Amazônia registra menor área de desmatamento anual em 2025

8 min de leitura
Desmatamento na Amazônia - iParalaxis/stockphoto.com Foto: Desmatamento na Amazônia - iParalaxis/stockphoto.com

A Coleção 11 do MapBiomas aponta que a Amazônia brasileira registrou 693 mil hectares de desmatamento ao longo de 2025. O índice, divulgado em 14 de outubro de 2026 pela rede colaborativa de mapeamento do uso da terra, representa a menor área anual de supressão de vegetação em toda a série histórica iniciada em 1985.

Do total suprimido no ano passado, 639 mil hectares (92%) corresponderam à perda de vegetação primária, que é a cobertura nativa intocada, enquanto 54 mil hectares eram de vegetação secundária, áreas que já haviam sofrido modificação anterior pela ação humana. O engenheiro florestal e pesquisador do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) e da equipe Amazônia do MapBiomas, Bruno Ferreira, avalia que o resultado abrange formações florestais, campos e savanas, acompanhando a tendência de queda verificada pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes). “A redução observada nos últimos anos ocorre em um contexto de retomada e fortalecimento das políticas de prevenção e controle, com ações de fiscalização, monitoramento por satélite e ordenamento territorial”, afirmou o pesquisador.

Avanço de 440% da agropecuária e da mineração na Amazônia entre 1985 e 2025

Embora o recorte anual de 2025 tenha apresentado o menor patamar de destruição em quatro décadas, o balanço acumulado de 41 anos revela uma transformação extensa na paisagem do bioma entre 1985 e 2025, período em que a Amazônia perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa, sendo 49,7 milhões de hectares (-14,8%) apenas na classe de formação florestal, que respondeu por 96% da perda nativa total. Ao longo dessas quatro décadas, a conversão acumulada de vegetação para usos humanos cresceu 492%, atingindo 74,6 milhões de hectares, impulsionada principalmente pela expansão de 440% na área destinada à agropecuária em todo o território amazônico.

As pastagens figuraram como o destino principal das áreas recém-abertas, sendo o primeiro uso registrado em 77% dos casos logo após a derrubada da vegetação nativa. No intervalo de 1985 a 2025, a área de pasto cresceu 556% e consolidou-se sobre 37,7 milhões de hectares antes florestados, chegando ao fim da série com um total de 50,8 milhões de hectares ocupados, o equivalente a 12% de todo o bioma.

Veja também: UE suspende importações de carnes do Brasil nesta quinta-feira; entenda os motivos

A agricultura, por sua vez, saltou de 161 mil hectares em 1985 para 8,6 milhões de hectares em 2025 (cerca de 2% do bioma), puxada pelo plantio de soja, que passou de 1,4 mil hectares para 7 milhões de hectares no mesmo período. Já a área ocupada pela mineração na Amazônia multiplicou-se por quase 14 vezes em 41 anos, passando de 32 mil hectares em 1985 para 440 mil hectares em 2025, com 47% desse total acumulado tendo sido aberto apenas nos últimos dez anos.

Confira também: Brasil reforça economia e saúde em 2026, superando tarifas de Trump e avançando na vacinação infantil

Pressão de 618 mil quilômetros de estradas sobre o bioma Amazônia

Para entender a dinâmica de ocupação do solo, o estudo cruzou os mapas anuais do MapBiomas com as bases de dados viários do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e da plataforma de mapeamento colaborativo OpenStreetMap, contabilizando inclusive ramais que não integram a malha rodoviária oficial. O cruzamento identificou 618 mil quilômetros de estradas espalhados pela Amazônia, dos quais 41,5 mil quilômetros estão traçados no interior de áreas protegidas, funcionando como vetores diretos para a entrada de exploração madeireira e ocupação irregular em regiões antes isoladas.

Acompanhe: MP para renegociação de R$ 100 bilhões em dívidas rurais é pacto possível, diz deputado, com impacto de R$ 4 bilhões

Nos territórios situados em uma faixa de até 5 quilômetros das vias mapeadas, a agropecuária já ocupa 40,2% da superfície (63 milhões de hectares), restando 56,7% de vegetação nativa. Quando o raio de análise é ampliado para 20 quilômetros a partir das estradas, a participação da agropecuária recua para 26,7% e a cobertura nativa sobe para 69,3%.

