Bactéria Shigella transmitida pelo sexo desafia antibióticos nos EUA

diarreia - triocean/Shutterstock.com Foto: diarreia - triocean/Shutterstock.com

Linhagens da bactéria Shigella com resistência extensiva a múltiplos antibióticos registraram avanço contínuo e disseminação por contato sexual nos Estados Unidos e no Reino Unido. O quadro reduz as opções de medicamentos orais aprovados para o tratamento da shigelose, infecção bacteriana que provoca episódios agudos de diarreia e disenteria.

A expansão dessas cepas resistentes atinge com frequência homens que fazem sexo com homens, grupo que concentra a maior fatia das infecções diagnosticadas nos dois países. Pesquisadores e epidemiologistas apontam que a rota sexual transformou a dinâmica da enfermidade, que historicamente circulava por meio de água contaminada, alimentos mal higienizados e surtos em creches.

Resistência da Shigella a antibióticos atinge 8,5% das amostras nos EUA

Homem doente de estômago, com dor, diarreia, problema de indigestão
Foto: Homem doente de estômago, com dor, diarreia, problema de indigestão – Prostock-studio/shutterstock.com

Um levantamento de vigilância epidemiológica nacional conduzido pela médica epidemiologista Naeemah Logan, do Centro Nacional de Doenças Infecciosas Zoonóticas e Emergentes do CDC dos Estados Unidos, avaliou 16.788 amostras de Shigella coletadas entre 2011 e 2023. O estudo, publicado no periódico Morbidity and Mortality Weekly Report em 9 de abril de 2026, revelou que as linhagens com resistência extensiva a antimicrobianos passaram de 0% em 2011 para 8,5% em 2023 no território norte-americano.

O critério técnico do CDC classifica como resistente a cepa que não responde simultaneamente a cinco classes de medicamentos de primeira e segunda linha: ampicilina, azitromicina, ceftriaxona, ciprofloxacino e sulfametoxazol-trimetoprima. Essa barreira farmacológica limita a prescrição de terapias simples em comprimidos, exigindo abordagens intravenosas em ambientes hospitalares quando a doença se agrava.

“Juntos, esses dados mostram um padrão muito preocupante de cepas de Shigella com resistência extensiva sendo observadas entre populações vulneráveis. Isso não é de forma alguma exclusivo dos Estados Unidos, mas faz parte de um padrão global mais amplo”, afirmou Naeemah Logan, em tradução livre.

Estudo britânico da Universidade de Cambridge aponta transmissão veloz

No Reino Unido, a geneticista Kate Baker, professora e pesquisadora sênior do Departamento de Genética da Universidade de Cambridge, liderou uma investigação genômica que sequenciou 3.514 amostras de Shigella sonnei coletadas entre 2004 e 2020. O trabalho, publicado na revista The Lancet Infectious Diseases em 8 de julho de 2026, revelou que as linhagens adaptadas à transmissão sexual se espalham a uma velocidade 15% superior à das variantes transmitidas pelas vias alimentares ou por viagens ao exterior.

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“Esta não é apenas uma forma de diarreia sexualmente transmissível. Trata-se do surgimento de múltiplas variantes sobrepostas que estão rapidamente se tornando resistentes aos medicamentos que usamos para tratá-las”, declarou Kate Baker, em tradução livre. A pesquisadora ressaltou ainda a complexidade clínica desse cenário: “É muito provável que, se você contraiu Shigella por meio de relações sexuais, precise de um tratamento diferente de alguém que a contraiu durante uma viagem”.

Dados da Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido indicaram que os diagnósticos de Shigella adquirida por via sexual somaram 2.560 ocorrências em 2025 no território britânico, superando os 2.052 registros anotados em 2023. Durante as análises laboratoriais britânicas daquele mesmo período, 86% das amostras de Shigella sonnei e 94% das de Shigella flexneri apresentaram resistência aos antibióticos tradicionais.

Números e indicadores do avanço da Shigella resistente

  • 450 mil infecções anuais estimadas por shigelose nos Estados Unidos
  • 8,5% dos isolados bacterianos nos EUA com resistência extensiva em 2023, ante 0% em 2011
  • 16.788 amostras analisadas pelo CDC norte-americano entre 2011 e 2023
  • 86,2% dos casos resistentes nos EUA concentrados em homens adultos
  • 46,6% de taxa de coinfecção por HIV entre pacientes norte-americanos com sorologia conhecida
  • 2.560 diagnósticos sexuais registrados pela UKHSA britânica em 2025
  • 3.514 genomas de Shigella sonnei analisados pela Universidade de Cambridge

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Hospitalizações e limites de prevenção contra a Shigella

A gravidade clínica das novas cepas reflete-se na necessidade de internação. Aproximadamente um terço dos pacientes infectados por variantes extensivamente resistentes de Shigella precisou de cuidados hospitalares nos Estados Unidos, com permanência média de quatro a cinco dias no leito. O quadro infeccioso costuma deflagrar febre, dores abdominais intensas, vômitos e disenteria com presença de sangue nas fezes.

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As autoridades sanitárias destacam que as orientações clássicas de saúde pública, baseadas na lavagem das mãos e no cuidado com a manipulação de alimentos, são insuficientes para conter a propagação quando o contato sexual atua como rota principal. Para reduzir o contágio, órgãos de vigilância recomendam o uso de preservativos durante o sexo oral e anal, a higienização rigorosa antes e após o ato, e a abstenção sexual por pelo menos duas semanas após o término de qualquer episódio de diarreia.

A Food and Drug Administration dos Estados Unidos ainda não aprovou antibióticos orais desenhados especificamente para eliminar linhagens de Shigella imunes às cinco classes principais de fármacos, e não existem dados clínicos definitivos para novos protocolos simplificados. Laboratórios e centros de microbiologia continuam o monitoramento genômico dos isolados para orientar as próximas diretrizes médicas internacionais.

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