que a diferença fundamental reside em saber se a atividade esportiva se mantém como uma escolha voluntária ou se tornou algo que o indivíduo se sente forçado a executar diariamente.
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Sinais clínicos e danos da compulsão esportiva
A perda de controle sobre a frequência e a intensidade dos treinos desencadeia um quadro no qual o praticante continua as sessões mesmo acometido por dores agudas, infecções, febre ou lesões osteomoleculares severas. Ao colocar a atividade física como prioridade inflexível da rotina, a pessoa dependente tende a abandonar compromissos profissionais, afastar-se de amizades e negligenciar a convivência com familiares, criando um ciclo de isolamento e sofrimento emocional caracterizado por sintomas severos de abstinência e ansiedade diante de qualquer pausa forçada.
Segundo os autores da pesquisa, os instrumentos utilizados historicamente para medir o problema falham ao categorizar atletas disciplinados como portadores de distúrbios psiquiátricos. Em análise assinada conjuntamente, Attila Szabo, professor de Psicologia da Universidade Széchenyi István e da Universidade ELTE Eötvös Loránd, Zsolt Demetrovics e Bhavya Chhabra, pesquisadora da ELTE Eötvös Loránd, sustentaram que “as ferramentas de rastreamento do vício em exercício não são instrumentos diagnósticos, apenas identificam a suscetibilidade ou a possível presença de sintomas”.
Os pesquisadores acrescentaram na revisão que “pontuações elevadas costumam estar associadas à paixão, ao perfeccionismo ou ao comprometimento com o esporte, o que significa que podem refletir características motivacionais, e não uma patologia. Nesse sentido, a verdadeira dependência de exercício é, provavelmente, rara”. O mesmo entendimento é compartilhado na aplicação prática por Everton Crivoi, responsável pela preparação física do Espaço Einstein de Esporte e Reabilitação, do Hospital Israelita Albert Einstein, que reforçou que “uma pontuação alta na escala não significa necessariamente um diagnóstico”.
Critérios avaliados pela Escala de Dependência de Exercícios
A principal métrica utilizada nos artigos compilados pela revisão internacional é a Escala de Dependência de Exercícios, conhecida pela sigla em inglês EDS. O questionário avalia o comportamento dos indivíduos a partir de sete dimensões estruturadas para mapear o impacto das atividades nas decisões cotidianas:
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- Tolerância: necessidade de cargas e volumes crescentes para atingir a satisfação
- Abstinência: manifestação de angústia, irritabilidade e sintomas físicos ao interromper os treinos
- Efeitos de intenção: incapacidade constante de cumprir os limites planejados de tempo e esforço
- Falta de controle: tentativas repetidas e frustradas de diminuir a frequência dos exercícios
- Tempo excessivo: dedicação desproporcional do dia à preparação, execução e recuperação das sessões
- Redução de outras atividades: cancelamento de compromissos sociais, profissionais e de lazer em favor do treino
- Continuidade: persistência na prática física mesmo diante de lesões crônicas, doenças e contraindicações médicas
Como tratar a dependência de exercícios físicos?
O acolhimento e o manejo clínico da compulsão por treinos exigem abordagens multidisciplinares integradas, articulando suporte psicoterapêutico, intervenção médica e reeducação esportiva assistida. Especialistas orientam que o praticante não deve interromper as atividades de forma abrupta e definitiva, pois o corte total dos exercícios costuma potencializar episódios graves de ansiedade, irritação e quadros depressivos decorrentes da abstinência esportiva.
A recomendação prioritária consiste na readequação gradativa do volume e das cargas de treinamento, instituindo descansos programados e limites seguros em parceria com preparadores físicos e fisioterapeutas. No campo da saúde mental, intervenções psicoterapêuticas auxiliam na reestruturação do relacionamento com o próprio corpo, enquanto consultas psiquiátricas podem avaliar o uso de terapias medicamentosas específicas quando a compulsão esportiva estiver atrelada a transtornos alimentares, depressão, ansiedade generalizada ou transtornos de humor.
Histórico e dados comparativos de risco de dependência
O interesse científico sobre os reflexos neurobiológicos do esforço físico extenuante começou a ganhar corpo na década de 1970, quando estudos psiquiátricos e pesquisas voltadas à fisiologia do sono detectaram manifestações nítidas de ansiedade e privação em esportistas habituados a ritmos pesados que precisavam interromper suas práticas. Desde então, análises internacionais acumularam dados heterogêneos de suscetibilidade de acordo com a modalidade esportiva e o nível de rendimento dos praticantes avaliados.
- Ciclistas espanhóis: 6,1% de índice de risco de dependência registrado em estudos prévios
- Atletas de elite da Dinamarca: 7,6% de risco verificado entre competidores de alto nível
- Maratonistas italianos: 15,4% de taxa de risco identificada em avaliações de corredores de longa distância
- Variação global em questionários: faixa ampla entre 3% e 42% de participantes classificados em risco nas pesquisas compiladas
A investigação científica internacional continua sem estabelecer parâmetros de consenso definitivos para mensurar o limite biológico exato entre a dedicação atlética de alto rendimento e a instalação de uma enfermidade comportamental. Até o momento, a dependência ou obsessão por exercícios físicos não integra a lista oficial de doenças mentais reconhecidas pelos manuais diagnósticos psiquiátricos internacionais, como o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais e a Classificação Internacional de Doenças, mantendo as pesquisas acadêmicas focadas em novas diretrizes de avaliação clínica para os próximos anos.
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