Três consultas públicas abertas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) em Brasília sobre a faixa de radiofrequência de 6 GHz colocam em lados opostos provedores regionais de internet e operadoras de telefonia móvel. A disputa ocorre após a agência reservar quase 60% desse espectro para redes móveis como o 5G e o futuro 6G, restringindo o espaço destinado aos roteadores Wi-Fi residenciais e comerciais.
Os provedores de internet banda larga tentam reverter a perda de espaço nas discussões do edital do leilão móvel, previsto para 2028, e pedem o uso compartilhado da frequência. “Temos associados entregando internet com 10 gigabits por segundo na casa dos assinantes. Se ele não tiver capacidade ali dentro de casa, [usando a faixa mais alta] para entregar mais velocidade, a gente vai morrer na praia”, afirmou Breno Vale, presidente da Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint).
Como a Anatel dividiu a faixa de 6 GHz entre Wi-Fi e redes móveis?
Anteriormente, a Anatel havia destinado a totalidade do espectro de 6 GHz para uso não licenciado, focado no Wi-Fi, mas recuou e reverteu a decisão em 12 de agosto de 2026. Por meio do Acórdão nº 203 e do Ato nº 10.400, o Conselho Diretor da agência determinou a divisão da faixa, estipulando que os novos limites técnicos para certificação e operação de equipamentos Wi-Fi passam a ser obrigatórios em 1º de março de 2027.
- Extensão total da faixa de 6 GHz: 1.200 MHz, indo de 5.925 MHz a 7.125 MHz.
- Subfaixa inferior para uso não licenciado (roteadores Wi-Fi): 500 MHz, operando de 5.925 MHz a 6.425 MHz.
- Subfaixa superior para o Serviço Móvel Pessoal (redes 5G e futuro 6G): 700 MHz, operando de 6.425 MHz a 7.125 MHz.
- Velocidade projetada para o futuro 6G nessa frequência: de 10 a 20 gigabits por segundo, com latência (tempo de resposta) cinco vezes menor que a do 5G.
Quanto maior a largura de banda disponível na radiofrequência, maior a capacidade das empresas de entregar conexões rápidas aos clientes dentro de residências e escritórios. Em posicionamento enviado à Anatel, a Dynamic Spectrum Alliance (DSA), organização global presidida por Martha Suarez que defende o acesso dinâmico ao espectro, declarou que “sem a faixa integral de 6 GHz, o investimento massivo dos ISPs em redes de fibra perde eficiência na ponta final”, referindo-se aos provedores de serviços de internet.
Saiba mais: Wi-Fi lento? O vilão escondido na sua casa que bloqueia o sinal da internet
Disputa entre Abrint e Conexis pelo sistema AFC na faixa de 6 GHz
Para evitar a perda de capacidade nos roteadores conectados à fibra óptica, a Abrint — que também tem atuação da conselheira Cristiane Sanches — e a DSA defendem nas consultas públicas o compartilhamento da porção superior da faixa de 6 GHz entre redes móveis e Wi-Fi. A proposta prevê o uso oportunístico da frequência enquanto ela não for ocupada pelas operadoras móveis, utilizando os Sistemas de Coordenação Automatizada de Frequências (AFC, software embutido no roteador que verifica sinais em tempo real e gerencia canais para evitar interferências).
Veja também: OPPO Find X10 Pro Max recebe homologação da Anatel no Brasil
A Conexis Brasil Digital, entidade que representa as grandes operadoras de telefonia móvel, rejeita a divisão do espaço superior com os roteadores. O presidente-executivo da Conexis, Marcos Ferrari, argumenta que a regra definida pela Anatel em agosto segue protocolos internacionais e que a maior demanda futura virá da telefonia móvel, sugerindo que a conexão interna em imóveis seja atendida pela tecnologia FWA (Acesso Fixo Sem Fio, em que um modem capta o sinal direto da antena móvel sem usar cabos). “Nós entendemos que [o compartilhamento] não convém, uma vez que a faixa é destinada para o móvel, então não faz sentido mesclar dentro do móvel também [essa] possibilidade”, disse Ferrari, acrescentando que “talvez haja uma falta de compreensão em relação ao que já foi decidido”.
Saiba mais: Como saber a senha do Wi-Fi que você está usando no celular ou PC
Avaliação técnica da Anatel sobre interferências na faixa de 6 GHz
Na Anatel, presidida por Carlos Baigorri, a viabilidade técnica do uso simultâneo do espectro ainda enfrenta ressalvas. O conselheiro da agência e relator do processo sobre a faixa de 6 GHz, Alexandre Freire, informou que os levantamentos técnicos apontaram problemas na convivência direta das redes. “Os testes realizados até agora pela agência e por instituições parceiras indicaram que, nas condições avaliadas, o compartilhamento do mesmo canal entre wi-fi e rede móvel provoca interferência prejudicial nos dois sistemas”, declarou o relator.
Saiba mais: Anatel certifica fone Galaxy Buds On da Samsung no Brasil
Freire ressalvou, contudo, que a agência criou um ambiente regulatório experimental (conhecido como sandbox, espaço de testes com regras controladas) para continuar avaliando novas soluções tecnológicas. “Portanto, o AFC não está fora da discussão sobre o futuro da faixa de 6 GHz […]. Se mecanismos de coordenação automática demonstrarem, em testes e condições reais, que conseguem assegurar a convivência entre diferentes tecnologias sem comprometer a qualidade e a previsibilidade das redes, esses resultados naturalmente passarão a integrar a avaliação regulatória da agência”, afirmou o conselheiro.
A definição do espectro impacta diretamente o planejamento do futuro 6G, que ainda não tem protocolos totalmente fechados, mas prevê maior densidade de aparelhos conectados e gestão de rede por algoritmos de inteligência artificial. Para Carlos Nazareth, professor e diretor do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), “sempre as disputas por banda de frequência acabam impactando nas gerações de tecnologias que estão em operação e nas tecnologias que estão por vir”. Segundo o diretor, “cabe à Anatel analisar qual o maior número de usuários ou qual o maior benefício alcançado pelos usuários, e a partição dessa banda ou dedicação [completa] para um serviço ou outro”.
Prazos e audiências das consultas públicas da faixa de 6 GHz
A proposta de edital para o leilão móvel (Consulta Pública nº 37/2026) prevê que as empresas vencedoras cumpram contrapartidas de investimento em infraestrutura de dados no país, incluindo suporte a data centers, Edge Data Centers (centros de processamento próximos ao usuário) e CDNs (redes de distribuição de conteúdo). Já as Consultas Públicas nº 41/2026 e nº 42/2026, abertas em 25 de setembro de 2026, tratam dos requisitos técnicos para Wi-Fi de potência padrão (Standard Power) e do sistema AFC em ambientes externos (outdoor) na subfaixa inferior.
- Sexta-feira, 16 de outubro de 2026, das 9h às 12h: primeira audiência pública presencial sobre a Consulta Pública nº 37/2026, em Brasília (DF), com transmissão pelo YouTube.
- Quarta-feira, 21 de outubro de 2026, das 14h às 17h: segunda audiência pública presencial sobre a Consulta Pública nº 37/2026, em São Paulo (SP), também transmitida pelo YouTube.
- Sexta-feira, 23 de outubro de 2026: encerramento do prazo para envio de contribuições à Consulta Pública nº 37/2026 sobre o edital do leilão móvel.
- Quinta-feira, 3 de dezembro de 2026: término do prazo de 70 dias para envio de contribuições às Consultas Públicas nº 41/2026 e nº 42/2026 sobre Wi-Fi externo e sistema AFC.
