O diagnóstico de adenocarcinoma no Papa Leão XIV (Robert Francis Prevost), de 71 anos e não fumante, após uma cirurgia realizada em 13 de outubro de 2026 no Hospital Policlínico Agostino Gemelli, em Roma, acendeu um alerta médico sobre o avanço do câncer de pulmão em pessoas que nunca fumaram. Embora o tabagismo responda por até 70% das ocorrências segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 20% dos diagnósticos gerais e entre mulheres atingem pacientes sem histórico de fumo.
A confirmação do tumor do pontífice ocorreu durante uma cirurgia torácica videoassistida (procedimento minimamente invasivo guiado por câmera) para a retirada de um nódulo e do lobo inferior do pulmão direito, intervenção conhecida como lobectomia. “O principal fator de risco ainda é o cigarro, mas existe cada vez mais um número maior de pacientes que têm o diagnóstico de câncer de pulmão e que nunca fumaram, e aí a gente precisa entender quais foram os outros fatores pra isso acontecer”, afirmou Carlos Henrique Teixeira, oncologista e coordenador do núcleo de tumores torácicos do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Cirurgia do Papa Leão XIV no Hospital Gemelli e quadro clínico
Antes da operação em Roma, o Papa Leão XIV passou por uma tomografia computadorizada de tórax com contraste e por uma broncoscopia robótica com biópsia, exames que indicaram a necessidade da remoção cirúrgica. O procedimento foi conduzido pelo professor Stefano Margaritora, chefe de Cirurgia Torácica do Hospital Policlínico Agostino Gemelli, e não registrou complicações. Em boletim oficial divulgado pelo Vaticano, o médico pessoal do pontífice, Luigi Carbone, e o cirurgião Stefano Margaritora detalharam a análise feita durante a operação: “Um exame histológico intraoperatório confirmou o diagnóstico de adenocarcinoma pulmonar, conforme suspeitado nos exames pré-operatórios”, declararam, em tradução livre.
O adenocarcinoma identificado no pontífice faz parte do grupo de tumores de células não pequenas, categoria que representa 85% do total de casos de câncer de pulmão. Segundo o pneumologista Jeff McGovern, membro da Catholic Medical Association (associação médica católica dos Estados Unidos), “é a causa mais comum de câncer de pulmão em fumantes e não fumantes”. Já o oncologista John Heymach, do MD Anderson Cancer Center, em Houston, explicou que, “embora ainda seja muito perigoso, tem taxas de cura ligeiramente mais altas do que outros tipos de câncer de pulmão”.
A evolução clínica do líder da Igreja Católica desde a descoberta da lesão seguiu um cronograma monitorado pela equipe médica em Roma, com previsão inicial de uma semana de internação hospitalar:
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- Domingo, 11 de outubro de 2026: o Papa Leão XIV comunica aos fiéis que exames recentes identificaram um nódulo pulmonar contido e em estágio inicial;
- Terça-feira, 13 de outubro de 2026: o pontífice dá entrada no Hospital Gemelli às 13h (horário de Roma) e realiza a cirurgia à tarde, com duração aproximada de 90 minutos e permanência total de cerca de 3 horas no centro cirúrgico;
- Quarta-feira, 14 de outubro de 2026: exames de sangue e radiografia pós-operatória apresentam resultados normais, permitindo que o paciente caminhe e concelebre missa à tarde no 10º andar do hospital;
- Quinta-feira, 15 de outubro de 2026: o papa concelebra missa pela manhã na capela do 10º andar, cumpre sessão completa de fisioterapia e retoma parte da agenda à tarde em reunião com o arcebispo Paolo Rudelli, substituto para os Assuntos Gerais da Secretaria de Estado.
No boletim médico divulgado nesta quinta-feira (15), Luigi Carbone e Stefano Margaritora atualizaram o estado de saúde do paciente após novos testes de imagem. “A radiografia de tórax revelou boa recuperação do pulmão operado. No geral, sua recuperação pós-operatória está prosseguindo conforme o esperado”, informaram os médicos.
