Macacos-prego priorizam pistas sociais e ferramentas desgastadas na busca por alimento, indica estudo da USP

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Macaco prego comendo - Wirestock Creators/shutterstock.com Foto: Macaco prego comendo - Wirestock Creators/shutterstock.com

Pesquisadores da Universidade de São Paulo e do Instituto Max Planck comprovaram que macacos-prego priorizam pistas sociais deixadas por outros indivíduos, como marcas prévias de desgaste em pedras e restos de cascas em locais de alimentação, em vez das propriedades físicas dos minerais na hora de escolher suas ferramentas de trabalho. O experimento avaliou animais em ambiente natural e em cativeiro, revelando que os sinais indiretos deixados no ambiente superam até mesmo a rigidez e a eficácia mecânica do material disponível.

O estudo científico intitulado “Social cues on stone tools outweigh raw material properties in wild primates” foi publicado originalmente no periódico Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, com apoio financeiro da Max Planck Society e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. A apuração detalhada dos achados foi divulgada na terça-feira, 29 de setembro de 2026, pelo Jornal da USP, em reportagem da jornalista Hellen Indrigo, documentando como a transmissão cultural indireta atua na ecologia de primatas na América do Sul.

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Dados do experimento com primatas da USP e do Instituto Max Planck

  • Instituições responsáveis: Universidade de São Paulo (USP), Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva e Instituto de Biologia de Animais de Produção (FBN)
  • Populações avaliadas: Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, e Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo
  • Financiamento da pesquisa: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Sociedade Max Planck
  • Periódico de publicação científica: Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences
  • Data da publicação acadêmica: 5 de agosto de 2026
Macaco-prego
Foto: Macaco-prego – Jony Ito/Shutterstock.com

Escolha de ferramentas entre pedras novas e materiais desgastados

Para determinar quais critérios orientam a tomada de decisão dos macacos-prego, a equipe de cientistas comparou duas populações com históricos distintos: animais selvagens do Parque Nacional da Serra da Capivara, no sertão do Piauí, e indivíduos que vivem no Parque Ecológico do Tietê, na capital paulista. O objetivo principal do teste foi medir a sensibilidade dos primatas às propriedades mecânicas das pedras em comparação com a atratividade exercida por sinais de manipulação anterior.

Na primeira etapa do experimento, os pesquisadores apresentaram aos animais apenas pedras novas e limpas, sem qualquer vestígio biológico ou alteração causada por atrito. Nesse cenário controlado, os macacos-prego demonstraram capacidade de selecionar ferramentas conforme a dureza e características físicas adequadas para quebrar alimentos duros, identificando as rochas mais resistentes para a tarefa de forrageamento.

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“O que nos surpreendeu foi a consistência com que os macacos distinguiram entre os tipos de pedra com base puramente na dureza, sem uso visível anterior. Isso sugere que a seleção funcional de pedras não é apenas um hábito; demonstra uma consciência genuína das exigências físicas da tarefa”, declarou a pesquisadora Johanna Henke-von der Malsburg, do Instituto de Biologia de Animais de Produção e primeira autora do artigo científico, em tradução livre.

A dinâmica mudou completamente quando os cientistas colocaram lado a lado ferramentas novas e pedras com marcas evidentes de uso anterior. Diante da opção com marcas de impacto deixadas por outros primatas, os macacos-prego optaram sistematicamente pelas peças já utilizadas. Essa preferência persistiu mesmo quando a pedra gasta apresentava rigidez inferior ou desvantagens materiais evidentes em relação aos blocos intactos.

Salas de jantar e o aprendizado social indireto

Além das ferramentas individuais, os pesquisadores analisaram as chamadas “salas de jantar”, que consistem em áreas rochosas ou superfícies planas onde os primatas quebram frutos encapsulados. O experimento constatou que os macacos deram preferência ativa aos locais que já continham fragmentos de cascas e sujeira deixados por outros animais, em detrimento de superfícies perfeitamente limpas preparadas pela equipe científica.

