O papa Leão XIV, de 71 anos, recebeu o diagnóstico de adenocarcinoma pulmonar nesta terça-feira (13), após passar por uma cirurgia no Hospital Universitário Policlínico Agostino Gemelli, em Roma, na Itália. A intervenção cirúrgica retirou o lobo inferior do pulmão direito do pontífice em um procedimento de aproximadamente 90 minutos, concluído sem complicações.
O boletim médico divulgado pela Sala de Imprensa da Santa Sé, assinado pelo médico pessoal do pontífice e chefe da Direção de Saúde e Higiene do Governadorato do Estado da Cidade do Vaticano, Luigi Carbone, e pelo professor Stefano Margaritora, detalhou a confirmação da doença. “O Santo Padre foi submetido, conforme programado, a uma cirurgia torácica. Para assegurar a radicalidade da intervenção, foi removido o lobo inferior do pulmão direito por meio de técnica videoassistida. O exame histológico intraoperatório confirmou o diagnóstico de adenocarcinoma pulmonar, conforme suspeitado pelos exames pré-operatórios”, informou o comunicado oficial.
Cirurgia de 90 minutos do papa Leão XIV no Hospital Gemelli
Nascido Robert Francis Prevost, o pontífice enfrenta a primeira internação hospitalar desde o início de seu pontificado, em 8 de maio de 2025. A equipe cirúrgica foi coordenada pelo professor Stefano Margaritora, auxiliado pelos médicos Elisa Meacci, Maria Teresa Congedo e Leonardo Petracca Ciavarella, enquanto a anestesiologia ficou a cargo de Massimo Antonelli, Giovanni Punzo e Giuseppe Bello. Segundo o relatório do Vaticano, “o Santo Padre permaneceu na sala de cirurgia por cerca de três horas, enquanto a intervenção teve duração aproximada de 90 minutos. A cirurgia foi bem-sucedida e não houve complicações. Após a intervenção, o Papa despertou normalmente e, depois de um breve período de observação, retornou ao seu quarto, no 10º andar”.
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O problema de saúde havia sido revelado pelo próprio líder católico no domingo (11), após a oração do Angelus na Praça de São Pedro. Na ocasião, ele explicou aos fiéis a necessidade do procedimento. “Caríssimos, recentemente, durante alguns exames, os médicos encontraram em mim um nódulo circunscrito ao pulmão. Foi identificado em uma fase inicial e está bem localizado. Os médicos consideraram oportuno intervir”, declarou o papa Leão XIV.
Como o adenocarcinoma pulmonar se desenvolve e atinge não fumantes
O adenocarcinoma pulmonar é um tipo de câncer originado nas células glandulares dos pulmões, estruturas encarregadas da produção de substâncias como o muco. Classificado dentro do grupo dos cânceres de pulmão de não pequenas células, esse tumor é um dos subtipos mais frequentes da doença e costuma se instalar nas áreas periféricas do órgão. Como a evolução inicial frequentemente ocorre de maneira silenciosa e sem manifestações clínicas evidentes, muitos diagnósticos acontecem de forma incidental durante exames de rotina solicitados por outras razões médicas.
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Embora o tabagismo ativo seja a causa predominante das neoplasias pulmonares em geral, o adenocarcinoma pulmonar representa o subtipo mais comum diagnosticado entre pessoas que nunca fumaram, além de apresentar incidência relevante em mulheres e jovens. Nesses pacientes sem histórico de consumo direto de tabaco, o aparecimento das lesões celulares está associado a fatores ambientais, ocupacionais e biológicos específicos que agridem o tecido respiratório ao longo do tempo ou provocam alterações celulares espontâneas.
A literatura médica aponta diversos elementos de risco para o desenvolvimento da doença, embora a presença deles não determine obrigatoriamente o surgimento do tumor:
- Tabagismo passivo: inalação frequente da fumaça de cigarro por convivência com fumantes.
- Poluição atmosférica: exposição prolongada a poluentes do ar e material particulado.
- Agentes químicos e minerais: contato com gás radônio, amianto (asbestos, fibra mineral usada historicamente na construção civil e indústria), sílica e fuligem de diesel.
- Doenças respiratórias prévias: quadros crônicos que provocam cicatrizes ou inflamações no órgão, a exemplo da fibrose pulmonar.