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Aumento de 79% nos casos de câncer de pulmão entre mulheres
O episódio envolvendo o pontífice motivou a médica Estelamari Rodriguez, diretora associada de Extensão Comunitária em Oncologia Torácica da Universidade de Miami, a atualizar uma análise científica publicada originalmente em 1º de fevereiro de 2023 sobre a transformação no perfil dos pacientes oncológicos. Nos últimos 15 anos, consultórios médicos têm registrado crescimento no número de diagnósticos em mulheres, jovens e indivíduos que nunca tiveram contato direto com o tabaco, fazendo com que a doença deixe de ser restrita ao perfil tradicional de homens idosos tabagistas.
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Dados da American Lung Association (organização norte-americana dedicada à saúde pulmonar) mostram que as taxas de câncer de pulmão subiram 79% entre as mulheres nos últimos 44 anos, enquanto caíram 43% entre os homens no mesmo intervalo. Pela primeira vez na série histórica, há mais mulheres jovens do que homens recebendo o diagnóstico da doença. O tumor pulmonar já é a principal causa de morte por câncer no público feminino, superando a soma anual de óbitos provocados pelos cânceres de mama, de ovário e colorretal.
Entre as pacientes que fumaram, pesquisas apontam que o início do hábito ocorreu mais tarde em relação aos homens e coincidiu com a popularização dos cigarros com filtro, que espalham a fumaça para as áreas externas dos pulmões e elevam o risco específico de adenocarcinoma. Mesmo entre quem não tem histórico de tabagismo ativo, fatores ambientais, ocupacionais e biológicos explicam o surgimento de tumores pulmonares:
- Exposição ambiental ao gás radônio, ao amianto, à poluição do ar e ao fumo passivo;
- Inalação de substâncias químicas no ambiente de trabalho, incluindo arsênico, berílio, cádmio, sílica e níquel;
- Histórico de doenças pulmonares crônicas prévias;
- Predisposição genética e histórico familiar, exemplificado no caso do pontífice pelo irmão mais velho, Louis Prevost, que revelou na terça-feira (13) estar em um ensaio clínico em Tampa, na Flórida, para tratar um mieloma múltiplo (câncer que afeta células da medula óssea).
Quem deve fazer o rastreamento do câncer de pulmão e quais os sintomas?
A detecção precoce permite que o tumor seja removido cirurgicamente em estágio inicial, mas esbarra na ausência de protocolos preventivos para quem nunca fumou. Em 2021, a Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos (USPSTF, painel independente de especialistas em prevenção e medicina baseada em evidências) atualizou suas diretrizes e passou a recomendar o exame anual de tomografia computadorizada de baixa dose apenas para adultos de 50 a 80 anos com histórico de 20 anos-maço (equivalente a fumar ao menos um maço por dia durante 20 anos) que continuam fumando ou pararam nos últimos 15 anos. Apesar de a mudança ampliar em 40% a estimativa de mulheres elegíveis ao incluir pacientes mais jovens, menos de 6% dos fumantes aptos realizam o rastreamento pulmonar nos Estados Unidos, índice distante dos mais de 70% registrados nos exames preventivos de câncer de mama.
Como não fumantes ficam fora das diretrizes de tomografia preventiva, os nódulos nesse grupo costumam ser descobertos por acaso durante exames de rotina ou investigações de outros problemas de saúde. Nas mulheres mais jovens, o diagnóstico também sofre atrasos porque sinais como tosse persistente, falta de ar, fadiga intensa e dores nas costas, no peito ou no ombro são frequentemente tolerados pelas pacientes ou atribuídos pelos médicos a outras condições clínicas. Pacientes que apresentem esses sintomas ou possuam fatores de risco ambientais e histórico familiar devem procurar atendimento médico com um pneumologista ou oncologista para avaliar a solicitação de exames de imagem e testes de biomarcadores genéticos (análises que identificam alterações moleculares no tumor para guiar terapias direcionadas e imunoterapias).
De acordo com a médica Juanita Mora, porta-voz da American Lung Association, a taxa de sobrevivência estimada varia de 80% a 90% quando o tumor está contido e não se espalhou pelo organismo. No caso do Papa Leão XIV, a equipe do Hospital Gemelli ainda aguarda a conclusão dos exames anatomopatológicos definitivos do tecido retirado na cirurgia para determinar o estadiamento exato do tumor, verificar se houve disseminação para os linfonodos (gânglios do sistema imunológico) e definir se o pontífice precisará de tratamentos complementares, como quimioterapia, radioterapia ou imunoterapia.