Essa reação evidencia uma forma de aprendizado social indireto. Os animais não precisaram observar outro macaco-prego realizando a tarefa em tempo real para tomar uma decisão vantajosa de alimentação. A simples presença de detritos e cicatrizes minerais funcionou como um atalho comportamental suficiente para atrair a atenção do grupo e guiar suas escolhas práticas no terreno.

A investigação contou com a coordenação de Lydia V. Luncz, líder do grupo de pesquisa Technological Primates do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva e autora sênior do artigo. Segundo a equipe internacional, o mecanismo de pistas ecológicas reduz o tempo gasto na busca por utensílios adequados e diminui o custo energético associado à tentativa e erro.

Tradição milenar de 3.000 anos na Serra da Capivara

O uso rotineiro de ferramentas de pedra é um comportamento extremamente restrito na natureza. No mundo inteiro, apenas quatro grupos de primatas apresentam essa capacidade de forma regular: os seres humanos (Homo sapiens), os chimpanzés, os macacos-caranguejeiros (Macaca fascicularis) e os macacos-prego.

No continente americano, a população de macacos-prego que habita o Parque Nacional da Serra da Capivara possui o repertório de ferramentas mais diversificado e complexo entre primatas não humanos. O registro arqueológico na região comprova um período mínimo estimado de 3.000 anos de uso contínuo de ferramentas de pedra por esses animais para abrir alimentos e processar sementes nativas.

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Os levantamentos de campo na região piauiense são conduzidos desde 2007 pelo biólogo e primatólogo Tiago Falótico, atualmente professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo e coautor do estudo publicado. As atividades começaram durante o doutorado do pesquisador no Instituto de Psicologia da USP e documentaram outros comportamentos técnicos do grupo, como o uso de gravetos para retirar presas de frestas e o arremesso de pedras por fêmeas no período de cio para atrair parceiros reprodutivos.

“As ferramentas de pedra são as mais antigas que identificamos na linhagem humana, mas essa prática já não é observada hoje. Por isso, utilizamos outros primatas como modelo para comparar e entender os fatores que levam a essa evolução”, afirmou Tiago Falótico sobre os objetivos das investigações de longo prazo.

Acúmulos de pedras como memória externa na arqueologia

As conclusões obtidas com os macacos-prego fornecem subsídios diretos para arqueólogos que investigam os primórdios da evolução cultural na linhagem humana. A constatação de que animais são atraídos por modificações físicas prévias indica que os sítios líticos antigos ocupados por hominídeos primitivos podem ter funcionado historicamente como uma espécie de memória externa gravada na paisagem.

Nesse modelo interpretativo, o acúmulo contínuo de blocos fraturados, lascas e resíduos alimentares criava pontos de atração permanentes no espaço. A existência de um local visivelmente modificado dispensava a necessidade de comunicação direta entre gerações para que uma técnica de quebra de alimentos fosse mantida e propagada ao longo dos séculos.

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Variações entre filhotes e adultos seguem em apuração

Apesar dos resultados consistentes sobre a atratividade das marcas de uso, o estudo ainda não detalhou se a dependência das pistas visuais varia entre filhotes recém-nascidos e adultos que já acumularam histórico prévio de forrageamento independente. A equipe técnica mantém as análises comportamentais nas duas populações para verificar se indivíduos mais velhos mantêm a preferência social mesmo quando a ferramenta desgastada prejudica o sucesso na abertura de frutos específicos.

As próximas etapas do projeto na Serra da Capivara e no Parque Ecológico do Tietê vão monitorar a resposta dos primatas a diferentes graus de desgaste artificial induzido pelos pesquisadores nas rochas, a fim de calcular o limite exato no qual o prejuízo mecânico da pedra supera a atração exercidas pelas marcas sociais.

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