Inteligência artificial na saúde mental cria falsa sensação de eficiência e não substitui psicoterapia

Empresário olhando imagem de inteligência artificial - Gorodenkoff / shutterstock.com

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A psicóloga Adriana de Araújo, registrada no Conselho Regional de Psicologia sob o número 56802/SP, publicou nesta quarta-feira (14) uma análise clínica demonstrando que a inteligência artificial não substitui a psicoterapia. O levantamento aponta que o acolhimento imediato e a concordância programada dos algoritmos criam uma falsa sensação de eficiência nos usuários, pois as ferramentas digitais não realizam investigação clínica, formulação de diagnóstico nem confronto terapêutico.

Embora os sistemas automatizados ajudem a organizar pensamentos, identificar possibilidades e elaborar perguntas sobre emoções e comportamentos do dia a dia, a interação com máquinas carece de método científico voltado ao tratamento. “Mas a disponibilidade imediata e a facilidade de interação com uma IA podem produzir uma falsa sensação de eficiência que não corresponde necessariamente à profundidade de uma mudança psicológica. Importante ter em mente que uma resposta convincente não é, por si só, uma intervenção clinicamente adequada”, afirmou a psicóloga Adriana de Araújo.

Limites da inteligência artificial diante das etapas do tratamento clínico

Quem busca apoio em plataformas automatizadas para relatar angústias e pedir conselhos encontra respostas rápidas, mas deixa de passar pelas fases estruturais de um acompanhamento profissional. O processo psicoterapêutico conduzido em consultório exige uma avaliação contínua que vai além do simples desabafo momentâneo sobre sentimentos.

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Foto: psicólogo – Foto: Kmpzzz/Shutterstock.com

Durante o tratamento formal, o profissional de psicologia executa etapas técnicas que os programas de computador não conseguem reproduzir, tais como a compreensão detalhada dos sintomas, a análise da percepção e dos mecanismos de defesa do paciente sobre as próprias escolhas e consequências, o estudo das dinâmicas relacionais, a investigação clínica da história individual e a formulação de hipóteses diagnósticas. O trabalho humano também abrange a identificação de padrões emocionais e comportamentais repetitivos, a psicoeducação, o letramento emocional, a indicação de avaliações com outros especialistas em atuação multiprofissional e o monitoramento das transformações ao longo do tempo.

Diferentemente dos algoritmos projetados para validar o discurso de quem escreve, a atuação clínica requer questionamentos técnicos diante de relatos inconsistentes. “Além disso, o psicólogo não está ali apenas para concordar, acolher ou oferecer soluções. Em determinados momentos, o trabalho envolve confrontar contradições, reconhecer mecanismos de defesa e ajudar o paciente a perceber aquilo que ainda não consegue enxergar sozinho”, declarou Adriana de Araújo.

A especialista acrescentou que a prática presencial ou mediada por profissionais habilitados preserva elementos insubstituíveis na área da saúde. “A psicologia continua oferecendo aquilo que justifica sua existência: cuidado individualizado, competência clínica, responsabilidade ética, trabalho multiprofissional, possibilidades reais de transformação, entre outros”, disse a autora da análise publicada em 14 de outubro de 2026.

Proibição de chatbots pelo Conselho Federal de Psicologia e riscos à saúde

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A distinção entre o bate-papo automatizado e o atendimento de saúde é respaldada pelas normas regulatórias vigentes no Brasil. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) estabelece que a psicoterapia exige interação humana direta e constitui uma atividade privativa de psicólogos com registro ativo no respectivo Conselho Regional de Psicologia (CRP).

Na cartilha intitulada Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável, o órgão regulador proíbe expressamente a substituição do profissional pela máquina. “No campo da Psicoterapia e Processos Clínicos, em decorrência dos potenciais riscos, não devem ser usados assistentes virtuais, chatbots, avatares ou robôs para condução autônoma de psicoterapia ou intervenções”, determinou o Conselho Federal de Psicologia no documento.

A presidente do Conselho Federal de Psicologia, Alessandra Santos de Almeida, reforçou a ausência de base científica para tratamentos conduzidos por softwares. “Não existem evidências de que possa haver psicoterapia realizada por IA. Porque a IA não foi programada para isso”, afirmou a dirigente da autarquia.

Em posicionamento oficial voltado especificamente à relação entre chatbots e saúde mental, o Conselho Federal de Psicologia alertou que os sistemas de inteligência artificial apresentam falhas técnicas graves que colocam os usuários em perigo. Entre os problemas mapeados estão a superficialidade das análises, a geração de respostas com informações falsas ou inventadas — fenômeno conhecido na computação como alucinação —, a fragilidade na manutenção do sigilo dos dados fornecidos e a tendência algorítmica de concordar automaticamente com o interlocutor, comportamento classificado como bajulação. Por causa dessas características, o órgão considera as ferramentas inadequadas e perigosas para indivíduos em situação de crise aguda, pessoas com pensamentos suicidas, pacientes com traumas profundos ou portadores de transtornos mentais graves.

Regras para uso complementar na psicologia e histórico de falhas em testes

O debate sobre a regulamentação tecnológica na área clínica acumula diretrizes normativas e testes práticos nos últimos dois anos no país. O Conselho Federal de Psicologia editou a Resolução CFP nº 09/2024 em 18 de julho de 2024 para disciplinar o exercício profissional mediado por tecnologias digitais da informação e da comunicação. O texto obriga os psicólogos a garantirem sigilo e segurança no armazenamento de registros, mas a autarquia não detém competência legal para fiscalizar aplicativos de uso geral que são baixados por conta própria pela população fora de um contrato formal de atendimento.

Posteriormente, em 3 de julho de 2025, a entidade divulgou uma Nota de Posicionamento sobre os impactos e desafios da inteligência artificial na prática psicológica, seguida pelo lançamento do guia ético em 19 de dezembro de 2025. Pelas regras atuais, o uso da tecnologia pelos psicólogos é permitido apenas como recurso administrativo e complementar, a exemplo da transcrição de sessões e do auxílio na organização de prontuários. Para utilizar essas funções de apoio, o profissional precisa cumprir três exigências obrigatórias: obter o consentimento informado do paciente, assegurar a proteção de dados sensíveis e exercer supervisão crítica sobre todo o material processado pelo software.

Os perigos do uso autônomo dessas plataformas por pacientes sem supervisão humana ficaram evidentes em setembro de 2025, durante testes supervisionados pelo psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (USP) Christian Dunker. Na ocasião, uma ferramenta de inteligência artificial foi submetida a uma simulação na qual um usuário relatava sintomas físicos específicos. O sistema descartou a possibilidade de um infarto e diagnosticou o quadro clínico apenas como uma crise de ansiedade, episódio apontado por especialistas como uma demonstração prática do risco de falsos diagnósticos e do consequente atraso na busca por socorro médico de emergência.

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Janderson Luiz: Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol
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