A degeneração macular relacionada à idade (DMRI) afeta a visão central a partir dos 55 anos e mobiliza avanços tecnológicos recentes voltados à restauração visual em quadros atróficos avançados. A enfermidade compromete a mácula, estrutura anatômica localizada no centro da retina que permite a leitura de textos, a visualização nítida de detalhes e o reconhecimento facial, enquanto preserva a capacidade visual periférica do indivíduo.
Pesquisadores internacionais registraram a retomada da identificação de palavras por meio de um microchip fotovoltaico implantado sob a retina em estudo clínico divulgado no The New England Journal of Medicine. “Esta é a primeira demonstração de restauração da visão central com melhora significativa na acuidade visual em um grande número de pacientes em múltiplos centros. Não há alternativas na DMRI atrófica em estágio terminal”, declarou, em tradução livre, o diretor do UPMC Vision Institute e coautor sênior da investigação, José-Alain Sahel.
Sintomas visuais da DMRI e formas de evolução da doença
A alteração clínica inicial costuma envolver a metamorfopsia, condição caracterizada pela percepção distorcida de linhas retas, fazendo com que batentes de portas, janelas ou postes aparentem curvatura irregular. Paralelamente, os pacientes podem notar escotomas, manifestados como pontos escuros fixos, áreas embaçadas ou zonas totalmente vazias bem no centro do campo de visão, quadro que prejudica a execução de tarefas rotineiras como dirigir e costurar.
A doença ocular se manifesta em dois subtipos clínicos com características biológicas e evoluções distintas:
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- Forma seca (atrófica): responde por cerca de 90% dos diagnósticos e decorre do acúmulo de drusas, pequenos depósitos celulares sob a retina que acarretam degeneração tecidual lenta e cicatrizes no fundo do olho.
- Forma úmida (exsudativa ou neovascular): caracterizada pelo crescimento desordenado de vasos sanguíneos anômalos que extravasam líquido e sangue sob a mácula, gerando perda visual acelerada.
- Incidência em idosos de 70 a 79 anos: prevalência estimada em 2,2% na população brasileira segundo parâmetros epidemiológicos internacionais adotados pelo Ministério da Saúde.
- Incidência em idosos a partir de 80 anos: taxa de ocorrência que alcança 10,3% no país com base nas estimativas técnicas do setor.
Embora a causa primária do distúrbio permaneça sob investigação contínua, o envelhecimento celular associado a processos oxidativos constitui o principal fator de vulnerabilidade clínica. Elementos como pele clara, histórico genético familiar, exposição desprotegida à radiação solar e tabagismo elevam as chances de degeneração do tecido retiniano, exigindo avaliação oftalmológica especializada para a diferenciação precisa do estágio da patologia.
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Prevenção da DMRI e acompanhamento clínico
A identificação diagnóstica precoce depende de exames especializados do globo ocular, incluindo o mapeamento de retina, a avaliação minuciosa do fundo de olho e a tomografia de coerência óptica (TCO). O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) apresentou diretrizes atualizadas de exames preventivos em 10 de setembro de 2026, durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, com a recomendação formal de vigilância anual para o rastreio da enfermidade em pessoas a partir dos 55 anos, ou a partir dos 40 anos para indivíduos com casos registrados na família.
Medidas de estilo de vida auxiliam a atenuar a velocidade de progressão do quadro patológico, como a eliminação do consumo de cigarros e a proteção física contra raios ultravioleta UVA e UVB com o uso de óculos escuros. Na esfera nutricional, dados do estudo de coorte Blue Mountains Eye Study, conduzido pelo Instituto Westmead de Pesquisa Médica em parceria com a Universidade de Sydney, avaliaram 2.856 adultos com mais de 49 anos ao longo de 15 anos de seguimento. O levantamento revelou que a ingestão regular de compostos flavonoides e frutas cítricas ricas em flavanonas relacionou-se a uma probabilidade 57% menor de desenvolvimento de alterações degenerativas maculares.
No sistema público de saúde e na rede privada conveniada, o manejo da forma neovascular conta com a administração de injeções intraoculares periódicas de medicamentos antiangiogênicos (anti-VEGF). Essas aplicações, que costumam exigir entre seis e oito sessões anuais, atuam diretamente no estancamento do extravasamento dos neovasos anormais e estabilizam a acuidade visual do paciente, ao passo que a forma seca conta historicamente com suporte antioxidante em fases intermediárias.
Microchip PRIMA e a tecnologia de estimulação sub-retiniana
Para os quadros de DMRI seca terminal associados à atrofia geográfica, nos quais não existiam opções terapêuticas para recuperar a visão perdida, cientistas desenharam o implante sub-retiniano sem fio denominado PRIMA. A tecnologia utiliza um chip fotovoltaico miniaturizado de 2 milímetros por 2 milímetros, introduzido cirurgicamente sob o tecido macular danificado para atuar de maneira integrada a um par de óculos equipado com câmera de captação externa e emissor infravermelho.
O mecanismo opera captando as imagens do ambiente pelos óculos especiais, convertendo os dados visuais em feixes ópticos infravermelhos direcionados aos circuitos do implante sub-retiniano. Na retina, o dispositivo transforma esses sinais luminosos em impulsos elétricos que ativam as camadas neurais remanescentes e enviam os estímulos diretamente ao córtex cerebral por meio do nervo óptico. Pelo fato de a energia elétrica ser obtida da própria projeção de luz infravermelha, o microchip dispensa cabos ou baterias implantadas.
“Todas as tentativas anteriores de fornecer visão com dispositivos protéticos resultavam basicamente em sensibilidade à luz, e não propriamente em visão de formas. Somos os primeiros a fornecer visão de formas”, afirmou, em tradução livre, o professor de oftalmologia da Universidade de Stanford e inventor do conceito do microchip, Daniel Palanker.
Resultados do estudo clínico do microchip PRIMA
O ensaio clínico multicêntrico conduzido sob a liderança do professor Frank G. Holz, chefe do Departamento de Oftalmologia do Hospital Universitário de Bonn, na Alemanha, foi publicado no The New England Journal of Medicine em 20 de outubro de 2025. A intervenção demonstrou que a visão central artificial gerada pelo dispositivo atuou de forma simultânea com a visão periférica natural preservada dos voluntários, permitindo que a grande maioria dos participantes voltasse a reconhecer caracteres gráficos e sentenças completas.
Após um período de 12 meses de acompanhamento com o implante PRIMA, a melhora clínica documentada apontou ganho significativo de acuidade visual ou recuperação funcional de leitura em 26 a 27 dos 32 indivíduos analisados no protocolo de testes, correspondendo a índices entre 81% e 84% de eficácia no grupo. O procedimento cirúrgico exigiu monitoramento estrito, registrando 26 eventos adversos graves distribuídos em 19 pacientes durante a pesquisa, majoritariamente relacionados a variações de pressão intraocular e pequenos sangramentos locais solucionados nas primeiras oito semanas pós-operatórias.
Atualmente, não há registro de pedido de submissão ou aprovação regulatória do microchip PRIMA perante a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil, mantendo-se a técnica sob regime experimental internacional, com certificações restritas à Europa e ao Reino Unido. Os grupos de pesquisa internacionais trabalham na ampliação dos ensaios clínicos para aprimorar a definição das imagens processadas pelo sistema protético.
