FMI alerta que IA deve afetar 40% das vagas de emprego no mundo

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Carteira de trabalho, dinheiro Foto: Carteira de trabalho, dinheiro - Etalbr/shutterstock.com

A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, alertou que a inteligência artificial (IA) pode afetar cerca de 40% dos empregos no mundo ao longo do tempo. A declaração ocorreu durante o painel de abertura das Reuniões Anuais do FMI e do Grupo Banco Mundial, realizado no Queen Sirikit National Convention Center, em Bangkok, na Tailândia. Segundo a dirigente, o avanço tecnológico ameaça de forma direta as vagas de entrada para jovens em início de carreira.

Georgieva classificou a transformação no mercado de trabalho como um fenômeno gradual que pode aumentar a produtividade em determinadas áreas, reduzir a relevância de funções ou eliminar postos de forma definitiva. “É um tsunami lento, mas continua a ser um tsunami. Estimamos que, ao longo do tempo, cerca de 40% dos empregos sejam reforçados pela IA, desvalorizados ou eliminados”, afirmou a diretora-gerente. Ela acrescentou que a tecnologia já faz parte da rotina profissional: “IA, ame-a ou odeie-a. Ela já está aqui”.

Como a inteligência artificial afeta o primeiro emprego dos jovens?

Inteligência artificial - gguy - shutterstock.com
Foto: Inteligência artificial – gguy – shutterstock.com

O impacto sobre os profissionais recém-formados ocorre porque a automação atinge primeiro as tarefas administrativas, rotineiras e repetitivas, que tradicionalmente funcionam como porta de entrada nas empresas e permitem aos trabalhadores adquirir experiência para subir na carreira. Durante o debate intitulado Small AI: More and Better Jobs (IA pequena: mais e melhores empregos, em tradução livre), o presidente de Singapura e copresidente do Conselho de Empregos do Banco Mundial, Tharman Shanmugaratnam, defendeu a criação de incentivos permanentes à contratação de jovens e políticas de aprendizado contínuo para conter o problema.

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“Há um problema específico que precisamos resolver muito em breve: o primeiro degrau no emprego, o primeiro trabalho depois da formatura, está enfrentando uma demanda menor”, disse Shanmugaratnam. O líder de Singapura afirmou ainda que a falta de ação governamental pode aprofundar a distância entre nações ricas e pobres na geração de vagas qualificadas: “A IA vai ampliar essa divergência se formos passivos demais diante dela”.

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A exposição das vagas varia conforme o nível de desenvolvimento econômico de cada região e o ritmo de exigência das empresas, segundo os dados apresentados no encontro em Bangkok:

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  • Economias avançadas: cerca de 60% dos postos de trabalho estão expostos aos impactos da tecnologia.
  • Países de baixa renda: o índice de exposição cai para aproximadamente 23%, diferença atribuída por Georgieva à difusão tecnológica ainda distante nessas nações.
  • Exigência nos Estados Unidos: estudo preliminar citado no evento aponta que 10% das vagas abertas no país já cobram habilidades na ferramenta.
  • Queda em áreas expostas: pesquisas mencionadas pela economista sênior do Departamento de Ásia e Pacífico do FMI, Divya Kirti, indicam retração de cerca de 10% na demanda de contratação nas funções em que a ferramenta é mais útil.

Enquanto encolhem as vagas administrativas de início de carreira, o mercado registra aumento na oferta de empregos com salários mais baixos na construção civil e na operação de centros de processamento de dados (data centers, estruturas físicas que armazenam e processam grandes volumes de informações digitais). Kirti observou, contudo, que os empregadores mantêm a busca por profissionais capazes de utilizar os sistemas para produzir mais.

