Uso de pronomes na infância aponta risco de depressão futura

Trauma infantil, criança triste - Carlo Prearo/ Shutterstock.com

Trauma infantil, criança triste - Carlo Prearo/ Shutterstock.com

Um estudo conduzido pela Universidade Stanford, nos Estados Unidos, demonstrou que o estilo da fala na infância ajuda a identificar a vulnerabilidade para transtornos de saúde mental, como ansiedade e depressão, até seis anos mais tarde. A pesquisa analisou entrevistas sobre eventos estressantes com o auxílio de inteligência artificial e apontou que a estrutura das frases é mais informativa para prever o futuro psicológico do que o conteúdo emocional explícito relatado pelas crianças.

Em vez de rastrear apenas termos ligados diretamente a sentimentos como tristeza, raiva ou medo, os algoritmos identificaram padrões na construção das narrativas, especialmente no emprego das chamadas palavras funcionais, grupo que reúne pronomes, preposições e conjunções. “Quando contamos uma história, fazemos escolhas linguísticas o tempo inteiro sem nem perceber. Essas escolhas podem refletir processos cognitivos e emocionais menos conscientes”, disse o psiquiatra Thiago Andrade Pedrosa, especialista em infância e adolescência do Espaço Einstein de Bem-estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita.

Saiba mais: Gatas tricolores têm origem explicada pelo gene Arhgap36 no DNA

Como a Universidade Stanford avaliou a fala dos 204 participantes

O trabalho científico foi financiado pelo National Institutes of Health (NIH), agência governamental de pesquisa biomédica dos Estados Unidos, e publicado em 31 de julho de 2026 na edição 4(8), páginas 1227 a 1238, da revista científica Nature Mental Health. Sob o título original “Natural language processing of youth speech predicts psychopathology across adolescence” (Processamento de linguagem natural da fala juvenil prevê psicopatologia ao longo da adolescência, em tradução livre), o levantamento utilizou dados de participantes inscritos no Early Life Stress Study (Estudo sobre Estresse no Início da Vida).

Foto: Criança creche – Unai Huizi Photography/ shutterstock.com

A equipe liderada pelo primeiro autor Chase Antonacci, doutorando em neurociência na Universidade Stanford, e pelo autor sênior Ian H. Gotlib, pesquisador da mesma instituição, avaliou gravações de entrevistas estruturadas feitas com jovens que, no momento inicial da coleta, não tinham nenhum diagnóstico de transtorno mental. Como crianças costumam ter dificuldade para nomear diretamente o que sentem, profissionais de saúde frequentemente recorrem a desenhos e brincadeiras nas consultas clínicas. “Perguntar simplesmente ‘Você está triste?’ não vai capturar a experiência emocional completa daquela criança”, afirmou Thiago Andrade Pedrosa.

O uso de expressões cotidianas como pronomes e conjunções costuma passar despercebido na conversa diária, mas revela aos pesquisadores como o indivíduo organiza mentalmente uma experiência, conecta acontecimentos, faz referência a si mesmo e aos outros ou demonstra certeza e dúvida ao narrar um fato. Todos os dados da amostragem e os parâmetros computacionais aplicados na investigação foram divididos nas seguintes métricas exatas:

  • Quantidade de participantes analisados: 204 crianças e pré-adolescentes.
  • Faixa etária nas entrevistas iniciais: de 9 a 13 anos (com idade média de 11,38 anos no grupo).
  • Perfil demográfico da amostra: 58% dos participantes eram do sexo feminino.
  • Tempo médio das gravações: cerca de 30 minutos de entrevista por participante sobre exposição a eventos estressantes ou traumáticos.
  • Período de monitoramento posterior: acompanhamento com reavaliações feitas quatro ou até seis anos após a entrevista inicial.
  • Ferramentas de inteligência artificial: aplicação de 4 modelos de processamento de linguagem natural (LIWC, TF-IDF, LDA e RoBERTa).
  • Capacidade preditiva: as características linguísticas explicaram 16,2% da variância na previsão de saúde mental futura, frente a 7,0% explicados pelos modelos de base com fatores de risco tradicionais avaliados por especialistas humanos.