“A expansão das estradas não representa apenas a abertura de novos caminhos de circulação. Ela também amplia o acesso a áreas antes mais isoladas e pode facilitar a chegada de diferentes atividades e formas de ocupação do território”, declarou Bruno Ferreira. O recorte no raio de 20 quilômetros das principais rodovias federais mostra que a agropecuária ocupa 43,5% do entorno da BR-364 e 39% ao longo da BR-163, enquanto na BR-319 a vegetação nativa ainda cobre 86% do território, contra 14% de uso agropecuário.

Terras Indígenas e unidades de conservação mantêm 98% de cobertura nativa na Amazônia

O levantamento comprovou o efeito de contenção exercido pelos territórios demarcados: somando Terras Indígenas, Unidades de Conservação e territórios quilombolas, a cobertura de vegetação nativa preservada chega a 98%. Isoladamente, as Terras Indígenas registraram 98,9% de preservação em 2025, índice que contrasta com os imóveis rurais privados, onde a agropecuária ocupa 38,8% da área, e com as terras públicas ou sem registro fundiário georreferenciado, que mantêm 76,4% de mata nativa e 21,5% de ocupação agropecuária.

Nas bordas externas das áreas protegidas, contudo, o cerco avançou de forma acelerada. Na faixa de amortecimento de até 5 quilômetros no entorno imediato desses territórios, a agropecuária cresceu 561% entre 1985 e 2025, passando a dominar 31% dessa zona limítrofe, o que corresponde a 13,6 milhões de hectares convertidos.

“As estradas facilitam o acesso a áreas de vegetação nativa, favorecendo processos de ocupação e conversão da terra. No entorno e no interior das áreas protegidas, essa pressão pode se refletir na expansão da agropecuária, da mineração e de outras atividades que modificam a cobertura e o uso da terra”, disse Bruno Ferreira. O pesquisador integrante da equipe da Amazônia do MapBiomas, Ives Brandão, ressaltou que a aproximação dessas frentes exige políticas de proteção constantes para sustentar as barreiras florestais.

Desigualdade regional na Amazônia e índices de preservação por estado

A perda de cobertura florestal ocorreu de forma desigual entre as sub-regiões do bioma. Na fronteira conhecida pela sigla Amacro — que reúne municípios do Amazonas, Acre e Rondônia —, a vegetação nativa encolheu 16% desde 1985, com a supressão de cerca de 7 milhões de hectares, dos quais 2,7 milhões de hectares foram desmatados na década entre 2015 e 2025. Embora represente 11% da extensão da Amazônia, a Amacro concentrou 13% de todo o desmatamento acumulado na série histórica e viu sua área de pastagem ficar cerca de 15 vezes maior, somando 6,6 milhões de hectares adicionais.

Considerando exclusivamente a parcela territorial de cada estado inserida nos limites do bioma Amazônia em 2025, a proporção de vegetação nativa remanescente apresenta fortes contrastes estaduais:

  • Amapá: 95,5% de vegetação nativa preservada
  • Amazonas: 94,6% de vegetação nativa preservada
  • Roraima: 92,3% de vegetação nativa preservada
  • Acre: 84,2% de vegetação nativa preservada
  • Mato Grosso: 61,7% de vegetação nativa preservada
  • Rondônia: 59,1% de vegetação nativa preservada
  • Maranhão: 49,8% de vegetação nativa preservada
  • Tocantins: 24,6% de vegetação nativa preservada

Regeneração de 7,3 milhões de hectares e comparação com alertas do RAD 2025

O mapeamento de longo prazo também monitorou o comportamento da vegetação secundária em regeneração na Amazônia, que atualmente ocupa 7,3 milhões de hectares (cerca de 2% da cobertura nativa do bioma) e avança a um ritmo médio de 180 mil hectares por ano. Na avaliação de Bruno Ferreira, embora a coincidência temporal entre a queda do desmatamento e as ações governamentais não permita atribuir o recuo de 2025 a uma única medida isolada, os números reforçam a necessidade de considerar as políticas públicas na leitura das tendências de conservação.

A trajetória de queda identificada na Coleção 11 converge com outro levantamento recente da instituição, de metodologia distinta. No Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD 2025), divulgado em maio de 2026 pelo sistema MapBiomas Alerta — que contabiliza alertas de supressão validados em alta resolução desde 2019 —, o Brasil já havia registrado recuo de 20,6% na área desmatada em 2025 na comparação com 2024, somando 984.794 hectares em todo o país, com retração de 23,5% nos alertas validados especificamente na Amazônia.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

Notícias relacionadas