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Investimentos em IA sustentam projeção de crescimento do FMI para 2026

Apesar da pressão sobre o mercado de trabalho, os gastos com infraestrutura e equipamentos tecnológicos ajudam a manter a expansão econômica mundial perto de 3%, compensando parte do choque no fornecimento e nos preços de energia provocado pela guerra no Oriente Médio. Estados Unidos, China e Índia lideram a cadeia de desenvolvimento da tecnologia, mas os ganhos de produção se espalham pelos países asiáticos que fornecem semicondutores e componentes, incluindo a anfitriã Tailândia.

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No relatório Perspectivas Econômicas Mundiais (World Economic Outlook), o fundo atualizou suas estimativas macroecômicas e detalhou o peso da tecnologia no Produto Interno Bruto (PIB) de diferentes blocos:

  • Crescimento global em 2026: projeção elevada para 3,1%, ante a estimativa de 3,0% divulgada em julho, mas abaixo da expansão de 3,5% registrada em 2025.
  • Crescimento global em 2027: previsão mantida em 3,4%.
  • Economias asiáticas avançadas: o choque de investimentos no setor pode adicionar de 0,5 a 1 ponto percentual (medida que soma diretamente sobre a taxa percentual total) ao PIB.
  • Economias emergentes da Ásia: o impulso estimado pela demanda de infraestrutura varia de 0,2 a 0,8 ponto percentual.
  • Projeção para o Brasil: o relatório de outubro reduziu a estimativa de crescimento do PIB brasileiro em 2026 para 2,2%.

Concentração no comércio global entre Estados Unidos e China

Os dados históricos de comércio exterior mostram que a corrida tecnológica está concentrada em poucas nações. De acordo com a economista-chefe e diretora do departamento de pesquisa do FMI, Silvana Tenreyro, as vendas internacionais de produtos ligados à inteligência artificial avançaram 29% entre 2023 e 2025, ritmo mais de três vezes superior ao crescimento de 8,3% registrado pelo comércio global no mesmo intervalo.

Estados Unidos e China concentram mais de três quartos da demanda líquida mundial por importações de semicondutores e equipamentos do setor. O relatório de outubro aponta também que apenas 32 países respondem por 95% da expansão econômica global prevista, uma redução frente aos 54 países que sustentavam o crescimento na leitura de abril de 2026. “A economia global tem se mostrado resiliente, mas essa resiliência está chegando ao limite. Por isso, precisamos passar de apenas lidar com a situação para reconstruir”, declarou Tenreyro.

Reforma em impostos, educação e o uso da Small AI em emergentes

Para enfrentar a transição econômica, Kristalina Georgieva afirmou que os governos precisarão reformular seus sistemas tributários e educacionais. A avaliação do FMI é que a substituição de mão de obra por equipamentos desloca a geração de riqueza do trabalho humano para o capital, o que reduz a base de arrecadação dos governos que dependem de impostos sobre a renda e a folha de pagamentos. Na educação, a orientação é substituir o modelo restrito ao início da carreira por programas de atualização contínua. Como exemplo do uso diário da ferramenta, Georgieva relatou que utiliza um assistente digital que lhe envia todas as manhãs um resumo de 30 segundos sobre sua agenda.

Já o presidente do Grupo Banco Mundial, Ajay Banga, apresentou uma visão distinta sobre o desaparecimento de vagas iniciais e avaliou que o impacto dos grandes modelos de linguagem ficará concentrado nas economias avançadas. Para os países em desenvolvimento, Banga defendeu a adoção da chamada Small AI (sistemas menores e mais baratos que não exigem alto processamento de dados) para elevar a produtividade na agricultura familiar, em clínicas de saúde básica, na indústria e nas salas de aula. O calendário oficial do encontro na Tailândia teve a seguinte programação definida pelas instituições:

  • 12 de outubro de 2026: abertura das Reuniões Anuais em Bangkok e realização do painel sobre empregos com Georgieva, Banga e Shanmugaratnam.
  • terça-feira (13): publicação do relatório Perspectivas Econômicas Mundiais pelo FMI.
  • domingo (18): encerramento oficial das reuniões anuais do FMI e do Grupo Banco Mundial na capital tailandesa.

Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing

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