Saiba mais: Stanford integra células humanas a 92% do córtex de camundongo

Comparação com exames tradicionais na psiquiatria e limites do diagnóstico

Antes do desenvolvimento dessa abordagem computacional focada na fala, a realização de testes objetivos para dimensionar o risco biológico e psicológico de transtornos mentais na infância dependia de procedimentos laboratoriais ou de equipamentos especializados de difícil aplicação em larga escala. Os protocolos anteriores exigiam coletas de sangue ou medições clínicas para verificar os níveis do hormônio cortisol, a reatividade fisiológica do corpo ao estresse ou o comprimento dos telômeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos celulares.

Na prática clínica tradicional, psiquiatras já observam o vocabulário, a quantidade de palavras e a entonação da voz do paciente, e estudos anteriores feitos majoritariamente com adultos já associavam padrões linguísticos a quadros de depressão e traumas. “Estudos nessa faixa etária ainda são mais escassos e, em geral, envolvem grupos menores e períodos de observação mais curtos. Esse trabalho mostra que a linguagem pode funcionar como uma espécie de marcador comportamental para vulnerabilidade”, declarou o psiquiatra do Einstein Hospital Israelita.

Apesar de os modelos computacionais explicarem mais do que o dobro da variação na previsão em comparação às avaliações humanas tradicionais, os médicos alertam que o resultado aponta probabilidade e vulnerabilidade, e não um diagnóstico definitivo. O uso isolado de um pronome ou de uma palavra específica não determina o adoecimento psiquiátrico. “Uma característica observada na fala de uma criança hoje não permite afirmar que ela desenvolverá um transtorno psiquiátrico no futuro. A trajetória de saúde mental depende de uma combinação de fatores, incluindo experiências estressantes, fatores de proteção e mudanças que acontecem ao longo da vida”, disse Pedrosa.

Relatos de violência elevam risco e rotina estruturada protege crianças

Ao analisar o contexto das entrevistas de 30 minutos, os quatro modelos de inteligência artificial conseguiram diferenciar relatos genéricos sobre brigas cotidianas de narrativas que descreviam experiências reais de agressão e rejeição ampla. A pesquisa mapeou que histórias centradas em violência física, ameaças, conflitos interpessoais intensos e exclusão social figuraram como os principais marcadores ligados ao aumento do risco de desenvolver transtornos psiquiátricos ao longo da adolescência.

Veja também: Pesquisadores geram camundongos com cérebro em parte humano

“A violência vai ameaçar diretamente a sensação de segurança que essa criança tem. A exclusão social atinge outra dimensão, mas também central, que é essa sensação de pertencer”, afirmou Thiago Andrade Pedrosa.

Em sentido oposto, a presença de elementos ligados a uma vida comunitária e organizada nas entrevistas funcionou como indicador de proteção. Jovens cujas narrativas mencionavam escola, esportes, dança, clubes, atividades extracurriculares, rede de apoio, adultos de referência e acesso a profissionais de saúde mental apresentaram menor risco de desenvolver transtornos nos seis anos seguintes. Embora não impeçam por conta própria o surgimento de doenças, esses fatores indicam convivência social e previsibilidade na rotina.

Para pais e responsáveis, a orientação médica é vigiar alterações persistentes em relação ao comportamento habitual dos filhos, que sinalizam a necessidade de buscar avaliação de profissionais de saúde mental. Os sinais de alerta na infância e na adolescência incluem isolamento, perda de interesse por atividades de que o jovem gostava, queda no rendimento escolar, mudanças duradouras no sono ou na alimentação, irritabilidade intensa e demonstrações de desesperança. “Mais do que procurar uma palavra específica, a gente precisa oferecer espaço para que a criança e o adolescente se sintam seguros e contem suas experiências”, declarou o médico.