A eletroacupuntura reduziu em pelo menos 30% a dor em 46,7% dos pacientes com neuralgia pós-herpética acompanhados em um ensaio clínico multicêntrico publicado no periódico internacional JAMA Neurology. O índice registrado entre os voluntários submetidos à técnica com estimulação elétrica foi quase o dobro da taxa observada no grupo controle que recebeu o procedimento simulado, que ficou em 24,3%.
O resultado indica alívio expressivo para um quadro de dor crônica de difícil controle decorrente do herpes-zóster, infecção provocada pelo vírus varicela-zóster. Segundo o neurologista Marcel Simis, do Hospital Israelita Albert Einstein, “uma redução de 30% é considerada clinicamente relevante em estudos sobre dor crônica, pois representa uma melhora perceptível para o paciente”. O médico pondera, no entanto, a dimensão exata do desfecho verificado na pesquisa: “Mas isso não significa que 47% dos participantes ficaram sem dor: eles tiveram uma redução de pelo menos 30% na dor em relação ao que sentiam no início”.
Eletroacupuntura: metodologia e parâmetros do ensaio com 448 pacientes
Conduzido em sete hospitais terciários da China sob a liderança de pesquisadores da Nanjing University of Chinese Medicine, o estudo teve como autora principal a pesquisadora Lu Chen e como coautor sênior o pesquisador Jian-Hua Sun. O ensaio clínico triou inicialmente 1.072 pessoas, das quais 624 foram excluídas antes da fase de intervenção. Ao final do processo de triagem, os médicos randomizaram 448 pacientes com idades entre 45 e 75 anos, divididos em dois grupos rigorosamente monitorados: 225 voluntários no braço de intervenção ativa e 223 no grupo de controle com procedimento simulado.
O protocolo de atendimento consistiu em 20 sessões de 30 minutos de estimulação elétrica de baixa frequência com agulhas, administradas cinco vezes por semana durante quatro semanas consecutivas. Durante cada sessão, pares de agulhas receberam pequenas correntes elétricas ajustadas para gerar contração muscular leve na região afetada pela dor. Após o encerramento do primeiro mês de aplicações, os profissionais de saúde mantiveram o monitoramento clínico dos participantes por mais quatro semanas, período no qual avaliaram a duração dos benefícios e a segurança do método.
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Eletroacupuntura substitui o tratamento médico convencional com remédios?
A resposta dos especialistas é negativa: a eletroacupuntura atua como terapia complementar e não substitui os medicamentos farmacológicos convencionais, tampouco promove a regeneração direta dos tecidos nervosos danificados pelo agente viral. A neuralgia pós-herpética decorre de um processo infeccioso que lesiona as vias neurais sensitivas, gerando hipersensibilidade extrema ao toque, choques, queimação contínua e pontadas agudas que alteram o humor, prejudicam o sono e limitam a rotina.
Marcel Simis explica a origem fisiopatológica da condição que motivou a investigação com agulhas elétricas: “O vírus provoca inflamação e pode danificar as fibras nervosas. A pele cicatriza em algumas semanas, mas o nervo pode levar muito mais tempo para se recuperar ou pode não se recuperar completamente, daí surge a neuralgia”. Diante da persistência do quadro doloroso, os consensos médicos mantêm como tratamento farmacológico padrão de primeira linha o uso de anticonvulsivantes como gabapentina e pregabalina, antidepressivos tricíclicos e emplastros tópicos formulados com lidocaína ou capsaicina.
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Resultados clínicos e indicadores apurados no estudo do JAMA Neurology
Além da queda sustentada na intensidade da dor avaliada pelas escalas médicas, os pacientes tratados com eletroacupuntura apresentaram menor necessidade de suporte medicamentoso imediato durante a rotina diária. A equipe responsável pela pesquisa registrou as seguintes métricas fundamentais ao longo do acompanhamento:
- Taxa de resposta de 46,7% no grupo de eletroacupuntura contra 24,3% no grupo submetido ao procedimento simulado.
- Consumo de medicamentos analgésicos de resgate em 6,67% dos participantes tratados com agulhas ativas frente a 13,90% no grupo de controle.
- Cumprimento de 20 sessões terapêuticas individuais de 30 minutos ao longo de quatro semanas de acompanhamento.
- Ausência de eventos adversos clinicamente importantes registrados durante todo o período de intervenção clínica.
- Proporção estimada entre 10% e 18% de casos de herpes-zóster na população que evoluem para neuralgia pós-herpética crônica.
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Prevenção do herpes-zóster e vacinação em adultos no Brasil
As manifestações de neuralgia crônica afetam principalmente pessoas mais velhas e indivíduos com quadros de baixa imunidade, situações em que o vírus da catapora adormecido nos gânglios nervosos se reativa. Para prevenir o surgimento da doença inicial e o desenvolvimento da complicação neurológica, a principal medida preconizada pela comunidade médica é a imunização preventiva.
No Brasil, a vacina recombinante contra o herpes-zóster é indicada para pessoas com 50 anos ou mais, além de indivíduos a partir dos 18 anos que apresentem condições clínicas de imunocomprometimento, estando o produto disponível em clínicas da rede privada de saúde. Pessoas que manifestam erupções cutâneas dolorosas ou suspeita de zóster devem procurar atendimento médico em unidades básicas de saúde ou consultórios especializados para diagnóstico precoce e manejo com antivirais antes da instalação de sequelas crônicas.
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A publicação do artigo científico no JAMA Neurology ocorreu em 26 de maio de 2026, com posterior análise divulgada em veículos médicos brasileiros em 11 de outubro de 2026. A literatura médica internacional ainda não reúne ensaios clínicos diretos de longo prazo que comparem a eletroacupuntura de maneira isolada aos medicamentos de primeira linha em populações ocidentais.
