Geoglifos revelam civilização de até 3 milhões de pessoas na Amazônia

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Brasil tem redução dos alertas de desmatamento na Amazônia e no Cerrado Foto: Brasil tem redução dos alertas de desmatamento na Amazônia e no Cerrado Crédito: Brasil tem redução dos alertas de desmatamento na Amazônia e no Cerrado

Pesquisadores internacionais mapearam 432 estruturas monumentais de terra ocultas sob a vegetação no Acre e no sul do Amazonas, das quais 396 eram totalmente desconhecidas pela ciência. O levantamento indica que a chamada civilização Aquiry abrigou entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas no território amazônico durante seu apogeu.

O estudo científico intitulado “Over 20,000 precolonial earthworks in the Southwest Amazonia” foi publicado no periódico científico Nature em 29 de julho de 2026. A pesquisa utilizou a tecnologia LiDAR, um sistema de varredura por pulsos de raio laser aerotransportado capaz de penetrar a copa das árvores e gerar modelos tridimensionais detalhados da superfície do solo sem necessidade de desmatamento.

Tecnologia LiDAR desvenda obras da civilização Aquiry

Amazônia
Foto: Amazônia – Ammit Jack/shutterstock.com

A investigação reuniu especialistas da Universidade de Helsinque e da Universidade de Turku, na Finlândia, do Instituto Iberoamericano da Finlândia, na Espanha, além da Universidade Federal do Acre (UFAC) e da Universidade Federal do Pará (UFPA). Para obter o mapa das formações, os pesquisadores sobrevoaram 4.430 quilômetros lineares e cobriram uma área exata de 4.497 quilômetros quadrados entre áreas acreanas e amazonenses.

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“Essa foi a primeira avaliação com LiDAR ambiciosa na Amazônia“, afirmou o arqueólogo e antropólogo Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque e líder da pesquisa internacional.

As análises indicam que os geoglifos foram erguidos entre os anos 600 a.C. e 850 d.C., com o período de maior adensamento demográfico registrado entre 100 e 300 d.C. Com base nos dados amostrais da tecnologia a laser e em imagens de satélite complementares, os cientistas projetam que a civilização Aquiry ocupava um território de 183 mil quilômetros quadrados no sudoeste amazônico, espaço onde podem existir entre 24 mil e 30 mil obras de terra ainda preservadas.

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Como os geoglifos foram construídos na floresta amazônica?

Os geoglifos são valas profundas contornadas por muretas que formam figuras geométricas monumentais, com traçados que atingem entre 400 e 500 metros de diâmetro. As escavações na terra firme exigiram conhecimentos elaborados de topografia, matemática e organização de trabalho coletivo, já que o terreno não conta com pedras e todo o manejo dependia de ferramentas de madeira e cestarias.

“Esse povo fazia geometria monumental na Amazônia ao mesmo tempo que Pitágoras desenvolvia seu teorema na Grécia”, disse o paleontólogo e geógrafo Alceu Ranzi, professor aposentado da Universidade Federal do Acre e presidente do Instituto Geoglifos da Amazônia. Segundo ele, as escavações de terra nas estruturas atingiam dimensões expressivas no relevo local: “A maioria são valas, e elas variam de tamanho. Há valas de até 15 metros de largura e cinco metros de profundidade”.

As estimativas dos pesquisadores apontam que comunidades formadas por cerca de 300 indivíduos conseguiam abrir e modelar um recinto monumental em aproximadamente um ano de esforço concentrado, sem o auxílio de animais de tração ou ferramentas de metal.

Função cerimonial e malha de estradas da civilização Aquiry

Diferentemente das primeiras suposições arqueológicas, que cogitavam fortificações militares para defesa contra invasores, as escavações de campo confirmaram que os geoglifos funcionavam como centros cívicos, políticos e rituais mantidos limpos continuamente pelas populações regionais.

Os recintos eram conectados por uma rede viária planejada que aumentava de largura conforme se aproximava das grandes praças geométricas. A equipe identificou que os caminhos contavam com estrutura semelhante a avenidas cerimoniais interligadas aos núcleos habitacionais rurais dispersos.

“Nós mapeamos 350 km de estradas que conectam os geoglifos”, declarou Alceu Ranzi ao descrever o sistema de integração entre os sítios arqueológicos no Acre e no Amazonas.

Segundo o arqueólogo e antropólogo Rhuan Carlos Lopes, da Universidade Federal do Pará e coautor do estudo, o manejo florestal desses povos reconfigura o entendimento sobre a natureza local: “O que a gente vê na Amazônia não é uma grande floresta natural, mas, sim, um grande jardim construído historicamente”. Pärssinen reforçou que os habitantes antigos cultivavam mandioca, feijão, milho e abóbora sem converter a mata densa em savana.

Cronologia da pesquisa sobre a civilização Aquiry

  • 6 de junho de 2024: início dos sobrevoos com sensor LiDAR nas faixas do Acre e do Amazonas
  • 1 de julho de 2024: encerramento da campanha de coleta de dados aéreos na região sul-ocidental
  • 29 de julho de 2026: publicação do artigo científico no periódico acadêmico Nature
  • 30 de setembro de 2026: detalhamento público das descobertas pela equipe internacional de arqueologia

Revisão histórica sobre a ocupação humana na Amazônia pré-colombiana

Durante décadas, teorias clássicas da arqueologia defendiam que o bioma amazônico original abrigava no máximo entre 1 milhão e 2,5 milhões de habitantes antes da chegada dos europeus, com comunidades pequenas restritas às margens dos rios navegáveis para pesca e transporte em canoas. Análises posteriores elevaram esse número para uma faixa entre 5 milhões e 10 milhões de pessoas em toda a bacia.

A constatação de que apenas uma fração territorial de 183 mil quilômetros quadrados, equivalente a menos de 3% da Grande Amazônia, concentrou até 3 milhões de pessoas altera esses parâmetros demográficos. O povoamento ocorreu com densidade expressiva na terra firme, longe das calhas fluviais principais, com caminhos terrestres consolidados e uso sistemático do solo.

Dimensões e indicadores da civilização Aquiry

  • 432 estruturas monumentais identificadas nos voos de mapeamento
  • 396 recintos de terra registrados pela primeira vez no sudoeste da Amazônia
  • 36 sítios arqueológicos já conhecidos que foram reexaminados com o sensor a laser
  • 183 mil quilômetros quadrados de extensão calculada para a área da cultura Aquiry
  • 24 mil a 30 mil obras de terra estimadas para todo o território ocupado pelo grupo
  • 1,25 milhão a 3 milhões de pessoas calculadas durante o auge da sociedade regional

A causa exata do colapso e do abandono das construções monumentais pelos Aquiry por volta de 850 d.C. permanece uma incógnita em aberto. Os cientistas investigam hipóteses ligadas a mudanças climáticas regionais ou crises ambientais semelhantes às que atingiram os centros urbanos maias na América Central durante o mesmo século.

Os próximos passos do trabalho científico envolvem novas escavações estratigráficas de campo nas áreas recém-identificadas pelo LiDAR para detalhar a cronologia das cerâmicas e coletar amostras orgânicas subterrâneas preservadas nos sítios do Acre e do sul do Amazonas.

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