Deepfakes e golpes com IA: viagem de pedreiro a MG motiva orientações técnicas e alerta jurídico no Brasil

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Golpes com inteligência artificial - Andrii Yalanskyi / shutterstock.com Foto: Golpes com inteligência artificial - Andrii Yalanskyi / shutterstock.com

O pedreiro Edimar Rocha Martins, de 49 anos, viajou mais de 2 mil quilômetros de ônibus entre Imperatriz, no Maranhão, e Belo Horizonte, em Minas Gerais, para encontrar uma mulher gerada por inteligência artificial (IA), episódio que levou especialistas em tecnologia e direito a detalharem nesta quinta-feira (15) métodos de detecção de deepfakes (vídeos e áudios falsos manipulados digitalmente) e punições legais. O uso dessas ferramentas para cometer o crime de fraude eletrônica prevê pena de quatro a oito anos de reclusão e multa no Brasil.

Martins saiu do Maranhão na sexta-feira (9) e desembarcou na capital mineira no domingo (11) na expectativa de viver em uma fazenda com uma mulher apresentada nas redes sociais como Jéssica Oliveira ou Jéssica Fazendeira. Ao chegar sem endereço e mostrar fotos a moradores, descobriu que a pretendente não existia. “Tem coisa pior do que uma solidão, né? A solidão é tristeza, desânimo, depressão. Eu vim, mas não encontrei a pessoa que estava prevista”, declarou o trabalhador, que havia perdido a mãe recentemente.

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Como identificar deepfakes por falhas visuais e ferramentas forenses

Para evitar novos golpes com IA após o episódio em Minas Gerais, o cientista de dados Arnobio Morelix, da Faculdade Sirius, orienta que a verificação de um vídeo suspeito priorize o contexto da mensagem, especialmente diante de pedidos de senha ou decisões urgentes, pois os defeitos visuais estão diminuindo. Mesmo com o avanço tecnológico, falhas na sincronia entre lábios e voz — quando a boca fica entreaberta, fecha atrasada ou os dentes parecem um bloco único —, ausência de pausas naturais de respiração na fala sintética e iluminação excessivamente uniforme no rosto em relação ao fundo ainda entregam a manipulação.

inteligência artificial
Foto: inteligência artificial – Mer_Studio/Shutterstock.com

“O erro que a gente vê hoje é procurar defeitos na imagem, mas o deepfake de hoje é muito bom na imagem; o que ele é ruim é no contexto”, afirmou Morelix.

No campo do rastreio técnico, o especialista em IA e diretor-executivo (CEO) da Allcom Telecom, Marcio Fabozi, aponta o uso de programas de identificação forense digital, como SynthID, Hive AI e Reality Defender, além do padrão de marca d’água C2PA empregado em conteúdos das plataformas Gemini e Claude. “Um detector como esses pode apontar indícios de manipulação, mas a confirmação depende de outras verificações, como a fonte, o contexto e a autenticidade da informação”, disse Fabozi, ressaltando que nenhuma ferramenta é infalível isoladamente.

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Punições para fraudes com IA e aumento de 126% nos ataques no Brasil

O alerta sobre mecanismos de verificação ocorre diante da expansão das fraudes com técnicas avançadas de IA e identidades sintéticas, que cresceram mais de 126% no Brasil em 2025, enquanto tentativas de ataque via programas mal-intencionados subiram 220%, segundo o 5º relatório anual Identity Fraud Report 2025-2026. A empresa de cibersegurança NordVPN, que tem Marijus Briedis como diretor de tecnologia, também advertiu que criminosos simulam rostos e vozes de pessoas conhecidas para promover investimentos falsos nas redes sociais. Na esfera jurídica, o advogado Rodrigo Baraldi explica que a produção ou o compartilhamento de deepfakes configura crime quando serve de instrumento para estelionato, fraude eletrônica, crimes contra a honra ou violência psicológica contra a mulher, permitindo que a vítima acione a Justiça criminal e peça indenização por danos morais e materiais na esfera cível, independentemente de condenação penal.

Desfecho do caso de Edimar Rocha Martins em Belo Horizonte

O perfil virtual que atraiu o pedreiro acumulava mais de 300 mil seguidores em plataformas como o TikTok, com vídeos nos quais a personagem dizia ser divorciada e prometia sustentar um companheiro no interior mineiro. Sob condição de anonimato, o administrador da página afirmou que criou a conta como isca de audiência para gerar vendas como afiliado e negou conversas privadas com Martins, que relatou ter recebido respostas automáticas.

Sem recursos financeiros após os gastos da viagem, o trabalhador recebeu assistência pública em 13 de outubro de 2026 e a conta virtual foi encerrada no dia seguinte:

  • Terça-feira, 13 de outubro de 2026: acolhido pela Unidade de Atendimento e Acolhimento ao Migrante da Prefeitura de Belo Horizonte, Martins embarcou de ônibus com passagem custeada pelo município rumo ao seu estado natal, o Tocantins.
  • Quarta-feira, 14 de outubro de 2026: o criador do perfil Jéssica Oliveira desativou a página e a prefeitura emitiu um alerta oficial nas redes sociais sobre conteúdos manipulados por IA.
  • Quinta-feira, 15 de outubro de 2026: a Polícia Civil de Minas Gerais informou que não houve registro de boletim de ocorrência sobre o caso e esclareceu que criar personagens com IA não é crime por si só, salvo quando usado para causar prejuízo patrimonial e obter vantagem ilícita.

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Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol

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