Cientistas da agência oceanográfica NOAA localizaram raras esculturas naturais de asfalto a 1.900 metros de profundidade no Golfo do México. A equipe desceu ao leito oceânico para investigar o que parecia ser a carcaça de uma embarcação histórica naufragada, mas as câmeras revelaram formações geológicas em formato de flor batizadas de lírios de piche.
O achado ocorreu após equipamentos de rastreamento acústico detectarem uma grande elevação isolada em meio a uma planície submarina uniforme. Ao enviar a tecnologia de filmagem remota até o local, os pesquisadores constataram que a estrutura não tinha origem humana, mas resultava de vazamentos subterrâneos de hidrocarbonetos endurecidos pela temperatura da água.
Alvo de 60 metros mobilizou a equipe do Okeanos Explorer
Durante trabalhos de varredura no Golfo do México, um sonar de varredura lateral captou um contato acústico com cerca de 60 metros de extensão. Como o sinal apresentava contornos lineares e descansava sobre um leito sedimentar plano, arqueólogos e oceanógrafos consideraram alta a probabilidade de encontrar um sítio arqueológico submerso. A confirmação visual dependia do envio de veículos especializados até a cota profunda.
A checagem direta aconteceu por meio da embarcação científica NOAA Ship Okeanos Explorer, durante a missão EX1402 Leg 3. A equipe mobilizou o veículo submarino operado remotamente Deep Discoverer para descer até a profundidade exata de 1.900 metros, equivalente a cerca de 6.234 pés. Quando a iluminação do robô alcançou o assoalho marinho, as imagens revelaram blocos escuros e encurvados, sem qualquer traço de madeira, rebites ou estruturas navais.
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O arqueólogo marítimo Jack Irion, encarregado de selecionar alvos com potencial histórico durante a expedição, comentou a surpresa diante do cenário geológico. “Arqueólogos encontram coisas legais mesmo quando não são naufrágios”, afirmou o especialista, em tradução livre. Na mesma operação, a equipe científica localizou uma segunda estrutura vulcânica semelhante instalada a pouca distância da primeira.
Dados da expedição científica no Golfo do México
- Data da identificação em mergulho: 24 de abril de 2014
- Profundidade da ocorrência geológica: 1.900 metros (cerca de 6.234 pés)
- Extensão da anomalia captada pelo sonar: 60 metros (197 pés)
- Embarcação responsável pela missão: NOAA Ship Okeanos Explorer
- Equipamento de filmagem submarina: veículo operado remotamente Deep Discoverer
- Total de estruturas similares vistas no mergulho: 2 formações
Mecanismo geológico que molda os lírios de piche
O fenômeno registrado na área corresponde ao vulcanismo de asfalto, processo em que reservas subterrâneas profundas expelem petróleo pesado e outros compostos orgânicos através de fraturas tectônicas. Ao atingir o solo oceânico, o material aquecido colide com a água do mar, cuja temperatura próxima de zero grau provoca um choque térmico imediato.
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Esse resfriamento abrupto força a perda de compostos gasosos voláteis e enrijece o piche em uma massa densa e viscosa. O peso do próprio material em acúmulo gera tensões mecânicas, rachando as bordas externas enquanto o fluxo central continua a empurrar novas camadas. As placas laterais então se curvam e tombam para fora, gerando camadas sobrepostas que lembram pétalas abertas de flores gigantescas.
A agência NOAA Ocean Exploration relatou em seus relatórios a rapidez com que a hipótese inicial caiu por terra durante o mergulho. “Em questão de minutos após observar a primeira parte do suposto naufrágio, no entanto, ficou claro que a feição não era feita pelo homem, mas sim um fenômeno natural que acabou sendo apelidado de lírio de piche”, informou a instituição, em tradução livre.
Fauna marinha coloniza a rocha de asfalto a 1.900 metros
Embora compostas por hidrocarbonetos endurecidos, as estruturas minerais servem de abrigo e fundação para diversos animais adaptados ao abismo oceânico. A planície ao redor é dominada por sedimentos lodosos instáveis, o que torna qualquer superfície rígida um ponto disputado para fixação biológica nas profundezas.
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A inspeção visual conduzida sob a coordenação do oceanógrafo Ian MacDonald, professor da Universidade Estadual da Flórida e relator científico do mergulho, catalogou corais-bambu, anêmonas-armadilha, esponjas e cracas-pescoço-de-ganso presas às pétalas de piche. Em fendas onde ainda ocorrem pequenas emanações químicas, formaram-se comunidades quimiossintéticas compostas por colônias bacterianas, vermes tubulares e pequenos camarões que independem totalmente da luz solar para sobreviver.
Campeche Knolls e registros históricos de vulcanismo marinho
A ocorrência de depósitos asfálticos nos mares não era totalmente desconhecida da comunidade científica quando a agência americana documentou os lírios de piche. Em 2004, pesquisadores a bordo do navio oceanográfico alemão Sonne encontraram estruturas vulcânicas de asfalto na porção sul do Golfo do México, em uma região de relevo submarino conhecida como Campeche Knolls.
Manifestações análogas de escape de piche sob alta pressão hidrostática também foram descritas em estudos anteriores realizados ao longo da costa da Califórnia e em setores do Atlântico na África Ocidental. A presença de tais formações confirma que fraturas geológicas profundas em bacias petrolíferas atuam de forma contínua na composição física e biológica do solo marinho.
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Estruturas submarinas permanecem em estágio dormente
As análises geológicas conduzidas após o resgate das imagens indicam que os dois lírios de piche inspecionados pelo robô Deep Discoverer encontram-se atualmente em estado dormente. Não há registro de atividade eruptiva recente ou de novas descargas volumosas de asfalto líquido ocorrendo naquele setor específico do Golfo do México desde a conclusão da missão.
Na segunda-feira (12), novos levantamentos acadêmicos voltaram a analisar os dados oceanográficos coletados pelo Okeanos Explorer para detalhar os limites de resistência dessas colônias minerais frente à erosão e às correntes marinhas profundas.
