A cobertura de gelo marinho do Ártico encolheu para 4,60 milhões de quilômetros quadrados (1,78 milhão de milhas quadradas) em 12 de setembro de 2026, data em que atingiu sua extensão mínima anual após o derretimento de verão. O levantamento, divulgado pela agência espacial norte-americana (NASA) e pelo National Snow and Ice Data Center (NSIDC, o centro nacional de dados sobre neve e gelo dos Estados Unidos) em outubro de 2026, coloca o índice empatado estatisticamente com os anos de 2008, 2010 e 2025 como a 10ª menor marca em quase cinco décadas de observação contínua por satélites.
A média mensal de setembro de 2026 fechou em 4,81 milhões de quilômetros quadrados (1,86 milhão de milhas quadradas), o que representa a 13ª menor média para o mês em toda a série histórica. Esse volume ficou 1,6 milhão de quilômetros quadrados (618.000 milhas quadradas) abaixo da média registrada entre 1981 e 2010. Para calcular a extensão, o NSIDC utiliza médias móveis de cinco dias e contabiliza toda a área do oceano com concentração de pelo menos 15% de água congelada, considerando como empate técnico variações de até 40.000 quilômetros quadrados.
Veja também: Inteligência artificial favorece manutenção de regras climáticas
Para Walt Meier, cientista sênior do NSIDC na Universidade do Colorado em Boulder, o resultado confirma uma alteração estrutural na região polar. “A mínima deste ano é mais uma baixa extensão em um Ártico transformado. Embora a mínima deste ano esteja alinhada com os anos recentes, ela é muito menor do que qualquer coisa que vimos nas décadas de 1980, 1990 e no início dos anos 2000”, afirmou o pesquisador, em tradução livre.
Série histórica do Ártico concentra as 20 menores marcas desde 2007
O monitoramento espacial contínuo teve início no final de 1978 e revela que o ciclo natural da região — no qual o oceano congelado se expande durante o inverno escuro até atingir o pico em março e recua nos meses mais quentes até setembro — sofreu reduções nas duas pontas do calendário. Todos os 20 verões compreendidos entre 2007 e 2026 ocupam as 20 primeiras posições no ranking das menores extensões mínimas de setembro já medidas, sendo que o recorde absoluto de baixa ocorreu em setembro de 2012. Apesar dessa sequência, o ritmo de perda durante o verão desacelerou na última década, mantendo os índices de setembro relativamente estáveis em comparação com a queda acelerada observada nos anos 2000.
Confira também: Florestas tropicais podem ter clima extremo como rotina em 2043
Essa estabilização recente não indica recuperação da calota polar, mas sim um novo equilíbrio sazonal influenciado por condições meteorológicas de curto prazo. Entre junho e agosto de 2026, mesmo com as temperaturas globais do ar próximas ou em patamares recordes, o verão sobre o Oceano Ártico teve tempo frio, tempestades e maior cobertura de nuvens, fator que reduziu a incidência direta de luz solar e freou o derretimento adicional. Ainda assim, o comportamento do gelo chamou a atenção dos pesquisadores pela falta de compactação no setor do Atlântico, onde blocos dispersos se estenderam até o Polo Norte e permitiram que o navio quebra-gelo sueco Oden chegasse ao ponto mais setentrional do planeta.
Acompanhe: Mosquitos transmissores da dengue ampliam presenca pelo mundo
O diretor do NSIDC, Mark Serreze, destacou essa condição atípica observada na temporada. “Tem sido um ano estranho. Foi apenas a décima menor em extensão, mas, apesar do verão razoavelmente frio no Oceano Ártico, havia gelo solto até o polo”, declarou, em tradução livre.
Leia também: Programa de Mudanças Climáticas da FAPESP inclui saúde e ciências sociais
Perda de gelo antigo no Ártico e recorde negativo no inverno de 2026
Além da redução na área total coberta, os dados compilados com visualizações de Michala Garrison, responsável pelas imagens do NASA Earth Observatory
, mostram uma mudança na espessura e na idade da camada congelada. Historicamente, grande parte da bacia polar abrigava o chamado gelo multianual, que sobrevive a pelo menos uma temporada de derretimento no verão e acumula espessura e resistência ao longo de vários anos. Com o declínio acentuado desse material mais antigo — nesta quinta-feira (15) restrito a faixas ao norte da Groenlândia e perto do polo —, a região passou a ser dominada pelo gelo de primeiro ano, que se forma em um único inverno, é mais fino e derrete com maior facilidade quando o calor retorna.O enfraquecimento da cobertura também aparece nos dados de inverno, período em que o congelamento atinge seu ápice anual. No dia 15 de março de 2026, o pico máximo de gelo marinho do Ártico empatou estatisticamente com a marca de março de 2025 como o menor máximo de inverno de todo o registro de satélites. No Hemisfério Sul, onde as estações são invertidas, o gelo marinho da Antártida atingiu sua extensão máxima anual de inverno em 14 de setembro de 2026, cobrindo 17,59 milhões de quilômetros quadrados (6,79 milhões de milhas quadradas), o que representa a terceira menor máxima da série histórica antártica.
Sobre o cenário no polo oposto, o cientista sênior do NSIDC Ted Scambos apontou o atraso na formação da cobertura austral. “O gelo marinho da Antártida durante a temporada de crescimento deste ano ficou constantemente atrás da média de longo prazo”, disse, em tradução livre.
Projeção de verão sem gelo no Ártico até 2050 e medição por micro-ondas
Flutuações climáticas naturais, como a Oscilação do Ártico — um padrão de circulação atmosférica que altera ventos e temperaturas regionais —, interferem no volume de água congelada de um ano para o outro, mas não explicam a queda persistente medida desde 1978. Combinando a variabilidade natural ao aumento das temperaturas globais, os cientistas projetam que o Oceano Ártico poderá ficar essencialmente livre de gelo marinho durante o verão pelo menos uma vez antes da metade do século XXI, ou seja, antes de 2050.
Para rastrear essas mudanças mesmo sob nuvens densas ou durante a escuridão do inverno polar, os pesquisadores utilizam sensores de micro-ondas passivas instalados em satélites, que captam a energia emitida naturalmente pela superfície da Terra e diferenciam a água líquida do gelo marinho. A série contínua começou no fim de 1978 com a espaçonave Nimbus-7 da NASA, prosseguiu a partir de 1987 com os satélites do Defense Meteorological Satellite Program (DMSP, programa de satélites meteorológicos de defesa dos Estados Unidos) e contou com o satélite Aqua da NASA entre 2002 e 2011. A partir de 2025, o monitoramento incorporou as medições do satélite GCOM-W1 (também chamado de SHIZUKU), operado pela agência espacial japonesa (JAXA).
O acompanhamento técnico publicado em 7 de outubro de 2026 pelo NSIDC e pelo NASA Earth Observatory detalha que os mapas de satélite apresentam um círculo branco exatamente sobre o Polo Norte, conhecido como buraco polar (pole hole, no termo técnico em inglês). Essa circunferência corresponde a uma área fora do alcance histórico de inclinação dos sensores espaciais, onde os cientistas assumem, para efeito de cálculo da extensão total, que o oceano permanece integralmente coberto por gelo.
