Falsas casas de apostas retêm saques via Pix e cobram taxa indevida

Bet, apostas - Joédson Alves/ Agência Brasil

Bet, apostas - Joédson Alves/ Agência Brasil

Uma investigação conduzida pela startup de cibersegurança ZenoX revelou a operação batizada de Saque Fantasma, um esquema criminoso baseado em falsas casas de apostas esportivas no Brasil. O sistema atrai usuários com a promessa de retornos que chegam a R$ 3.000 a partir de depósitos entre R$ 20 e R$ 30, mas utiliza a própria lógica da página para travar os pedidos de resgate financeiro e exigir cobranças adicionais das vítimas.

O levantamento técnico confirmou que a plataforma não precisa instalar vírus ou programas maliciosos nos aparelhos dos usuários para aplicar o golpe, operando de forma direta pelo navegador de internet. De acordo com o relatório, além de reter o dinheiro transferido, a infraestrutura dos criminosos deixou credenciais administrativas expostas no código aberto, o que permitiu o acesso público a bancos de dados com informações confidenciais de 3.600 contas cadastradas na plataforma NEWWBET7K.

ZenoX detalha a lógica do código da operação Saque Fantasma

Pix – Diego Thomazini/Shutterstock.com

Os pesquisadores de segurança identificaram ao menos três domínios em operação que compartilham a mesma infraestrutura, banco de dados e arquivos de programação: maxxbet7k.online, maxbtt7k.online e newwbet7k.online. O funcionamento simula os recursos visuais de uma casa de apostas regular, exibindo saldo em conta e jogos interativos. No entanto, quando o usuário solicita o saque dos supostos rendimentos, a página trava o procedimento deliberadamente.

Segundo a análise técnica, o sistema simula uma falha de comunicação com o intermediador de pagamentos PixUp. Diante desse falso erro, o próprio navegador do usuário gera um QR Code genérico de Pix para cobrar uma taxa de liberação, mantendo o status do pedido em pendência perpétua. O pesquisador de ameaças da ZenoX e autor do relatório técnico, Gabriel Alves, destacou a característica estrutural da fraude: “A malícia desta operação não é malware clássico: é econômica e de engenharia. O próprio código da aplicação implementa o bloqueio do pagamento, a taxa falsa e a confirmação impossível de saque”.

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O diretor-executivo da ZenoX, Gabriel Paiva, explicou os fatores que levam os usuários a cair na armadilha estruturada pela rede fraudulenta: “A sofisticação não está necessariamente em usar uma tecnologia inédita, mas em combinar recursos simples para criar uma experiência convincente. Quando toda a jornada, do primeiro depósito à tentativa de saque, reforça a sensação de legitimidade, fica muito mais difícil para a vítima perceber onde termina a plataforma e começa a fraude”.

Números apurados na investigação técnica sobre as falsas apostas

  • Depósito inicial exigido das vítimas: entre R$ 20 e R$ 30
  • Promessa de retorno financeiro fictício: de R$ 2.000 a R$ 3.000
  • Valor da suposta taxa de liberação cobrada via Pix: R$ 30,00
  • Contas com dados confidenciais expostos: 3.600 cadastros
  • Índice de transações com status pendente: 68% das 231 operações de depósito auditadas
  • Saldo acumulado nos domínios MAXXBET7K e MAXBTT7K: R$ 107.519,00 distribuídos em 415 contas

Captação de vítimas em redes sociais e medidas das plataformas

A atração de usuários para os domínios fraudulentos era realizada principalmente por meio de campanhas digitais e perfis em redes sociais. O esquema contava com canais no Telegram, páginas no Instagram e um perfil no TikTok que acumulava mais de 126 mil seguidores e 2,5 milhões de curtidas. As publicações recorriam a promessas de ganhos expressivos e criavam um falso senso de urgência para induzir as pessoas a transferirem os valores iniciais.

Após a identificação do esquema, o perfil do TikTok utilizado na captação foi banido. A plataforma de vídeos informou que a remoção da conta ocorreu de maneira preventiva por violação direta às diretrizes da comunidade antes de qualquer notificação externa. A empresa Meta, responsável pelo Instagram, comunicou que mantém políticas ativas contra fraudes e que remove conteúdos ilegais imediatamente após a identificação em seus sistemas.

Como funciona o bloqueio determinado pelo Ministério da Fazenda

A proliferação desse modelo de golpe ocorre no mesmo período em que o governo brasileiro intensifica o cerco a sites ilegais. O Ministério da Fazenda e a Secretaria de Prêmios e Apostas realizam bloqueios massivos contra páginas não autorizadas de apostas que atuam no mercado nacional fora das regras oficiais estabelecidas em 2026. Mesmo com o fechamento contínuo de endereços pela regulação federal, criminosos virtuais abrem novos domínios com códigos clonados para captar apostadores desavisados.

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Gabriel Paiva reforçou a necessidade de ações voltadas para a espinha dorsal dessas redes clandestinas de apostas: “Combater esse tipo de fraude exige olhar para a operação como um todo, e não apenas para o site que está no ar naquele momento. Domínios podem mudar rapidamente, enquanto a infraestrutura, os canais de distribuição e a lógica do golpe continuam funcionando. É essa visão mais ampla que permite antecipar novas campanhas, em vez de agir apenas depois que elas chegam às vítimas”.

O que fazer para tentar recuperar o valor transferido?

A primeira recomendação técnica para quem transferiu dinheiro aos sites fraudulentos é não realizar nenhum pagamento adicional, uma vez que as cobranças de taxa de liberação, depósitos de verificação ou cotas mínimas de saque são etapas complementares da própria fraude. Além de interromper os repasses, o usuário deve guardar os comprovantes das transações Pix, registrar capturas de tela das conversas, links e páginas acessadas para formalizar a denúncia às autoridades competentes.

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Como as perdas financeiras resultam de uma armadilha de engenharia social e não de uma falha de segurança no sistema das instituições financeiras, o ressarcimento bancário depende do acionamento imediato do Mecanismo Especial de Devolução do Banco Central pelo banco de origem. Paralelamente, como os cadastros vazados continham nomes, telefones, e-mails e chaves Pix de 3.600 pessoas, os usuários lesados precisam redobrar a cautela contra novas abordagens de golpistas que prometem reaver o saldo perdido mediante cobrança antecipada.

Até a publicação do relatório técnico elaborado pela ZenoX, a identidade civil e a localização exata dos criminosos responsáveis pela criação e administração dos três domínios investigados não foram descobertas.