- Histórico médico e genético: tratamentos anteriores de radioterapia na região do tórax, mutações genéticas específicas e casos de câncer pulmonar em familiares próximos.
Sintomas do adenocarcinoma pulmonar e índices do INCA no Brasil
Quando o tumor avança e passa a provocar sinais físicos, as manifestações variam de acordo com a área afetada e a extensão da lesão. Os sintomas principais incluem tosse persistente ou com agravamento progressivo, expectoração com sangue, falta de ar, dor ou chiado no peito, rouquidão, cansaço contínuo, perda de peso sem motivo aparente e infecções respiratórias de repetição. Como esses quadros também ocorrem em outras enfermidades, a persistência ou piora dos sinais exige avaliação médica presencial.
A ausência de sintomas precoces impacta diretamente as estatísticas de detecção da doença: no Brasil, mais de 80% dos casos de câncer de pulmão são diagnosticados em estágios mais avançados, de acordo com estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Para o professor doutor de cirurgia torácica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Alessandro Mariani, a detecção precoce altera o cenário clínico. “Um nódulo pequeno, bem delimitado e encontrado antes de causar sintomas, pode representar uma oportunidade importante”, afirmou o especialista.
Para identificar a doença antes do agravamento, o INCA recomenda o rastreamento por meio de tomografia computadorizada de baixa dose exclusivamente para um grupo específico: fumantes e ex-fumantes com idades entre 50 e 80 anos que tenham carga tabágica de pelo menos 20 maços-ano (medida que multiplica o número de maços fumados por dia pelos anos de tabagismo). Não há indicação de rastreamento populacional amplo para indivíduos fora desse perfil.
Exames de diagnóstico e opções de tratamento para o adenocarcinoma pulmonar
A investigação clínica começa geralmente com exames de imagem, como a radiografia de tórax, capaz de apontar alterações estruturais, e a tomografia computadorizada, que detalha o formato e a localização de nódulos. Diante da suspeita oncológica, o médico solicita uma biópsia — coleta de fragmento do tecido pulmonar para análise em laboratório — e eventuais testes moleculares voltados a mapear mutações nas células tumorais. Confirmada a neoplasia, novos exames verificam o estadiamento (grau de avanço ou disseminação do tumor), avaliam o comprometimento dos linfonodos (gânglios do sistema imunológico) e buscam possíveis metástases em outros órgãos.
A lobectomia — procedimento cirúrgico que remove integralmente o lobo pulmonar onde o tumor está instalado, exatamente a técnica aplicada no papa Leão XIV — é considerada a cirurgia padrão mais adequada para retirar a doença localizada de forma anatômica. Além da intervenção cirúrgica, o plano terapêutico varia conforme as condições clínicas do paciente e as características biológicas do tumor, podendo envolver outras quatro abordagens médicas:
- Quimioterapia: administração de medicamentos para destruir células cancerígenas, aplicável antes ou depois da operação ou em estágios avançados.
- Radioterapia: uso de radiação direcionada para eliminar células tumorais em áreas específicas.
- Imunoterapia: medicamentos que estimulam o próprio sistema imunológico do paciente a identificar e combater o tumor.
- Terapias-alvo: fármacos desenhados para bloquear alterações moleculares específicas identificadas nos testes genéticos das células malignas.
Cura do adenocarcinoma pulmonar e próximos passos para o papa Leão XIV
O adenocarcinoma pulmonar tem possibilidade de cura sobretudo quando é descoberto em fase inicial, permanece restrito ao local de origem e permite a remoção cirúrgica completa. Apesar disso, o êxito imediato de uma operação não garante isoladamente a erradicação definitiva da doença, pois o prognóstico depende da análise anatomopatológica do tecido retirado, da avaliação dos linfonodos e da resposta individual ao acompanhamento médico.
No caso do pontífice, o Vaticano ainda não divulgou o estadiamento completo do tumor, o resultado das análises de linfonodos nem informou se haverá necessidade de tratamentos complementares após a recuperação da cirurgia. O papa Leão XIV permanecerá internado no Hospital Policlínico Gemelli por cerca de uma semana, e todas as suas audiências e compromissos públicos estão cancelados até 20 de outubro de 2026.
