Centenas de geoglifos do Acre escavados há mais de 2.500 anos por povos pré-colombianos no leste do estado seguem como foco de pesquisas científicas sobre o manejo ancestral da Amazônia e aguardam avaliação na Lista Indicativa do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) nesta quarta-feira, 14 de outubro de 2026. As estruturas de terra, que passaram séculos ocultas sob a mata e ficaram visíveis com o avanço do desmatamento a partir do fim da década de 1970, somam 462 registros oficiais feitos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), com estimativa de mais de 1.000 identificadas.
Esses recintos são formados por valetas — fossos escavados no solo — e muretas baixas que desenham figuras geométricas como círculos, quadrados, retângulos, elipses, octógonos e formas em U. No dossiê submetido em 2015 pelo Brasil à UNESCO, que contabilizava à época 306 sítios arqueológicos e 410 estruturas de terra, o documento afirma, em tradução livre, que “as estruturas de terra do tipo geoglifo são a evidência mais durável, visível e significativa da presença de povos indígenas no Acre”. Apesar do volume de locais catalogados, menos de 20 deles foram estudados em profundidade pelo IPHAN.
Escala das valetas e engenharia indígena nos geoglifos do Acre
As medições em campo demonstram que as valetas dos geoglifos alcançam até 11 metros de largura, medida equivalente à de uma rua de mão dupla. A profundidade original dos fossos chegava a variar de 2 metros a 4 metros — altura suficiente para encobrir uma pessoa adulta em pé —, mas encontra-se hoje em cerca de 1,4 metro devido ao processo natural de sedimentação ao longo dos séculos. Em alguns sítios arqueológicos, os construtores distribuíram até seis recintos lado a lado, formando complexos geométricos no terreno.
Toda a movimentação do solo argiloso ocorreu sem o emprego de ferramentas de metal, utilizando apenas machados de pedra e pás de madeira para abrir os fossos e erguer as muretas nos pontos mais altos do relevo, frequentemente na borda de platôs com vista ampla do entorno, perto de nascentes, igarapés e áreas alagáveis ligadas aos rios Acre e Iquiri. Na obra “Geoglifos: paisagens da Amazônia Ocidental“, a antropóloga e arqueóloga pioneira na área Denise Pahl Schaan (1962-2018) explicou a exigência técnica dessas obras: “O trabalho envolvido em sua construção, por parte de grupos indígenas que ali viveram há dois mil anos, sem a ajuda de modernas ferramentas para escavar e transportar toneladas de solo, indica que teria sido necessário um esforço coordenado de muitos braços, instruídos para a construção de gigantescas estruturas cuja precisão geométrica e consistência de medidas indicam planejamento meticuloso.”
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Estudo na revista PNAS sobre manejo florestal de 6 mil anos no Acre
A forma como essas populações alteraram o solo sem destruir a selva ao redor foi detalhada em um estudo publicado em 6 de fevereiro de 2017 na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), que contou com a participação da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Acre (UFAC) e da Universidade de Reading, no Reino Unido. A análise reconstituiu a história ambiental de uma área de 13 mil km² ocupada por mais de 450 estruturas conhecidas até aquele ano no sudoeste da Amazônia Ocidental e comprovou que a região era coberta por uma floresta nativa de bambu há pelo menos 6 mil anos. Em vez de queimar ou derrubar grandes extensões de mata para erguer os monumentos ou cultivar alimentos, os povos indígenas abriam apenas clareiras pequenas e temporárias, promovendo um manejo florestal lento que favorecia a concentração de espécies vegetais úteis para o consumo e uso humano, a exemplo das palmeiras.
Registros desde 1977 e rituais nas estruturas de terra do Acre
O conhecimento científico sobre os geoglifos do Acre começou em 1977, quando o arqueólogo e pesquisador Ondemar Dias Júnior localizou oito estruturas no estado durante trabalhos do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas da Bacia Amazônica (Pronapaba), programa federal voltado ao mapeamento arqueológico da região. A real dimensão do conjunto, porém, só apareceu a partir do final dos anos 1970 e durante a década de 1980, à medida que a derrubada moderna da floresta expôs o solo e permitiu que o geógrafo, paleontólogo e professor da UFAC Alceu Ranzi identificasse as figuras geométricas em sobrevoos.
Os levantamentos arqueológicos indicam que o período de construção e ocupação dos recintos ocorreu entre 200 a.C. e 1300 d.C., faixa compatível com pesquisa divulgada pela Universidade de Helsinque, na Finlândia, que situa o uso entre cerca de 3 mil e mil anos atrás. Chamados por indígenas contemporâneos de “tatuagens da terra”, esses locais continuam sendo tratados por comunidades originárias do Acre como áreas sagradas, evitadas para fins de moradia ou plantio. A ciência aponta que os espaços tinham finalidade coletiva, cerimonial, simbólica e ritualística, com possíveis vínculos com grupos das famílias linguísticas Arawak e Takana, como os povos Manchineri e Apurinã. Ainda assim, a autoria exata por um povo específico e a função detalhada de cada formato geométrico continuam em aberto nas pesquisas científicas.
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Tombamento do Sítio Arqueológico Jacó Sá próximo a Rio Branco e ameaças
Perto da capital Rio Branco, o Sítio Arqueológico Jacó Sá abriga o exemplo mais conhecido e aberto à visitação na região. Com idade estimada em cerca de 2.500 anos e um desenho composto por um círculo inserido em um quadrado que lembra o formato da bandeira do Brasil, o local foi tombado pelo IPHAN em 9 de novembro de 2018, tornando-se o primeiro geoglifo reconhecido oficialmente como patrimônio cultural do país. Edmar Queiroz, morador da propriedade onde fica o sítio e filho de Jacó Sá, descreveu o método observado no terreno: “O barro do geoglifo foi tirado e jogado todo para fora da estrutura, nada para dentro.”
Para os visitantes que percorrem as cercanias de Rio Branco, a leitura completa dos desenhos geométricos ocorre em sobrevoos ou com o acompanhamento de guias locais, já que a dimensão das valetas nem sempre permite perceber o formato integral a partir do nível do chão. Embora todos os sítios arqueológicos do país tenham proteção federal garantida pela Lei nº 3.924, de 26 de julho de 1961 — legislação que proíbe a destruição ou mutilação de monumentos pré-históricos —, o dossiê submetido à UNESCO alerta que os geoglifos do Acre estão localizados nas principais zonas produtivas do estado, ficando expostos a riscos constantes causados pela pecuária extensiva, pela abertura de estradas e pelo avanço do desmatamento.
