Genoma de Jonathan revela segredos de tartaruga de 194 anos

Tartaruga Jonathan Foto: Tartaruga Jonathan - Reprodução

A tartaruga Jonathan, réptil de 194 anos reconhecido como o animal terrestre vivo mais velho do planeta, mantém mecanismos celulares de controle de energia com níveis de organização típicos de espécimes jovens. A conclusão integra uma pesquisa internacional publicada nesta quarta-feira (7) na revista científica Science Advances, a partir do primeiro sequenciamento completo do genoma e do epigenoma do animal.

O levantamento identificou 287 variantes genéticas exclusivas associadas à contenção de tumores e à integridade biológica, além de estabilidade marcante em 272 regiões promotoras do ácido desoxirribonucleico (DNA). “A natureza já resolveu o enigma do envelhecimento de maneiras notáveis, e o genoma de Jonathan fornece um modelo de resiliência celular”, afirmou o médico neuro-oncologista Stephen Clark, fundador da Fundação Kallel e autor sênior do artigo, em tradução livre.

Genoma de Jonathan reúne 287 variantes ligadas ao reparo celular

A equipe coordenada pelo pesquisador Benjamin Vaisvil, da Fundação Kallel, analisou o código genético do réptil para compreender como o organismo resiste ao desgaste natural do tempo. O sequenciamento registrou mutações únicas que atuam diretamente no reparo do DNA, na resposta metabólica à insulina e na integridade dos telômeros, estruturas cromossômicas cuja degradação costuma precipitar a senescência em animais vertebrados.

Jonathan The Tortoise - Instagram
Foto: Jonathan The Tortoise – Instagram

Durante a análise laboratorial das sequências, os especialistas constataram que a subespécie Aldabrachelys gigantea hololissa, conhecida popularmente como tartaruga-gigante-de-seychelles, possui mecanismos biológicos altamente adaptados para frear danos moleculares cumulativos. Na comparação com bancos de dados genômicos de outros répteis, as vias bioquímicas de Jonathan demonstraram uma capacidade singular de evitar falhas graves na duplicação celular, fator determinante para afastar enfermidades degenerativas e o desenvolvimento de tumores malignos ao longo de quase dois séculos de existência contínua.

Acompanhe: Diversificar atividades físicas contribui para longevidade e saúde, indica pesquisa

Benjamin Vaisvil apontou a importância desses circuitos moleculares na longevidade extrema observada na espécie. “Encontramos alterações no genoma de Jonathan em vias associadas à longevidade, como reparo de DNA, função mitocondrial, regulação de insulina e função dos telômeros”, disse o pesquisador.

Mitocôndrias de Jonathan mantêm baixa entropia similar à de jovens

Além de ler a sequência do código genético, os cientistas avaliaram os padrões de metilação do DNA, modificações químicas que modulam a ativação de genes sem alterar as bases biológicas. Embora o nível geral de desorganização epigenética de Jonathan tenha se elevado com o avançar da idade, 272 áreas promotoras mantiveram baixa entropia.

Essas 272 regiões genéticas regulatórias desempenham um papel direto na manutenção e no funcionamento das mitocôndrias, organelas responsáveis pela geração de energia nas células dos seres vivos. Em vez de acumularem a degradação química habitual esperada para quase 200 anos de atividade biológica, esses controladores apresentaram índices de estabilidade idênticos aos verificados em tartarugas jovens com apenas 5 anos de idade, prevenindo falhas sistêmicas no suprimento energético do réptil.

O coautor da publicação e pesquisador da Universidade de Cambridge Justin Gerlach ressaltou a durabilidade desse mecanismo protetor. “Descobrimos que os reguladores genéticos envolvidos na produção de energia e no reparo do DNA permaneceram notavelmente estáveis por quase dois séculos”, declarou Gerlach, em tradução livre.

Coleta bucal em Santa Helena evitou riscos de infecção no animal

A obtenção do material genético ocorreu na ilha de Santa Helena, território britânico ultramarino no Oceano Atlântico Sul, onde a tartaruga reside nos jardins da Plantation House, a residência governamental. Para resguardar o animal de eventuais infecções ou complicações hematológicas, a administração da ilha vetou punções de sangue ou procedimentos que exigissem perfurações cutâneas.

O veterinário aposentado Joe Hollins, cuidador histórico do réptil e coautor da pesquisa, executou a extração por meio de saliva e raspagem suave da mucosa bucal interna. O projeto contou com aporte financeiro de US$ 50.000 concedido pelo Stephen Voland Research Fund para custear as análises moleculares de alta complexidade.

Hollins assumiu o tratamento diário de Jonathan em 2009, período em que o animal enfrentava restrições severas provocadas por cataratas que eliminaram sua visão, perda do olfato e enfraquecimento do bico queratinoso. O profissional instituiu uma rotina de alimentação manual com vegetais frescos e nutrientes assistidos, recuperando a massa corporal e a rigidez do bico do réptil ao longo de um ano.

Leia também: Falsa morte da tartaruga Jonathan esconde golpe de criptomoedas na internet

Cronologia de Jonathan desde o século 19 até os estudos atuais

Jonathan divide o gramado governamental com outras três tartarugas-gigantes, entre elas a fêmea Emma. A subespécie registra expectativa de vida média entre 100 e 150 anos em habitat natural, parâmetro amplamente ultrapassado pelo animal que completou 194 anos em 2026 conforme dados consolidados pelo Guinness World Records.

  • 1832: estimativa de nascimento do animal nas ilhas Seychelles;
  • 1882: desembarque de Jonathan em Santa Helena como espécime adulto de 50 anos;
  • 2009: início do protocolo de cuidados intensivos e alimentação assistida pelo veterinário Joe Hollins;
  • Abril de 2026: desmentido oficial do governador Nigel Phillips após boatos falsos sobre a morte da tartaruga;
  • 7 de outubro de 2026: publicação formal dos achados genéticos na revista Science Advances.

Fundação Kallel analisa dados biológicos e pondera limites médicos

A Fundação Kallel pretende utilizar os mapas de estabilidade mitocondrial para orientar estudos sobre patologias crônicas e senescência celular na medicina humana. O autor sênior Stephen Clark ponderou o alcance comparativo da descoberta. “Ainda estamos tentando entender como o envelhecimento ocorre, e Jonathan nos dá uma janela real para o que acontece ao longo de um extenso período de tempo”, afirmou o médico, em tradução livre.

Apesar das semelhanças nos circuitos energéticos celulares, não há comprovação de que as características genéticas e mitocondriais de Jonathan possam ser replicadas diretamente em terapias ou medicamentos para humanos no curto prazo. A equipe de cientistas planeja novas etapas laboratoriais e testes em outros espécimes da mesma linhagem biológica para verificar a viabilidade da aplicação desses achados.

Notícias relacionadas